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"O Velho de Jaqueta de Couro" Capítulo 10

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AMANHÃ A GENTE ABRE

Cinco meses depois da luta, Antônio encontrou a própria jaqueta pendurada no encosto da cadeira do escritório.

Tinha certeza de que a deixara sobre um banco.

"A Ana passou aqui", Geraldo explicou. "Disse que você ia embora sem levar."

"Ela está começando a achar que é minha mãe."

"Começando?"

Antônio vestiu a peça e procurou as chaves no bolso. O remendo do cotovelo continuava firme. Lúcia o refizera numa tarde de domingo, recusando sua sugestão de comprar outra jaqueta.

"Essa ainda serve", dissera.

A oficina também continuava funcionando. O acordo com Nando sobrevivera ao primeiro mês, depois ao segundo. Tinham contratado um ajudante por meio período e descoberto que Antônio não precisava estar em todos os lugares para que o mundo não desabasse.

Às terças e quintas, ele chegava à academia antes das sete. Um sábado por mês ficava até mais tarde. Havia semanas complicadas, remarcações e telefonemas. Agora avisava, explicava e voltava.

Naquela tarde, trouxera a bolsa antiga pela última vez.

As luvas vinho estavam dentro, embrulhadas numa toalha limpa. Durante anos, ficavam escondidas entre documentos. Nos últimos meses, descansaram sobre uma prateleira em casa, à vista de quem entrasse.

Antônio descobrira que conseguia olhar para elas sem fazer uma conta do que faltara viver.

Geraldo abrira espaço num pequeno armário de vidro da academia. Perguntara duas vezes se ele tinha certeza.

"Tenho. Mas não escreve que eu era um homem extraordinário. A Lúcia vai ler e estragar a cerimônia."

O treinador riu.

Não houve cerimônia, afinal. Só gente que já estaria ali num sábado: Ana e Lúcia, alguns alunos, Diego com uma chave de manutenção na mão, tentando firmar a dobradiça do armário.

Mateus chegou do trabalho e lavou as mãos antes de ajudar. Ainda treinava. Pensava em competir novamente, mas não tinha data marcada e já não tratava isso como uma prova de que merecia permanecer.

Antônio lhe entregou a fotografia.

"Pode apoiar ali, sem encostar no vidro?"

O garoto examinou a imagem.

"O senhor era magro."

"O espelho continua me dando essa informação. Ninguém aqui respeita a privacidade de um homem."

Diego riu com a chave entre os dentes. Retirou-a para falar.

"Pronto. Agora essa porta não cai em cima de ninguém."

Geraldo colocou uma etiqueta simples junto às luvas: Antônio Ferreira. Campeão brasileiro amador. Aluno e treinador desta academia.

Antônio ficou olhando para a última palavra.

Não precisou comentar. Geraldo fechou a porta do armário e apertou seu braço uma vez.

Ana se aproximou para fotografar os dois.

"Agora pode?"

Antônio se ajeitou ao lado do treinador.

"Pode. Mas não corta a cabeça dele. Foi difícil trazer inteira até aqui."

Depois da foto, a vida voltou ao barulho habitual. Uma corda bateu no chão. Alguém pediu ajuda para encontrar uma luva. Lúcia avisou que deixara um bolo na mesa e que ninguém precisava provar resistência à fome.

Foi nesse intervalo que um rapaz desconhecido apareceu na entrada.

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Era alto, desajeitado, com uma mochila apertada contra o corpo. Ficou parado até Diego notá-lo.

Antônio viu o próprio corpo se preparar para intervir antes que houvesse motivo.

Diego foi até a porta.

"Boa tarde. Veio conhecer?"

O rapaz assentiu.

"Eu nunca fiz boxe. Vi a placa lá fora."

"Quer assistir um pouco ou prefere conversar com o professor primeiro?"

"Posso assistir?"

"Claro. Vou mostrar onde você pode deixar a mochila."

Não houve anúncio, nem olhar em busca de aprovação. Diego simplesmente o acompanhou até o banco, afastou um par de luvas para abrir espaço e perguntou seu nome.

Antônio soltou os ombros.

Quando o treino terminou, encontrou Diego recolhendo copos perto do bebedouro.

"O rapaz vai voltar?"

"Disse que segunda. Perguntou se podia vir mesmo sem comprar equipamento."

"E você falou o quê?"

Diego colocou os copos no lixo.

"Que a gente empresta o que ele precisar no começo."

Antônio assentiu.

"Ótimo."

O outro pareceu querer dizer alguma coisa. Olhou para a vitrine e coçou a nuca.

"Ainda tenho vergonha daquele dia."

"Eu lembro."

"Imaginei que o senhor fosse dizer que esqueceu."

"Não esqueci. Mas também lembro do resto."

Diego permaneceu quieto. Depois pegou o saco de lixo e foi levá-lo para fora.

Na manhã seguinte, Antônio abriu a academia para arrumarem o material de uma aula extra. A rua ainda estava tranquila. Levantou a porta, acendeu as luzes e deixou a bolsa no escritório.

Ao passar pelo armário, viu a própria imagem jovem ao lado das luvas.

O rapaz da fotografia já não lhe pareceu alguém que perdera pelo caminho. Tinha sido ele, numa época em que desconhecia quase tudo o que viria depois.

Continuou até o depósito e pegou uma vassoura.

Diego chegou alguns minutos mais tarde, trazendo pão numa sacola.

"O campeão brasileiro está varrendo?"

Antônio apontou com o queixo para o depósito.

"Tem outra lá dentro. Você nem precisa de título para usar."

O rapaz deixou o pão sobre a mesa e foi buscar a segunda vassoura.

Trabalharam em silêncio por um tempo, empurrando a poeira para perto da porta. Geraldo apareceu carregando café e reclamou que os dois tinham começado sem ele.

Antônio abriu mais uma janela.

Da rua veio o som de um ônibus freando, uma conversa na calçada, o carrinho de entrega passando sobre o piso irregular.

Em poucos minutos, chegariam os primeiros alunos.

Ele pendurou a jaqueta no gancho, arregaçou as mangas e foi abrir espaço para recebê-los.

FIM

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