"Duas Pulseiras de Prata — e a Mãe Que Disseram Estar Morta" Capítulo 11
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DESTA VEZ, ELE TINHA UM CONVITE
O envelope chegou numa terça-feira, quase um ano depois de Caio entrar no Hotel Mirante com os tênis encharcados.
Agora, aos doze anos, seu nome estava impresso na frente.
Caio Martins.
Não havia o sobrenome Azevedo acrescentado em lugar nenhum. Ninguém perguntara se ele queria parecer mais com aquela parte da família.
Ele passou o dedo sobre as letras e levou o convite para mostrar à mãe no sábado.
Elisa já tinha o dela.
"Eu vou sentar perto da saída", avisou. "Se cansar, vou embora antes de vocês."
"Eu vou junto."
Ela inclinou a cabeça.
"A gente pode combinar na hora. Você não precisa perder a sobremesa por minha causa."
Caio sorriu. Era bom poder conversar sobre ir embora sem que aquilo parecesse uma ameaça.
A mãe continuava vivendo na casa de cuidados. Passava algumas tardes em Campinas, fazia passeios curtos e, quando estava bem, visitava Rosa em São Paulo. Havia dias em que a chamada durava meia hora e outros em que ficava para a manhã seguinte.
Caio ainda se decepcionava. Só já não precisava transformar cada adiamento numa resposta sobre ser amado ou não.
Na noite do jantar, escolheu o sapato menos apertado. Lurdes apareceu na porta do quarto com uma escova de roupa e examinou sua camisa.
"Você cresceu de novo."
"Estou tentando parar, mas ninguém me ensinou."
Ela riu e alisou seu ombro.
Dessa vez, Caio não se afastou.
Na mochila pequena, levou as cartas protegidas na pasta. Não precisava delas para provar quem era. Gostava de saber que estavam por perto. Colocou também uma cópia da fotografia das duas irmãs.
Neide foi até o portão para vê-los sair.
"Se desaparecer no banheiro outra vez, eu vou atrás pessoalmente."
"Hoje eu tenho convite."
"Ótimo. Isso facilita muito a identificação do fugitivo."
Ela ajeitou a gola dele e apertou seu rosto entre as mãos antes que pudesse reclamar.
No hotel, Caio reconheceu o desenho do tapete antes de reconhecer o cheiro. Parou por um segundo na entrada.
Um funcionário pediu o convite.
Ele entregou.
"Boa noite, Caio. Sua mesa fica à esquerda."
Era só uma frase. Mesmo assim, ele guardou o som dela.
Rosa esperava perto do salão. Usava um vestido verde e tinha prendido os cachos com duas presilhas prateadas. A pulseira estava no pulso direito.
"Você demorou", disse.
"Eu vim de Campinas. Não saí do armário do hotel."
"Podia ter se organizado melhor."
Caio riu e se abaixou para abraçá-la. Já sabia de que lado chegar sem bater no apoio da cadeira.
Vítor cumprimentou Lurdes e Elisa. Quando se aproximou dele, Caio estendeu a mão primeiro. O homem apertou sem comentar o gesto.
"Tem pão de queijo?" Caio perguntou.
"A Rosa pediu que tivesse."
A prima apontou discretamente para uma mesa.
"Dessa vez você pode comer antes de começar uma briga."
Eles se sentaram juntos. Elisa examinou o salão, reconhecendo algumas pessoas e perguntando o nome de outras. Lurdes ficou ao lado dela, mas não respondia automaticamente quando a pergunta era dirigida à mãe de Caio.
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Augusto chegou depois.
Parou a alguns passos da mesa. Elisa ergueu a mão, indicando a cadeira vazia. Ele se aproximou com um cuidado que Caio ainda achava estranho num homem que antes parecia ocupar todo o lugar.
Durante o jantar, conversaram sobre coisas pequenas. O calor em Campinas. Uma obra na rua de Rosa. O gato do vizinho, que havia entrado na cozinha de Lurdes e dormido dentro da cesta de roupa limpa.
Caio mostrou no celular o desenho de um carro que fizera para a escola.
Augusto colocou os óculos.
"Esse motor cabe aí?"
"Não faço ideia. Eu desenho a parte de fora."
"Então estamos os dois fingindo que entendemos."
Caio riu. Vítor também.
Não era a primeira vez que ria com eles. Ainda era recente o bastante para que percebesse.
Depois da sobremesa, Elisa pediu para ver as pulseiras juntas.
Rosa e Caio estenderam os braços sobre a mesa.
"A minha está mais brilhante", ela comentou.
"A minha tem experiência."
