"Na Noite do Noivado Dele, o Mafioso Viu Minhas Feridas" Capítulo 11
Sem precisar me esconder
No primeiro sábado do curso, queimei uma fornada de biscoitos.
Não um pouco. O suficiente para que a professora abrisse a janela e alguém perguntasse se a receita incluía carvão.
Eu poderia ter passado o resto do dia me sentindo inadequada. Em vez disso, fotografei o desastre e mandei para Luca.
Ele respondeu com uma imagem de Bruno deitado diante do fogão.
Ele se ofereceu como avaliador, mas exijo que você declare todos os riscos.
Ri sozinha no ônibus, segurando a sacola com os biscoitos menos comprometidos. Uma senhora ao meu lado sorriu sem saber o motivo.
Nem tudo ficou fácil depois que saí do emprego na propriedade.
Houve entrevistas sem resposta, uma experiência numa cozinha com horário impossível e uma semana em que tive vontade de pedir meu avental de volta. Luca ouviu a frustração sem fingir que dinheiro não resolveria parte dela. Ofereceu ajuda, eu aceitei algumas caronas e recusei outras facilidades.
Aprendemos a conversar antes que as pequenas decisões virassem disputas sobre quem cuidava melhor de quem.
Depois de algumas semanas, comecei como auxiliar numa confeitaria de bairro. O salário precisava ser administrado com atenção, mas o horário permitia acompanhar minha mãe e continuar o curso. Eu passava o dia em pé outra vez, agora com farinha no cabelo e histórias novas para contar.
Luca foi me buscar na primeira sexta-feira.
A dona da confeitaria o viu na porta e passou a mão no próprio avental, nervosa. Ele comprou uma caixa de doces, pagou como qualquer cliente e esperou que eu terminasse de limpar a bancada.
No carro, abriu a caixa antes de ligar o motor.
"Qual deles você fez?"
Apontei um quadrado de massa amanteigada com recheio de limão.
Ele provou.
Esperei com uma ansiedade absurda.
"E então?"
"Quero levar outro para sua mãe."
"Isso é uma avaliação?"
Luca me olhou, ainda mastigando.
"Se eu disser que gostei muito, você vai achar que é porque sou seu namorado. Se comprar tudo, vai reclamar que estou tentando administrar a confeitaria. Estou procurando uma solução aceitável."
Comecei a rir.
Ele aproveitou para me beijar, com gosto de limão e açúcar.
Bruno continuou velho.
Eu gostava de dizer isso porque as pessoas pareciam esperar que uma história feliz devolvesse juventude a tudo que amávamos. Ele ainda precisava de remédios, escorregava se esquecíamos um tapete e se cansava depois de caminhadas curtas.
Mas estava em casa.
Tinha a manta azul, o lugar perto do escritório e um homem que aprendera a encerrar reuniões a tempo de acompanhá-lo no jardim.
Às vezes, eu chegava e encontrava os dois sob a árvore grande. Luca respondia mensagens enquanto Bruno farejava o mesmo pedaço de grama como se houvesse novidades extraordinárias ali.
Quando me via, Luca guardava o telefone.
Nem sempre podia abandonar o trabalho. Algumas noites continuavam difíceis. Havia ligações que ele atendia longe de mim e assuntos sobre os quais eu perguntava, recebia respostas incompletas e tornava a perguntar depois.
Ele não se transformou num homem simples.
Mas nunca mais me pediu que acreditasse apenas no silêncio. Se precisava sair, dizia. Se não podia contar tudo, admitia. E voltava às conversas que antes teria encerrado com uma ordem.
Minha mãe melhorou aos poucos. Recuperou força, voltou a cuidar das plantas e começou a reclamar de eu aparecer com doces demais em casa.
"Esse homem vai me fazer perder a cintura", dizia, aceitando a segunda fatia.
Luca sabia que ela estava se referindo aos doces que ele comprava para justificar visitas. Continuou levando.
Quatro meses depois daquela noite, Teresa propôs um jantar pequeno na propriedade. O aniversário dela se aproximava, e queria reunir a família sem ter que organizar a própria cozinha.
Célia assumiu os preparativos. Eu me ofereci para ajudar e recebi uma mensagem com letras maiúsculas.
VOCÊ VAI SENTAR.
Mostrei a Luca.
"Ela fala assim com você também?"
"Às vezes vem pessoalmente dizer. É pior."
Escolhi um vestido vinho, com as costas parcialmente abertas. Passei algum tempo diante do espelho antes de terminar de fechar o zíper.
