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"O Velho de Jaqueta de Couro" Capítulo 1

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A JAQUETA VELHA

"O senhor veio buscar alguém ou quer que a gente arrume uma cadeira?"

Antônio parou com a mão na alça da bolsa. O rapaz à sua frente sorria, ainda de luvas, ocupando o espaço entre o banco e o caminho para o escritório. Atrás dele, dois homens interromperam o treino.

"Vim falar com o Geraldo."

"Então é melhor esperar sentado. Aqui o pessoal trabalha."

Uma risada veio de perto do bebedouro.

Antônio sentiu o calor subir pelo pescoço. Aos cinquenta e cinco anos, ainda não aprendera a gostar de ser tratado como se estivesse atrapalhando apenas por existir. Poderia responder. Tinha respostas suficientes depois de três décadas atendendo gente numa oficina.

Preferiu olhar para o fundo da academia.

A porta do escritório estava fechada. Pela janela estreita, reconheceu uma parede amarela, um calendário e a sombra de alguém ao telefone.

"Eu espero."

O rapaz examinou sua jaqueta de couro. Havia um remendo junto ao cotovelo esquerdo e uma faixa mais clara onde o sol castigara o ombro.

"Essa roupa aí já deve ter tomado mais pancada que muito sujeito daqui."

Antônio colocou a bolsa no banco.

"E ainda está servindo."

O homem perto do bebedouro riu de novo, desta vez com um som diferente. O rapaz de luvas apertou os lábios.

"Está vendo, Diego? O tio tem resposta."

Diego.

Antônio guardou o nome sem querer. Na parede atrás do rapaz, um cartaz anunciava uma apresentação de atletas da academia. A fotografia de Diego ocupava o centro, queixo levantado, punhos na altura do peito. Ao vivo, era mais baixo do que parecia na imagem, mas tinha braços fortes e se movimentava com facilidade.

Tinha talento, provavelmente. E uma plateia que o acostumara a confundir qualquer silêncio com consentimento.

Antônio tirou do bolso o celular. Havia uma mensagem de Ana.

Já chegou? Estou indo com a foto. Não inventa que a oficina pegou fogo.

Ele quase sorriu.

Ainda podia ir embora. Bastava dizer à filha que Geraldo estava ocupado. Ela ficaria irritada, depois insistiria em outro domingo, e ele inventaria outro serviço urgente.

Fazia isso havia anos.

Guardou o telefone.

"O Geraldo costuma demorar?"

Diego apoiou uma luva na bolsa aberta.

"O que você trouxe aí?"

"Minhas coisas."

A luva encostou no par de luvas antigas que Antônio carregara por impulso. Couro vinho escurecido nas costuras. O cheiro daquela bolsa ainda o transportava para um vestiário de trinta anos antes.

"Ah, então veio treinar mesmo."

Diego ergueu a voz. Um homem perto do espelho levantou o celular.

Antônio puxou a bolsa para junto de si.

"Pode tirar a mão."

O rapaz obedeceu, mas abriu os braços para os outros.

"Calma. Só estou tentando ajudar. O senhor sabe que isso aqui é boxe, não é?"

Antônio olhou diretamente para ele.

"Sei."

"Porque não basta comprar uma luva e achar que aguenta. Quer subir para ver?"

Havia um garoto sentado na ponta do banco, tentando enrolar uma faixa azul na mão. Magro, cabelo cortado bem curto, camiseta de um mercado. A faixa escorregava entre seus dedos. Ao perceber o olhar de Antônio, ele baixou a cabeça.

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A academia continuava quase igual. O ventilador fazia o mesmo ruído de peça frouxa. O ringue tinha sido reformado, mas uma coluna conservava a marca de uma antiga infiltração.

Antônio lembrava perfeitamente de ter entrado ali com medo de não pertencer.

Não lembrava de ter sido recebido daquela maneira.

"Você desafia todo mundo que passa pela porta?"

"Só quem parece interessado."

O celular se aproximou.

"Não me filma", Antônio disse ao homem.

"É só brincadeira."

"Então pode brincar sem isso."

A firmeza da própria voz o surpreendeu. Não era a voz que usava para discutir orçamento de motor. Era outra, guardada havia muito tempo.

O homem baixou o aparelho.

Antônio tirou a jaqueta. Dobrou as mangas para dentro, protegendo o couro gasto, e a colocou no banco. Por baixo, usava uma camiseta cinza sem estampa. Os ombros já não tinham o volume da juventude. Havia uma cicatriz pequena na base do polegar, lembrança de uma chapa de metal.

Pegou as bandagens.

"Se for para conversar sobre técnica, eu converso. Mas primeiro você chama o responsável."

Diego olhou para as mãos dele.

Antônio passou a alça pelo polegar, cobriu o punho e voltou sobre os nós dos dedos. Precisou desfazer uma volta. A articulação direita estava mais dura do que lembrava.

Ainda assim, o movimento encontrou seu caminho.

O garoto do banco parou de lutar com a faixa azul.

A porta do escritório abriu.

"O que está acontecendo aqui?"

Antônio não levantou a cabeça imediatamente. Terminou de prender a bandagem, pressionou os dedos uns contra os outros e só então procurou o treinador.

Geraldo estava mais magro. O cabelo desaparecera quase por completo, e os óculos pendiam de um cordão junto ao peito. Mas o jeito de se apoiar primeiro na perna esquerda continuava o mesmo.

O velho professor olhou para a bolsa, para as mãos enfaixadas, para o rosto de Antônio.

Deu um passo.

"Essa volta entre os dedos..."

Antônio sentiu a garganta se fechar antes de conseguir sorrir.

"Você dizia que eu sempre apertava demais."

Geraldo segurou o batente.

"Toni?"

Ninguém naquela sala o chamava assim havia trinta anos.

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