"Minha Filha Acordou o Homem Que Todos Temiam" Capítulo 10

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AGORA É A MINHA VEZ

Na primeira noite na casa de Lorenzo, Mia dormiu no chão do nosso quarto.

Tínhamos escolhido os lençóis juntas. Ela tinha organizado os livros três vezes, colocado Nino no travesseiro e determinado qual gaveta seria das meias. Ainda assim, às duas da manhã, apareceu arrastando uma manta.

"Eu estava com saudade."

Lorenzo acendeu o abajur.

"Você viu sua mãe há quatro horas."

"Mas eu estava dormindo. Não conta."

Ele olhou para mim, esperando ajuda. Afastei a coberta e chamei minha filha.

Mia recusou a cama. Queria fazer uma cabana no tapete.

Cinco minutos depois, o homem que todos temiam estava ajoelhado, prendendo a ponta de um lençol no pé da poltrona.

"Isso vai cair", avisei.

"Eu sei construir uma cabana."

Caiu.

Mia riu tanto que perdeu o sono por mais meia hora. No dia seguinte, Lorenzo desceu para o café com um adesivo de estrela no pulso. Ninguém comentou, até Isabela perguntar se aquilo era parte de alguma nova estratégia de negócios.

"É pagamento pelo serviço", respondeu ele.

Minha filha não corrigiu a história, embora a cabana tivesse sido reconstruída por mim.

A vida se acomodou aos poucos. Havia a mochila esquecida no carro, as reuniões de Lorenzo, meus estudos retomados à noite e os dias em que todos chegávamos ao jantar sem vontade de conversar.

Mia começou a escola. Sofia foi para a faculdade e telefonava para a mãe quase todos os dias, geralmente para reclamar da comida ou perguntar onde tinha guardado alguma coisa antes de partir.

Helena voltou ao trabalho no hospital, mas continuou aparecendo aos domingos. Minha filha a recebia abrindo a boca para mostrar dentes que não precisavam ser examinados.

Marco permaneceu na empresa. Eu o encontrava no escritório, agora muito mais cuidadoso com o que assinava. Vítor respondeu pelas irregularidades apuradas, e os acertos financeiros seguiram seu curso com gente preparada para conduzi-los. Lorenzo me contava o necessário, depois fechava as pastas antes de se sentar conosco.

Daniel manteve os cartões. Depois vieram conversas breves, combinadas com antecedência, e mais tarde encontros acompanhados. Eu não sabia até onde aquilo chegaria. Observava o que ele fazia e, principalmente, como Mia ficava depois.

Um dia ela voltou de uma dessas visitas com um desenho dobrado.

"O Daniel desenha carro errado", disse, mostrando três rodas.

Guardei a folha junto às outras. Não telefonei para Lorenzo para contar imediatamente. Esperei o jantar, porque sabia que ele estaria lá.

Perto dos dois anos do acidente, Isabela organizou uma refeição na casa. Disse que queria todos à mesa sem documentos, sem telefonemas e sem ninguém pedindo apenas cinco minutos para resolver uma urgência.

Lorenzo obedeceu. Marco chegou com flores, o que fez a prima desconfiar até verificar que não havia um envelope escondido entre elas.

Depois da sobremesa, Mia bateu a colher no copo.

"Agora alguém fala."

"Você já está falando", eu observei.

"Mas é para falar bonito."

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Lorenzo se levantou devagar. Eu o olhei, estranhando, e vi Sofia apontar discretamente um telefone na nossa direção.

"Mia me pediu para agradecer pelo jantar", começou.

"Eu não pedi isso."

Ele olhou para ela.

Minha filha franziu a testa, lembrou de alguma instrução anterior e tapou a boca com as duas mãos. Isabela começou a rir.

Eu deixei a colher no prato.

"O que vocês estão aprontando?"

Lorenzo estendeu a mão.

"Vem comigo."

Saímos para o jardim. Havia luzes pequenas entre as árvores e uma mesa onde alguém colocara um vaso com as flores de que eu gostava. Nada daquilo estivera ali quando chegáramos para almoçar.

Mia passou correndo por nós e se posicionou ao lado de Isabela, segurando uma caixinha com as duas mãos.

