"Todos Se Calaram. Eu Defendi o Mafioso." Capítulo 10
Ele respondeu por si mesmo
Matteo já estava na sala quando chegamos. Vestia um terno azul-escuro, e o relógio brilhava sob a luz da janela. Era difícil reconciliar aquele homem bem-arrumado com a voz que eu ouvira usar a cirurgia de uma criança para negociar.
Helena nos explicou o andamento antes de abrir a porta. A reunião não substituiria os procedimentos em curso, e não dependíamos de uma confissão para continuar. O objetivo era comunicar decisões, impedir novas aproximações e tratar das questões que os advogados ainda precisavam formalizar.
Nico olhou para mim.
"Tudo bem?"
"Tudo."
Eu sabia que não precisaria ficar se mudasse de ideia.
Matteo ergueu os olhos quando entramos. O olhar parou nas nossas mãos.
"Eu pedi uma conversa de família."
"Você mencionou Adeline e o irmão dela na sua mensagem", Nico respondeu. "Então criou um assunto que também diz respeito a ela."
Sentei ao lado dele. Helena ficou do outro lado da mesa. O advogado de Matteo abriu uma pasta, mas seu cliente continuou olhando para o filho.
"Sua irmã está confusa. Passou por um período difícil."
"Ela está com uma equipe independente. Pode falar com quem quiser e decidir quem visita. Você não vai procurá-la."
Matteo soltou um suspiro de impaciência.
"Você sempre faz isso. Escuta meia história, se revolta e deixa que eu resolva a consequência."
Nico manteve as mãos sobre o colo.
"Eu li os documentos recuperados. Os pagamentos a quem provocou o incêndio. As ordens enviadas depois que Evelyn começou a perguntar. Os relatórios sobre mim que eram encaminhados primeiro ao seu escritório."
O advogado de Matteo tocou seu braço.
"Recomendo que não responda sobre os fatos da investigação."
Matteo ignorou o aviso e se voltou para mim.
"Você não compreende o que está fazendo. Conhece meu filho há poucos meses e acha que pode desfazer uma família."
Eu senti o impulso antigo de justificar minha presença.
Respirei antes de falar.
"Eu encontrei um registro com meu nome que não tinha sido feito por mim. Depois você me pediu para declarar que não havia encontrado nada. Foi sobre isso que falei."
"Você precisava de dinheiro."
"Precisava. Continuo precisando trabalhar. Isso não muda o registro."
Ele sorriu, tentando me devolver àquela porta do escritório.
"Nico sempre gostou de resgatar pessoas. Quando se cansar, quem vai cuidar de você?"
A mão de Nico se moveu sobre a mesa.
"Não fale com ela desse jeito."
"Estou fazendo uma pergunta prática."
"Você teve a oportunidade de tratar disso com respeito. Agora vai falar comigo."
O tom fez o advogado erguer a cabeça. Eu já ouvira Nico irritado, já o vira humilhado e ferido. Ali, a firmeza dele não precisava esconder nenhuma dessas coisas.
Matteo se recostou.
"Eu mantive tudo de pé enquanto você não conseguia sair de uma cama."
"Você controlou quem entrava no meu quarto. Afastou Marco. Fez com que minhas perguntas fossem respondidas como se fossem sintomas."
"Você precisava de ajuda."
"Precisava. Ainda preciso de algumas coisas. Isso nunca deu a você o direito de escolher minha vida."
Minha mão encontrou a dele sob a mesa. Nico entrelaçou os dedos nos meus sem interromper a conversa.
Helena apresentou as comunicações formais: revogação das autorizações que Nico podia revogar, exigência de preservação de documentos e encaminhamento das questões empresariais por representantes definidos. Parte das medidas já estava em andamento com outros responsáveis. Nada dependia de Matteo concordar em ser gentil.
O pai mal olhou as folhas.
"Você vai entregar nossos arquivos a estranhos? Sabe o que podem encontrar?"
"Sei que também vão fazer perguntas sobre mim", Nico respondeu. "Estou preparado para respondê-las."
Eu o olhei. Conversáramos sobre aquilo na noite anterior, mas ouvi-lo diante do pai foi diferente. Ele não oferecia uma inocência perfeita para merecer minha companhia.
Matteo bateu a ponta dos dedos na mesa.
"Há coisas que se resolvem dentro de casa. Eu posso proteger você. Posso garantir que a menina receba o tratamento e que sua irmã tenha conforto."
"Wes já tem tratamento. Evelyn já tem um lugar para descansar. Você não vai negociar usando os dois outra vez."
"Você está jogando fora seu nome."
Nico respirou fundo. Vi o esforço no ombro, a pequena pausa para acomodar o corpo. Esperei, sem transformar aquilo em interrupção.
"Eu passei oito meses tentando fazer você me olhar como olhava antes do acidente", disse. "Agora não preciso mais disso."
Matteo ficou imóvel.
Foi a primeira vez que o vi sem uma resposta pronta.
A reunião terminou quando ele voltou a exigir uma conversa sem testemunhas. Helena se levantou e informou que qualquer novo contato deveria passar pelos representantes. Não houve grito nem ameaça de Nico. Os homens que antes esperavam ordens do pai já haviam recebido orientações claras de quem representavam.
Do lado de fora, encontramos Camille saindo de outra sala com o advogado. Ela viu nossas mãos e baixou os olhos.
"Eu não sabia que ele ia tão longe", disse.
Parei.
"Você sabia que estava me afastando para alguém entrar no quarto. Sabia que Evelyn não podia falar com o irmão. E sabia que Nico não podia impedir você fisicamente naquela noite."
Ela puxou o ar, como se fosse responder. Eu continuei.
"O que não sabia vai ser apurado. Não apague o que você escolheu fazer."
Nico tocou meus dedos. Eu me virei para ele e fomos embora.
No carro, ele ficou em silêncio por vários minutos. Marco dirigia. Eu acompanhei a cidade pela janela até Nico apertar minha mão.
"Eu pensei que ia me sentir melhor", confessou.
"Talvez você só esteja cansado agora."
"Estou. E triste, o que me deixa com raiva."
"Você pode sentir falta do pai que queria ter. Não significa que precisa devolver a ele a chave da porta."
Ele encostou a cabeça no banco. Eu apoiei minha mão sobre a sua.
Naquela noite, Helena ligou. As medidas relativas à investigação tinham avançado; Matteo fora detido, e outros envolvidos estavam sendo ouvidos. O trabalho continuaria. Havia documentos para analisar e responsabilidades que não desapareceriam com uma única prisão.
Contei a Nico a parte da ligação que ele perdera enquanto atendia Evelyn. Ele ficou parado diante da janela por algum tempo.
Depois perguntou se eu ainda queria jantar.
"Quero. Mas amanhã podemos fazer uma coisa completamente sem importância?"
Ele se virou.
"Como o quê?"
"Comprar uma planta. Escolher um filme ruim. Você decide."
Nico pensou seriamente na pergunta.
"Uma planta. Você pode impedir que eu compre alguma que morra em dois dias."
"Não sou enfermeira de samambaia."
Ele riu e me puxou para um beijo.
Pela primeira vez em muitos dias, o dia seguinte tinha espaço para uma coisa pequena.
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