A cicatriz não desaparecera. Era uma linha irregular, mais clara nas bordas, visível quando eu prendia o cabelo.
Minha mãe apareceu atrás de mim.
"Quer outro vestido?"
Toquei a marca sem pressionar.
Pensei na cesta de pão, nos alfinetes, no esforço de calcular cada passo para que ninguém me visse.
"Não. Gosto deste."
Rosa sorriu e me ajudou com o fecho.
Fomos juntas. Luca havia reservado o quarto de hóspedes do térreo para ela, porque sabia que se cansaria antes do fim da noite. Não anunciou a gentileza quando chegamos. Apenas mostrou onde ela poderia descansar e perguntou se preferia água ou café.
Minha mãe olhou para mim por cima do ombro dele.
Eu conhecia aquela expressão. Ela estava tranquila.
Enquanto Luca ajudava Teresa a resolver uma discussão amistosa sobre o vinho, passei pela cozinha. Havia uma travessa próxima da borda, e eu a afastei por reflexo.
Célia me viu.
"Nem pense."
"Eu só salvei a sobremesa."
"A sobremesa está bem. Vá salvar o humor do senhor Moretti. Ele já perguntou duas vezes onde você está."
Saí rindo. Encontrei Luca perto da entrada da sala de jantar, observando o corredor.
Ele me viu e relaxou os ombros.
"Aí está você."
"Estava a vinte metros."
"Muito longe."
Aproximei-me. Sua mão encontrou minha cintura, e ele inclinou o rosto para me beijar. Ao me abraçar, sentiu a pele descoberta sob os dedos.
Olhou para minhas costas por um instante, depois voltou ao meu rosto.
"Você está linda."
Não havia pena em seus olhos.
Eu me estiquei para arrumar a gola da camisa dele.
"Você também. Finalmente encontrei a palavra certa."
Luca sorriu, lembrando o primeiro jantar no terraço.
Durante a refeição, minha mãe e Teresa descobriram que tinham opiniões igualmente inflexíveis sobre plantas e filhos adultos. Daniel apareceu mais tarde, convidado para a sobremesa, e Bruno fez questão de se levantar quando sentiu o cheiro da comida.
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Luca se inclinou para acariciá-lo.
"Você já jantou."
O cachorro olhou para mim.
"Não me envolva", avisei.
Minha mãe soltou uma risada.
"Finalmente alguém nesta casa com juízo."
Bruno não pareceu concordar, mas se deitou aos nossos pés. Luca aproximou a cama com o sapato, sem interromper a conversa. Era um gesto pequeno, desses que só existem quando o cuidado já faz parte do dia.
Depois do jantar, fomos para o escritório. Rosa se recolheu cedo, Teresa ficou conversando com Célia, e a casa perdeu aos poucos o ruído dos pratos.
Eu estava sentada no sofá quando Bruno apareceu arrastando a manta azul.
Parou entre nós e a soltou sobre o tapete.
Luca olhou para o espaço livre do outro lado.
"Você tem uma cama inteira, sabia?"
Bruno continuou parado.
"Ele quer ficar aqui", expliquei.
"Eu percebi."
Luca se levantou, estendeu a manta entre nossos pés e ajudou o cão a se acomodar. Depois voltou a sentar e me puxou para perto, com minha cabeça apoiada em seu ombro.
Ficamos ouvindo a respiração de Bruno.
A porta do corredor estava aberta. Pessoas podiam passar e nos ver. Eu não precisava soltar a mão dele, endireitar a roupa ou procurar alguma coisa para carregar.
"No que está pensando?", Luca perguntou.
Olhei para a manta, para os fios dourados presos na calça dele, para nossas mãos juntas.
"Que achei que ia perder tudo naquela noite."
Ele acariciou meu polegar.
"Eu quase perdi algo que não conseguiria substituir."
Sabia que falava de Bruno, da ligação com a mãe, de um pedaço da casa que dinheiro nenhum poderia trazer de volta. Beijei seu ombro.
Luca virou o rosto para mim.
"Depois encontrei você."
Sorri.
"Eu já estava aqui."
"Eu sei."
Ele tocou meu rosto com a mão livre.
"Agora faço questão de olhar."
Beijei-o sem pressa. Bruno suspirou entre nossos pés, impaciente com a demora da noite, e nós dois rimos baixinho.
Mais tarde, antes de subirmos, Luca me ofereceu a mão. Levantei e fiquei diante dele por um instante, perto da porta por onde um dia saíra com medo de ser vista.
Ele esperou.
Peguei sua mão e o levei comigo.
Fim.
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