"A Porta Azul Escondia a Mãe Dela — e o Segredo da Minha Família" Capítulo 1
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A TIA ROSA JÁ MORREU
"A tia Rosa já morreu."
Sofia disse aquilo sem levantar a voz. Estava no meio do vestíbulo, descalça, apertando um coelho de pano contra a barriga. A camisola amarela tinha uma mancha de chocolate perto da gola. Atrás dela, Celeste ainda mantinha a mão estendida, esperando que a menina aceitasse acompanhá-la.
Eu tinha acabado de voltar de uma viagem de negócios. Minha mala continuava ao lado da porta.
"Como assim, Sofi?", perguntei.
"Ela morreu quando choveu dentro da igreja. A mamãe me deu o casaco dela porque eu estava com frio."
Celeste soltou o ar pelo nariz.
"Mateus, ela está confundindo as tias. Eu expliquei que Helena precisou resolver um assunto de família. Criança dessa idade mistura as coisas."
A menina sacudiu a cabeça. O laço que prendia seu cabelo castanho já estava quase solto.
"Você falou que ela foi cuidar da tia Rosa."
"Sofia, venha tomar café."
Celeste avançou um passo. A menina recuou dois e esbarrou na minha perna.
Foi esse movimento que me fez largar o celular.
Eu conhecia Sofia desde os três anos. Ela se escondia atrás da mãe quando chegavam fornecedores, mas invadia a cozinha para pedir que separassem a parte mais crocante do pão. Nunca a tinha visto fugir de Celeste.
Ajoelhei, deixando espaço entre nós.
"Vamos conversar primeiro. Há quanto tempo você não vê sua mãe?"
Ela olhou para os próprios dedos, tentando organizar uma conta.
"Teve a noite que ela não veio. Depois teve outra. Ontem eu dormi no quarto da dona Cida."
Olhei para Celeste.
"Desde quando?"
"Terça-feira à noite."
Era sexta.
Por um momento fiquei ouvindo o motor do carro que se afastava lá fora. Eu passara a viagem inteira recebendo relatórios sobre a reforma da garagem, uma entrega atrasada e uma infiltração na ala leste. Nenhum deles mencionava que uma funcionária moradora da fazenda desaparecera deixando uma filha de cinco anos.
"E ninguém achou necessário me avisar?"
"Helena é adulta. Ela me pediu discrição."
"Você falou com ela?"
"Antes de sair."
"Por telefone? Pessoalmente?"
A mão de Celeste baixou devagar.
"Ela deixou um recado."
Sofia puxou minha manga.
"Minha mãe não sai sem me dar beijo."
Eu conhecia Helena o suficiente para saber que a menina tinha razão. Nos dois anos em que trabalhara na Santa Clara, ela chegara atrasada uma única vez, quando Sofia precisara levar pontos no queixo. Mandara uma fotografia do curativo antes mesmo que alguém perguntasse.
Olhei os pés da criança. Havia poeira escura no calcanhar e um pequeno arranhão no dedão.
"Onde estão seus chinelos?"
"Eu saí para procurar."
"Agora?"
Ela assentiu.
Celeste ajeitou o relógio no pulso.
"Está vendo? Ela anda pela casa antes de qualquer pessoa acordar. Nós estamos fazendo o possível."
"Peça à Cida que traga alguma coisa para ela comer. E encontre o recado de Helena. Quero vê-lo."
"Você deveria descansar da viagem. Eu cuido disso."
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"Eu vou cuidar disso."
Minha voz saiu mais dura do que pretendia. Sofia apertou o coelho. Baixei o tom antes de continuar.
"Pode trazer o café para o escritório."
Celeste levou alguns segundos para sair.
Quando ficamos sozinhos, Sofia se aproximou mais. Tinha os olhos inchados, a pele abaixo do nariz irritada. Eu a ouvira choramingar ao entrar e, por alguns minutos, aceitara a explicação mais cômoda: uma criança sentindo falta da mãe, adultos competentes resolvendo o problema.
Agora me envergonhava daqueles minutos.
"Você acha que eu estou inventando?", ela perguntou.
"Acho que você está tentando me contar uma coisa importante."
"Eu tentei contar para o seu Marcos. Ele disse que era cano."
Marcos era um dos seguranças mais antigos da fazenda. Trabalhava para mim havia doze anos e conhecia cada acesso da propriedade.
"O que era cano?"
Sofia olhou para a passagem que Celeste acabara de usar.
"O barulho."
Esperei. Ela enrolou uma orelha do coelho no dedo.
"Eu ouvi a mamãe batendo."
Não perguntei se ela tinha certeza. Era uma pergunta que, pelo jeito, outros já tinham feito muitas vezes.
"Onde você estava quando ouviu?"
"Perto da escada que tem o vaso quebrado."
A escada oeste.
"O que você ouviu exatamente?"
Sofia levantou a mão e bateu na minha pasta de couro. Três toques pequenos, separados por uma pausa.
"Assim. Eu fiz igual e ela fez de novo."
Senti frio apesar do sol que atravessava os vidros.
Cida apareceu trazendo uma bandeja. Ao ver a menina, colocou tudo na mesa mais próxima e tirou os próprios chinelos para que ela parasse de pisar no mármore gelado.
"Eu pedi para ela me acordar, seu Mateus. Quando dei por mim, já tinha saído."
"Você conseguiu falar com Helena?"
O rosto da cozinheira mudou.
"Não. Mandei mensagem, mas não chegou. Celeste disse que lá não tinha sinal."
Sofia segurou minha mão antes que eu me levantasse.
"Não manda eu esperar aqui."
Eu precisava pensar. Precisava chamar Ronaldo, verificar os acessos, entender por que ninguém procurara Helena. Mas havia uma criança olhando para mim como se eu fosse a última porta que ainda pudesse abrir.
"Vou com você até a escada. Depois o Ronaldo vai olhar o corredor primeiro. Combinado?"
"Você não vai embora?"
"Não vou."
Liguei para o chefe da segurança enquanto Cida punha uma fatia de pão nas mãos de Sofia.
"Ronaldo, venha para a ala oeste. Traga uma lanterna e localize o Marcos. Quero também os registros das câmeras de terça à noite."
Ele não perguntou por quê. Disse que estava a caminho.
Sofia deu uma mordida no pão sem soltá-lo da outra mão. Eu caminhava devagar para acompanhar os chinelos grandes demais.
Ao passar pelo escritório, vi Celeste diante do computador. Ela fechou uma janela da tela quando percebeu que eu a observava.
"Não encontrei o bilhete ainda", disse.
"Continue procurando."
No fim da galeria, Ronaldo nos alcançou. Trabalhava no turno diurno e me avisou, com o rosto fechado, que o arquivo da noite de terça apresentava uma falha de várias horas.
Marcos vinha atrás dele, abotoando o paletó do uniforme.
"Deve ter sido a atualização do sistema", explicou.
"Foi você quem informou à Sofia que ela ouviu um cano?"
Ele olhou para a menina. Depois para mim.
"Ela estava muito nervosa."
"Não foi isso que eu perguntei."
Sofia deixou a metade do pão no parapeito. Apontou para a escada de pedra atrás do portão de serviço.
"É lá embaixo."
Eu mandara isolar aquele acesso quando parte do teto cedera, anos antes. Da entrada, só se via o primeiro lance mergulhando na sombra.
"Sofi, como você conseguiu entrar?"
"Ontem estava aberto."
Marcos levou a mão ao bolso e a retirou vazia.
A menina se agarrou à minha manga.
"Lá embaixo tem uma porta azul. Foi atrás dela que a mamãe respondeu."
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