"Levei Três Tiros pelo Filho do Chefe da Máfia." Capítulo 11

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DESSA VEZ, ERA VERDADE

Clara não colocou a aliança naquela noite.

Pediu que Enzo guardasse a caixa por mais algum tempo. O homem assentiu, e a maneira como respeitou o pedido sem se afastar foi o primeiro pequeno pedaço de futuro em que ela conseguiu acreditar.

Voltaram a se encontrar no sábado, com Léo e Caio. Almoçaram numa mesa pequena demais para as travessas de Nair. O menino contou uma história da escola e Enzo o escutou até o fim, mesmo quando a história passou a envolver um dinossauro que certamente não estivera no recreio.

Depois do almoço, Clara caminhou com ele pelo quintal.

O sol alcançava o muro. Ela ainda sentia desconforto ao levantar o braço, mas já conseguia andar sem organizar cada passo em torno da dor.

"Eu quero continuar vendo você", disse.

Enzo a olhou com uma atenção quase dolorosa.

"Eu também quero."

"Mas eu preciso descobrir como é isso quando não existe uma ameaça empurrando a gente para o mesmo lugar."

Ele assentiu.

"Posso te buscar para jantar na quarta?"

A simplicidade do convite a fez sorrir.

"Pode. E eu escolho o restaurante."

"Eu estava contando com isso."

Na quarta, ele apareceu sem o terno escuro que parecia fazer parte de seu corpo. Clara levou alguns segundos para se acostumar com a camisa dobrada nos antebraços, a barba menos precisa, o nervosismo discreto ao perguntar se ela estava pronta.

Foram a um restaurante pequeno que Clara frequentara com os pais anos antes. Enzo perguntou o que deveria pedir e aceitou a sugestão sem olhar o preço.

Quando o garçom se afastou, ela sorriu.

"Você está muito comportado."

"Estou tentando impressionar minha esposa."

Clara ergueu uma sobrancelha.

Enzo corrigiu, com um brilho nos olhos:

"A mulher com quem eu espero sair de novo."

Ela riu. O som pareceu surpreender os dois.

Conversaram sobre coisas que não precisavam resolver: o café ruim do hotel, o péssimo gosto de Caio para filmes, o hábito de Léo de fazer perguntas justamente quando alguém começava a beber água.

Enzo contou que aprendera a cozinhar ovos depois de queimar duas frigideiras. Clara não acreditou até ele mostrar a fotografia enviada por Nair.

Na volta, pararam diante da casa onde ela ainda estava hospedada.

Ele não tentou transformar o jantar numa resposta definitiva. Beijou-a junto ao portão e demorou ali, com a mão em seu rosto.

Clara segurou seu pulso. Não havia sangue, nem mármore frio, nem sirenes.

A lembrança da primeira vez atravessou seu corpo. Enzo percebeu.

"Quer que eu fique um pouco?"

"Quero."

Sentaram na varanda até o medo perder a força. Depois ela contou uma coisa engraçada que a mãe dizia quando alguém queimava comida. Enzo pediu que repetisse, só para ouvi-la rir outra vez.

As semanas seguintes não apagaram tudo.

Clara ainda se assustava com estalos inesperados. Léo voltou a ter um pesadelo. Enzo algumas vezes respondia com uma ordem antes de lembrar que podia fazer uma pergunta.

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Mas agora conseguia parar.

Certa tarde, o menino derrubou suco na mesa do escritório e começou a pedir desculpas antes que o pai visse o estrago.

Clara, à porta, observou Enzo levantar o notebook e buscar um pano.

"O computador está seco. Vamos limpar o resto."

Léo permaneceu imóvel.

"Você não está bravo?"

"Eu prefiro que o suco fique no copo. Mas acidentes acontecem. Me ajuda a salvar os papéis?"

O menino correu para pegar outro pano.

Clara se afastou antes que Enzo a visse chorando por causa de um copo derramado.

Caio também começou a respirar de outro jeito. Com transporte organizado e acompanhamento regular, já não faltava às consultas para evitar despesas. Ainda discutia com a irmã sobre a hora de voltar para casa, como qualquer rapaz de dezessete anos.

Foi essa discussão que a fez perceber quanto desejara uma vida comum.

Não a ausência de problemas. O direito de se preocupar com um adolescente chegando tarde, em vez de se perguntar como mantê-lo vivo enquanto ela trabalhava mais um turno.

O hotel ofereceu seu antigo posto quando ela melhorou. Clara foi até lá para conversar. Enzo quis acompanhá-la, mas aceitou esperar do lado de fora.

O salão estava vazio. Sem convidados e música, parecia menor.