Senti a primeira lágrima antes de ouvir a pergunta.

"Eu tinha preparado uma coisa maior", disse Lorenzo.

"Um discurso?"

"Ela reclamou do tamanho."

Mia assentiu, muito séria.

"Ele falava e não chegava na parte da caixa."

Ri, limpando o rosto com a mão livre.

Lorenzo pegou a caixinha e se voltou para mim. Seus dedos estavam frios.

"Você está nervoso", sussurrei.

"Muito. Não está ajudando me avisar."

Toquei seu rosto. Ele virou a cabeça e beijou minha palma.

"Eu amo a maneira como você entra numa sala procurando sua filha antes de qualquer outra coisa", disse. "Amo quando você me manda calar a boca porque está estudando. Amo até essa sua capacidade de perceber que estou cansado antes que eu queira admitir."

Sorri entre as lágrimas.

"Essa última você odeia."

"Às vezes. Mas quero continuar discutindo por causa dela."

Ele abriu a caixa.

"Quero você comigo, Clara. Quero levar a Mia para a escola, reclamar dos brinquedos no corredor e descobrir onde você esconde os biscoitos de que eu gosto. Quero continuar vivendo isso com vocês. Você quer casar comigo?"

Olhei para minha filha. Ela pulava sem sair do lugar, apertando Nino contra o peito. Depois voltei a olhar para o homem à minha frente.

"Quero."

Lorenzo soltou o ar numa risada e me puxou para perto. Mia gritou a resposta de novo, com força suficiente para assustar um pássaro na árvore.

O anel entrou no meu dedo com um pequeno tremor na mão dele.

A festa de casamento foi pequena. Mia derrubou pétalas antes da hora, recolheu algumas e tentou começar de novo. Nino usou uma gravata feita por dona Cida. Isabela chorou tanto que Sofia precisou lhe emprestar os próprios lenços.

Dancei com Lorenzo até meus pés doerem.

Quando chegamos ao quarto, encontrei meus sapatos cuidadosamente colocados ao lado de um par de chinelos. Ele os tinha deixado ali antes de descer para a cerimônia.

Beijei-o sem dizer por quê. Ele me abraçou e não perguntou.

Três anos depois da primeira visita de Mia, a antiga ala de cuidados já não tinha quase nada daquele quarto silencioso.

Prateleiras cobriam as paredes. A cadeira azul permanecia perto da janela. Havia lápis num pote, uma peça de quebra-cabeça perdida sob o tapete e um coelho tão gasto que eu tinha reforçado suas costuras duas vezes.

Encontrei Lorenzo sentado ali numa tarde de chuva. Mia, aos seis anos, estava encostada nele com um livro aberto sobre as pernas dos dois.

"Você pulou uma linha", acusou.

"Estava vendo se você percebia."

"Você sempre fala isso."

Ele levantou os olhos e me viu na porta. Estendeu a mão.

Fui até eles e me sentei no braço da cadeira. Mia fechou o livro sobre o dedo para não perder a página.

"Mamãe, você lembra quando ele dormia o tempo todo?"

"Lembro."

"Eu cantei para ele."

Lorenzo acariciou o cabelo dela.

"Cantou."

Minha filha olhou para a janela molhada. Depois, sem nenhum anúncio, começou a mesma canção.

Já não inventava tantas palavras. Ainda acelerava a parte difícil, e eu reconheci a menina na cadeira alta, os sapatos prateados, a mão pequena envolvendo um dedo imóvel.

Lorenzo apertou minha mão durante a música inteira.

Quando Mia terminou, ele a soltou e bateu palmas. Alto, demoradamente, até nossa filha começar a rir e pedir que parasse.

"Agora ficou bom?", perguntou ela.

Ele beijou sua testa.

"Ficou lindo."

Mia se acomodou outra vez, satisfeita, e abriu o livro na página marcada.

Fiquei com eles enquanto a chuva aumentava. Lorenzo puxou uma manta sobre as pernas da menina, e ela lhe apontou a primeira linha para que não pulasse nada.

Dessa vez, ele leu cada palavra.

FIM

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