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"Dezoito Reais e uma Promessa do Meu Pai." Capítulo 1

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OS DEZOITO REAIS QUE FALTAVAM

"Pode tirar esse dinheiro do caixa, Lucas. Agora."

Sérgio falou baixo, mas a mulher à minha frente ouviu. Os dedos dela se fecharam sobre a receita enquanto eu mantinha a nota de vinte estendida por cima do balcão.

"O dinheiro é meu. Só estou completando o que falta."

"Eu vi. E estou dizendo para você guardar."

Faltavam dezoito reais. Eu sabia porque tinha conferido duas vezes, na esperança idiota de que o número mudasse. A senhora havia espalhado moedas na palma da mão, contado em silêncio e perguntado se podia deixar uma das caixas para o dia seguinte.

Renata, a farmacêutica, já separara os medicamentos e explicara o uso. A mulher escutara tudo com uma atenção que me lembrava minha mãe quando precisava decorar alguma coisa para não pedir de novo.

Agora olhava para a porta.

"Eu volto amanhã", disse ela. "Não quero causar problema."

Empurrei a nota mais um pouco.

"A senhora não está causando problema nenhum."

Sérgio parou ao meu lado. Naquele horário, perto do fechamento, ele costumava verificar o caixa com a mesma expressão de quem procurava infiltração no teto. Eu conhecia aquela boca apertada. Trabalhava na Farmácia Santa Clara havia nove meses e ainda precisava me lembrar de não levar cada suspiro dele para casa.

"Se você começa a pagar a compra de um cliente, os outros passam a esperar a mesma coisa."

"Os outros não estão pedindo."

"Lucas."

A senhora recolheu as moedas tão depressa que duas caíram. Abaixei antes dela. Uma rolara até o pé de uma cadeira, e precisei me ajoelhar para alcançar.

Quando levantei, ela estava vermelha.

Aquilo resolveu a questão para mim.

Coloquei as moedas na mão dela e voltei ao computador.

"São dezoito reais, Sérgio. Não estou dando desconto nem mexendo no dinheiro da loja."

"A gente conversa depois."

"Tudo bem. Depois."

Passei a compra antes que ele encontrasse outra maneira de me impedir. Entreguei o troco junto com a nota fiscal e deixei os medicamentos numa sacola pequena.

A mulher não pegou imediatamente.

"Você tem certeza, meu filho?"

Assenti. Preferi não pensar no salgado que compraria no caminho para casa. Havia arroz na geladeira e, se minha mãe não tivesse levado tudo para o almoço do dia seguinte, um pouco de carne moída.

"Pode levar."

Ela recebeu a sacola com as duas mãos.

"Eu devolvo."

"Quando puder."

Só então reparei que tinha olhos claros, quase dourados, e uma mancha de chuva no ombro do casaco verde. O cabelo branco estava preso atrás das orelhas. Nada nela parecia pedir atenção. Até a bolsa ficava apertada contra o corpo, como se pudesse atrapalhar alguém.

Sérgio voltou para o escritório. Renata me lançou um olhar por cima da armação dos óculos, sem dizer se achava que eu tinha sido corajoso ou muito burro.

A senhora continuava diante de mim.

"Esqueceu alguma coisa?"

"Ainda não sei."

Achei que tivesse entendido errado.

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Ela pôs a sacola no balcão e tirou um celular do bolso. Era novo, desses com três câmeras, e abriu a tela com uma facilidade que minha mãe nunca havia adquirido. Não havia nada de extraordinário em uma senhora ter um aparelho caro. Mesmo assim, olhei involuntariamente para a carteira puída que ela acabara de fechar.

O telefone chamou uma vez.

"Beatriz? Eu o encontrei. Pode vir."

A voz era a mesma, mas a hesitação tinha desaparecido.

Ela ouviu a resposta e olhou para mim.

"Estou na farmácia. Sim, a Santa Clara."

Desligou.

Esperei que explicasse. Ela passou o polegar pela alça da bolsa, respirou fundo e pareceu, pela primeira vez, não saber o que fazer com as mãos.

"Quem a senhora encontrou?"

"Você."

Soltei uma risada curta, mais por nervosismo do que por achar graça.

"Acho que está confundindo."

"Seu nome é Lucas Moura. Você tem dezenove anos. Sua mãe se chama Teresa."

Meu sorriso sumiu.

Não havia um milhão de Lucas Moura trabalhando naquela farmácia, mas meu crachá só tinha o primeiro nome. Endireitei o corpo.

"De onde a senhora conhece minha mãe?"

A porta do escritório abriu.

"Dona Helena?"

Sérgio parou antes de chegar ao balcão. Eu nunca o tinha visto perder a cor daquele jeito. Seus olhos foram da senhora para o telefone, depois para mim.

"Vocês se conhecem?", perguntei.

Helena guardou o aparelho.

"O Sérgio sabe quem eu sou."

"Isso não responde."

Ele passou a mão pela gravata, que já estava frouxa desde o fim da tarde.

"Talvez seja melhor conversar lá dentro."

"Há um minuto o senhor queria conversar depois do expediente. Agora quer conversar lá dentro. O que aconteceu nesse minuto?"

Uma cliente perto das vitaminas fingiu examinar um frasco. Renata se aproximou, percebeu minha expressão e perguntou se estava tudo bem.

Não respondi. Eu observava Sérgio.

Helena falou com cuidado:

"Eu conheci seu pai."

Aquelas quatro palavras me fizeram esquecer a mulher das vitaminas, o caixa aberto e a fome. Meu pai morrera quando eu tinha onze anos. Oito anos depois, ainda era possível desorganizar meu corpo inteiro mencionando-o sem aviso.

"Conheceu onde?"

"Aqui. Há muito tempo."

Eu sabia que ele trabalhara na Santa Clara antes de ir para uma farmácia hospitalar. Minha mãe havia comentado isso quando levei meu currículo. Na época, achei bonito voltar a um lugar por onde ele tinha passado. Depois Sérgio me contratou, reclamou da minha letra nos formulários e nunca disse uma palavra sobre ele.

"Meu pai saiu daqui antes de eu nascer."

"Eu sei."

"Então por que estava me procurando?"

Helena olhou para a sacola que eu havia pago.

"Porque existe uma promessa que eu deveria ter cumprido de um jeito melhor."

Senti uma impaciência quase física.

"A senhora pode começar dizendo seu nome inteiro?"

"Helena Duarte."

Não reconheci. Isso me irritou mais do que deveria. De repente, duas pessoas sabiam coisas sobre minha família e me olhavam como se eu tivesse chegado atrasado a uma conversa que já durava anos.

Meu celular vibrou no bolso. Uma mensagem da minha mãe perguntando se precisava guardar comida. Respondi apenas que sim.

Antes que eu guardasse o aparelho, a campainha da entrada tocou.

Uma mulher de cabelo escuro entrou fechando um guarda-chuva. Usava uma bolsa grande no ombro e carregava uma pasta contra o peito. Helena deu um passo na direção dela, mas a recém-chegada olhou primeiro para mim.

"Lucas? Sou Beatriz Azevedo. Sou advogada."

Sérgio puxou a cadeira para Helena, com uma pressa que nunca demonstrara quando ela era só uma cliente sem dinheiro suficiente.

Beatriz colocou a pasta no balcão para tirar o casaco molhado.

Na etiqueta branca, reconheci um nome que costumava escrever nas fichas da escola, no espaço destinado ao pai.

JÚLIO MOURA.

Estendi a mão antes de pedir licença.

"Por que a senhora tem uma pasta com o nome do meu pai?"

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