Ela parou no lugar onde a jarra caíra. O piso não guardava sinal algum. Por um momento, sentiu raiva daquela limpeza perfeita, como se o mundo tivesse escondido a prova do que lhe custara continuar ali.

Depois tocou o ombro por cima da roupa e respirou.

Recusou voltar aos turnos noturnos. Não precisava se obrigar a atravessar o mesmo corredor para provar que era forte. Mais tarde, encontrou trabalho diurno na organização de eventos de um espaço cultural, com uma equipe pequena e horários que conseguia planejar.

Enzo ouviu a novidade como se ela tivesse anunciado uma conquista enorme.

"Você quer comemorar?"

"Eu quero dormir sem despertador no domingo."

Ele abriu um sorriso.

"Isso eu consigo providenciar."

No fim do terceiro mês, Clara voltou à propriedade com uma mala que tinha arrumado sozinha.

Léo a encontrou no hall.

"Você vai dormir aqui hoje?"

A pergunta antiga ainda trazia cautela.

Clara colocou a bolsa no chão e se abaixou diante dele.

"Vou morar aqui. Mas a gente vai continuar conversando quando alguém estiver triste ou precisar de alguma coisa. Você não tem que guardar tudo para ninguém ir embora."

O menino a abraçou.

Enzo observava do fundo do corredor. Clara ergueu o rosto sobre os cachos de Léo e encontrou um homem que parecia lutar para não demonstrar quanto aquele instante significava.

À noite, depois de colocar o filho na cama, ele a chamou à varanda.

A caixa da aliança estava sobre a mesa. Não havia flores espalhadas, músicos escondidos ou convidados esperando uma resposta.

"Eu ensaiei o que dizer", ele começou.

Clara se aproximou.

"Deu certo?"

"Até você chegar."

Ela riu baixo, emocionada demais para brincar outra vez.

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Enzo abriu a caixa.

"A primeira vez que chamei você de minha esposa, eu estava tentando mudar o lugar que os outros davam a você. Fiz isso sem perguntar qual lugar você queria."

Ele pegou a aliança, mas não segurou a mão dela ainda.

"Agora eu quero saber se você aceita construir uma vida comigo. Com o Léo, com o Caio, com todas as conversas que eu ainda vou precisar aprender a ter."

Clara sentiu os olhos se encherem.

"Você está me pedindo em casamento?"

A voz dele falhou num sorriso.

"Estou. Dessa vez, de verdade."

Ela estendeu a mão.

"Então a resposta é sim."

Enzo soltou o ar como se o prendesse desde a noite do hotel. Colocou a aliança em seu dedo e a beijou antes de conseguir dizer outra coisa.

Clara segurou o rosto dele entre as mãos. Já podia levantar o braço, embora o movimento ainda pedisse cuidado. Ele notou, como sempre, e a puxou pela cintura para que não precisasse se esticar.

Ela sorriu contra sua boca.

"Você pode me abraçar mais forte agora."

Enzo obedeceu.

Casaram algumas semanas depois, numa cerimônia pequena no jardim. Caio a acompanhou até Enzo e cochichou que o sapato novo estava acabando com seu pé. Clara quase perdeu a compostura de tanto rir.

Léo carregou as alianças com a concentração de quem transportava uma peça rara. Nair chorou sem tentar disfarçar.

Quando Enzo segurou as mãos de Clara, não havia mentira a sustentar. Ela conhecia a dureza dele, suas falhas, o mundo que ainda precisaria manter afastado da mesa onde o filho fazia a lição.

Também conhecia o homem que aprendera a esperar uma resposta.

Dias depois, numa manhã clara, Clara estava na cozinha quando ouviu passos correndo pelo corredor.

Léo entrou com o robô numa mão e o braço solto na outra.

Ela se virou, pronta para ajudá-lo.

Mas o menino passou por sua cadeira e foi direto até o pai.

"Você pode consertar para mim?"

Enzo fechou o jornal e se agachou.

"Posso tentar. Me mostra como soltou."

Léo se acomodou entre os joelhos dele e começou uma explicação longa, cheia de detalhes pouco úteis. Enzo escutou todos.

Clara ficou observando, com uma xícara quente entre as mãos.

O braço se encaixou com um estalo.

O menino sorriu. Depois continuou falando, sem pressa de se afastar, certo de que podia ocupar aquele espaço.

Enzo ergueu os olhos e encontrou Clara.

Ela não precisou dizer o que estava pensando.

Ele abriu um lugar ao lado do filho. Clara deixou a xícara sobre a mesa e foi até os dois.

Dessa vez, quando se abaixou para abraçar o menino, não precisou protegê-lo do mundo com o próprio corpo.

Havia outros braços ao redor deles.

E ela também podia descansar ali.

FIM

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