"Minha Filha de Três Anos Decidiu Cuidar do Homem Mais Temido da Cidade" Capítulo 10

Metade para você

Candidatei-me à bolsa na semana seguinte. Entreguei os documentos à equipe do programa, esperei a análise e fui aprovada pouco antes do início das aulas.

Alessandro soube por mim, na cozinha, quando ergui o telefone com a mensagem aberta.

Ele sorriu antes mesmo de terminar de ler.

"Você conseguiu."

"Agora falta passar nas matérias."

"Imagino que vá conferir todas as notas."

"Com duas casas decimais."

Ele me puxou pela mão e beijou meus dedos. Dona Lúcia apareceu na porta, anunciou que havia coisas que uma governanta não precisava presenciar e voltou para buscar uma travessa, sorrindo.

Nos primeiros meses, eu continuava trabalhando na casa. Havia aulas à noite, horários combinados e dias em que o ônibus demorava tanto que eu chegava com vontade de chorar. Minha vizinha ficou com Lia em algumas noites; em outras, Alessandro e Lúcia organizaram o jantar e a história antes de dormir.

Nem sempre eu aceitava ajuda com facilidade. Nem sempre ele conseguia oferecê-la sem parecer que estava dando uma ordem.

Uma noite, encontrei minha bolsa dentro do carro dele, pronta para ser levada à faculdade. Eu tinha combinado de ir com uma colega e fiquei irritada.

"Você podia ter perguntado."

Alessandro olhou para o motorista, depois para mim. Pediu que nos deixasse sozinhos.

"Achei que facilitaria."

"Facilitaria se eu tivesse concordado. Agora minha colega está me esperando no ponto."

Ele retirou a bolsa do banco e me entregou.

"Tem razão. Eu me adiantei."

Peguei a bolsa, ainda aborrecida. Antes de sair, voltei para beijá-lo.

"Não precisa acertar tudo. Só precisa me ouvir quando digo que uma coisa me incomoda."

Ele segurou minha mão mais um instante.

"Estou ouvindo. Boa aula."

Na semana seguinte, perguntou antes de organizar o transporte. Aceitei em dois dias. No terceiro, fui com minha colega.

Lia considerava todas aquelas mudanças detalhes menores. Para ela, o importante era que Alessandro já sabia qual tigela usar no mingau e não tentava colocar o coelho na máquina de lavar.

No aniversário de um ano da minha chegada, reunimos a família no jardim. Eu terminara o primeiro semestre e estava orgulhosa de uma nota que não teria coragem de mostrar a ninguém alguns meses antes.

Alessandro a mencionou durante o brinde.

"Nove e meio em estatística."

"Os outros meio ponto foram uma injustiça", respondi.

Luca ergueu a taça.

"Ela vai revisar os números da empresa. Estamos todos perdidos."

Ele já recuperara suas atribuições, depois da revisão dos procedimentos, e aprendera a ler os documentos antes de assinar. Pelo menos era o que afirmava quando Alessandro o provocava.

O caso de Paulo continuava com os responsáveis pela apuração. A empresa corrigira os registros e contratara outra direção financeira. Nada daquilo desapareceu de um dia para o outro, mas deixou de ocupar todas as nossas conversas.

Daniel veio com Miguel. Os dois adultos ainda se irritavam mutuamente. Naquela tarde, discutiram sobre a universidade que Daniel escolheria e só pararam quando ele lembrou que o candidato era ele.

Lia, agora com quatro anos, correu até Alessandro com uma varinha de bolhas de sabão.

"Vem ver uma grande."

"Vou assim que terminar de falar com sua mãe."

Ela segurou a varinha com as duas mãos.

"Por favor?"

Ele olhou para mim.

"Ela descobriu como tornar uma negociação injusta."

"Você podia dizer não."

Lia esperou, os olhos muito abertos.

Alessandro moveu a cadeira na direção do gramado.

"Podia."

Foi naquele ano que recebi uma proposta para trabalhar como auxiliar no setor contábil do grupo. Passei por entrevista, aceitei começar com tarefas simples e cheguei ao primeiro dia temendo cometer um erro em cada planilha.

Alessandro não prometeu que eu seria ótima. Perguntou, ao fim do expediente, se eu queria falar sobre o dia ou jantar primeiro.

Escolhi jantar. Depois falei durante quarenta minutos.