Elisa passou o dedo pelo pequeno círculo aberto.
"A mãe de vocês..." Começou e parou, olhando para Rosa. "A sua mãe e eu achávamos essas pulseiras horríveis quando éramos adolescentes."
Rosa arregalou os olhos.
"Você não pode contar isso depois de tudo."
"Eu queria uma mais fina. A Clara dizia que parecia presente de velha."
Lurdes soltou uma risada. Augusto baixou a cabeça, sorrindo para o guardanapo.
Caio sentiu vontade de fazer uma pergunta que o acompanhava desde a primeira noite.
"O desenho era mesmo da oficina?"
Augusto confirmou.
"Meu avô deixava o círculo aberto de propósito. Eu contei a vocês."
"Contou", Caio disse. "Só queria saber se era verdade."
O velho ficou sério, depois assentiu outra vez.
"Era. Você faz bem em perguntar."
Mais tarde, Vítor saiu com Caio até as janelas enquanto Elisa descansava um pouco. A cidade aparecia entre os reflexos do salão.
"A Clara teria gostado de você", o homem disse.
Caio encostou a testa perto do vidro, sem tocar.
"Eu também teria gostado dela."
Vítor permaneceu calado.
Caio não retirou a frase. Ela precisava caber entre os dois sem que ele fosse obrigado a consolar ninguém depois.
Tirou da mochila a cópia da fotografia. Atrás, a promessa escrita pela tia continuava legível.
"Eu queria que ela tivesse conseguido."
"Eu também", Vítor respondeu.
Caio olhou para ele. Havia tristeza no rosto do homem, mas nenhum pedido escondido para que o menino dissesse que estava tudo resolvido.
Aquilo ajudava.
Rosa os chamou para a fotografia.
O fotógrafo havia escolhido um espaço perto das cortinas. Lurdes ajeitava o colarinho de Elisa, que protestava porque estava bom daquele jeito. Rosa mandou o pai parar de ficar na frente da luz.
Caio se colocou ao lado da mãe.
Quando o fotógrafo ergueu a câmera, percebeu que Augusto continuava perto da mesa.
O velho segurava os óculos com as duas mãos.
Caio olhou para Elisa. Ela acompanhou seu olhar e fez um movimento pequeno com a cabeça.
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Ele chamou:
"Tem lugar aqui."
Augusto se aproximou. Parou a uma distância discreta da filha. Elisa não se afastou.
Lurdes ficou do outro lado de Caio. Vítor se colocou atrás de Rosa, depois de perguntar se não estava cobrindo seu cabelo na foto.
"Meu cabelo está maior que você", ela respondeu. "É impossível."
Todos riram, inclusive Elisa. Caio sentiu a mão dela pousar em seu ombro.
Rosa ergueu o pulso discretamente.
Ele ergueu o seu.
O fotógrafo pediu que ficassem assim.
Antes do flash, Caio olhou para a mãe. Ela estava ali, com a blusa escolhida por ela, algumas marcas de cansaço no rosto e a mão quente em seu ombro.
Não era mais preciso imaginá-la do outro lado do céu.
"Está tudo bem?" Elisa perguntou baixinho.
Caio assentiu.
"Depois eu quero uma só com você."
"Depois a gente tira."
O flash iluminou as duas pulseiras.
Na hora de ir embora, Elisa já estava cansada. Caio pegou a bolsa dela enquanto Rosa esperava junto à saída. Augusto conversava com Lurdes sobre o caminho de volta, e Vítor conferia os carros.
A mãe chamou o filho antes que ele atravessasse a porta.
"Você almoçou?"
Caio parou.
Elisa franziu a testa, percebendo a confusão, e passou a mão pelo rosto.
"Jantou. Eu quis dizer se comeu direito."
Ele pensou no prato, na sobremesa e no pão de queijo dividido com Rosa.
"Comi, mãe. Comi bastante."
Elisa respirou, aliviada.
Caio ofereceu a mão livre. Ela segurou.
Saíram devagar. Do lado de fora, Rosa fazia comentários sobre o tamanho da lua, e Lurdes avisava que alguém precisava levar um pedaço de bolo para Neide.
Caio olhou uma última vez para as portas do hotel.
Na primeira noite, tinha entrado escondido, molhado e com uma fotografia que já começava a rasgar nas dobras. Queria que um estranho lhe dissesse quem era a mulher da imagem.
Agora a mulher caminhava ao seu lado.
"Vamos?" Elisa perguntou.
Ele apertou a mão dela, tomando cuidado com os dedos.
"Vamos. Amanhã eu tenho um monte de coisa para te contar."
FIM
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