Nos anos seguintes, a casa ganhou o ritmo de gente que entrava e voltava. Daniel se mudou para São Paulo para estudar arquitetura e aparecia aos domingos, às vezes trazendo roupas para lavar. Miguel passou a visitar sem precisar de uma ocasião especial. Luca se casou, e Lia levou as flores com a responsabilidade de quem transportava um tesouro.

Eu e Alessandro continuamos saindo para jantar. Em algumas noites, ele esquecia os relatórios sobre a mesa e me esperava na varanda. Em outras, era eu quem fechava o caderno tarde demais, e ele aparecia com duas xícaras.

Acabamos escolhendo um quarto para mim e para Lia perto do jardim, quando decidimos morar juntos. Meu apartamento foi entregue depois de uma conversa longa, algumas contas refeitas e uma última noite em que comi pizza sentada no chão com minha filha.

Ela se despediu da parede onde marcávamos sua altura. Eu fotografei todas as marcas antes de sair.

A fisioterapia de Alessandro continuou. Ele não voltou a andar. Aprendeu formas mais confortáveis de se transferir, retomou a natação e passou a ir à empresa com frequência. Também aprendeu a chegar cedo às apresentações da escola para escolher um lugar de onde pudesse ver Lia.

Ela sempre o encontrava na plateia.

Quando meu diploma chegou, Lia tinha sete anos e um coelho com uma orelha remendada tantas vezes que o tecido original quase desaparecera.

Entrei no escritório segurando o envelope. A porta estava aberta. Minha filha fazia a lição no sofá, com os pés descalços dobrados sob o corpo.

Alessandro ergueu os olhos.

Não precisei dizer nada.

Ele veio até mim, e eu me sentei na poltrona ao seu lado para abrir o documento. Li meu nome devagar. Depois li de novo.

"Eu consegui", falei.

Ele apertou minha mão.

"Conseguiu."

Lia abandonou o caderno.

"Isso significa que hoje tem bolo?"

"Significa que sua mãe terminou a faculdade", Alessandro respondeu.

"Eu sei. Mas tem bolo?"

Ele olhou para mim e começou a rir.

"Tem", confirmei. "Com bastante cobertura."

Minha filha abriu uma gaveta da mesa e retirou um pote pequeno. Dentro, havia biscoitos feitos na véspera. Ela e Alessandro mantinham aquele estoque com a organização que nenhum dos dois demonstrava quando o assunto era guardar lápis.

Lia partiu um biscoito.

"Metade para você."

Entregou a outra metade a mim e se encostou no braço de Alessandro.

"Você estava triste quando a gente chegou, não estava?"

Ele olhou para ela antes de responder.

"Estava."

"Ainda fica?"

"Às vezes. Sinto falta da minha irmã. Tem dias difíceis."

Lia pensou, observando o biscoito na mão dele.

"Mas você gosta de morar com a gente?"

O rosto dele se iluminou de um jeito que ainda fazia meu coração apertar.

"Gosto muito."

Ela assentiu, satisfeita, e foi procurar um prato para o bolo.

Mais tarde, no jardim, Daniel espalhou desenhos de um projeto ao lado das travessas. Miguel trouxe outra torta. Luca chegou com a esposa e a filha pequena, que Lia quis imediatamente ensinar a desenhar.

Alessandro ficou ao meu lado enquanto eu observava as duas sobre uma toalha na grama.

"Você está quieta", disse.

"Estou lembrando do meu primeiro dia."

Ele olhou para Lia.

"Eu também."

"Achei que ela tivesse acabado com a minha chance de trabalhar aqui."

"Ela acabou com a minha chance de almoçar em silêncio."

Eu ri, e ele puxou minha mão até a boca.

"Você sente falta?", perguntei.

Alessandro olhou para a mesa cheia, para os lápis espalhados e para Lia, que vinha correndo com outro biscoito na mão.

"Nem um pouco."

Ela parou diante dele, dividiu o biscoito e estendeu uma metade.

"Come. Esse fui eu que fiz."

"As listrinhas também?"

"Todas elas."

Ele abriu a mão, como naquela primeira tarde.

Lia colocou o pedaço em sua palma, beijou seu rosto e voltou correndo para a prima.

Alessandro comeu o biscoito. Depois manteve minha mão na sua enquanto a conversa à mesa recomeçava e minha filha ria no jardim.

Atrás de nós, a porta do escritório continuava aberta.

FIM

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