"Todos Se Calaram. Eu Defendi o Mafioso." Capítulo 9
O direito de escolher ficar
Nico pediu que Helena encaminhasse a mensagem completa. Leu sentado no corredor, com o telefone apoiado sobre a perna.
Eu vi quando chegou à parte que mencionava Wes.
"O que ele escreveu exatamente?", perguntei.
Ele me entregou a tela.
Matteo dizia que uma investigação atraía atenção para todos, inclusive para o menino cujo tratamento dependia de pessoas que não conhecia. Era cuidadoso o suficiente para parecer conselho a quem quisesse fingir que não era ameaça.
"Vou pedir que Marco organize uma saída da cidade para vocês", Nico disse.
A velha sensação voltou: pessoas decidindo o caminho e me avisando depois.
Ele percebeu antes que eu precisasse falar.
Passou a mão na nuca e soltou o ar.
"Não. Desculpe. Eu ia fazer isso de novo."
Sentei na cadeira ao lado.
"Você quer que eu vá embora?"
"Quero saber que ele não alcança você. Estou tentando encontrar um jeito sem..."
Ele parou, procurando a frase.
"Sem transformar a minha vida numa ordem sua?"
"É."
Olhei para o telefone. Eu tinha medo. Seria fácil falar de amor naquela situação e esconder que minhas pernas estavam moles só de imaginar Wes envolvido.
"Eu quero conversar com Ruth. Quero entender as medidas possíveis. E quero que a equipe do hospital saiba quem pode buscar meu irmão. Se a recomendação for ficar em outro lugar por um tempo, eu considero. Mas você precisa me incluir."
Nico assentiu.
"Vamos fazer assim."
Naquela noite, sentamos à mesa do apartamento com Marco e Ruth em chamada. Wes estava na casa de uma amiga dela, fazendo uma tarefa que aparentemente envolvia tinta demais.
Marco explicou medidas concretas, sem prometer que conseguiria controlar o mundo. Um transporte conhecido, um local reservado por alguns dias, nomes autorizados no hospital, contato imediato para qualquer aproximação. Ruth fez mais perguntas do que eu.
Quando terminamos, ela pediu para falar comigo sozinha.
Fui até a cozinha.
"Você está apaixonada por ele?", perguntou.
Apoiei a mão na bancada.
"Estou."
Dizer aquilo em voz alta deu um peso novo à palavra.
"Ele trata você bem?"
"Está tentando. Eu também. Não é simples."
"Quase nada que importa é. Só não fique porque tem vergonha de ir embora depois de tudo."
"Não estou ficando por isso."
Ela me olhou por alguns segundos.
"Então me liga amanhã. E come. Você fica impossível com fome."
Desliguei sorrindo, com os olhos molhados.
Quando voltei, Nico estava sozinho. Marco havia saído para uma reunião com Helena.
"Ela perguntou se eu trato você bem?", ele quis saber.
"Entre outras coisas."
"A resposta exige ajustes?"
Sentei ao lado dele.
"Às vezes."
Ele aceitou com um movimento de cabeça.
"Eu posso trabalhar com isso."
Durante os dois dias seguintes, Evelyn descansou, prestou seu relato com acompanhamento e reencontrou a colega que guardara seus arquivos. Eu a visitei uma tarde. Ela quis saber se o irmão estava dormindo e pediu que eu levasse uma blusa que ele detestava.
"Ele diz que tem uma cor indecente", contou.
"Qual cor?"
"Amarelo."
Rimos por mais tempo do que a piada merecia. Foi bom vê-la reclamar de alguma coisa pequena.
Camille também procurou Helena. Eu estava no apartamento quando chegou para uma reunião acompanhada do próprio advogado. Não se aproximou de Nico nem de mim.
Trouxe mensagens em que Matteo orientava que ela mantivesse a enfermeira ocupada durante determinadas visitas e registros de pagamentos a um assistente do antigo médico. Algumas datas coincidiam com as alterações que eu encontrara.
"Por que agora?", perguntei.
Ela olhou para o advogado antes de responder.
"Porque ele disse que eu entregava os comprimidos. Disse que ninguém acreditaria que não sabia o que havia neles."
"Você sabia que eu não deveria ver essas visitas."
Camille apertou a alça da bolsa.
"Sabia."
A admissão me deu mais alívio do que qualquer pedido de desculpas ensaiado daria.
Nico não ofereceu proteção em troca de uma versão favorável. Helena encaminharia os materiais completos, inclusive o que comprometia Camille.
Depois da reunião, eu o encontrei no quarto, sentado diante da cômoda. Havia fotografias dele com Evelyn espalhadas sobre a madeira.
"Você ainda quer jantar?", perguntou.
"Quero. Mas primeiro preciso falar uma coisa."
Ele virou a cadeira.
Eu não tinha preparado discurso. Talvez por isso consegui dizer.
"Eu estou apaixonada por você. E estou com medo de várias coisas ao mesmo tempo. Do seu pai, do que ainda vou descobrir sobre sua vida, de não saber onde eu caibo quando essa confusão terminar."
O rosto dele mudou devagar.
"Você não precisa caber num lugar que já exista."
"Nico, não me dê uma resposta bonita antes de ouvir tudo."
Ele fechou a boca e assentiu.
"Eu preciso trabalhar. Preciso continuar sendo irmã do Wes antes de ser qualquer outra coisa. E, quando eu disser não, quero que você escute, mesmo nos dias em que achar que sabe mais."
Ele me estendeu a mão.
Aproximei-me, mas não sentei até ouvir sua resposta.
"Eu amo você", disse. "Não sei fazer isso sem errar. Posso prometer que vou ouvir quando você me disser que errei e que não vou usar o que dou para impedir você de ir embora. Quero que fique porque gosta da vida comigo."
Sentei perto e toquei sua boca com a minha.
O beijo se alongou. Depois encostei a cabeça no seu peito e ouvi o coração que, na primeira noite, eu verificara com medo de encontrar mais alguma coisa errada.
Ele acariciou minhas costas.
"Você ficou quieta", murmurou.
"Estou aproveitando. Não estraga."
Senti sua risada contra o rosto.
A reunião com Matteo foi marcada para a tarde seguinte, num espaço escolhido por Helena, com acesso controlado e apoio externo. Nico compareceria com orientação de sua equipe. Eu não tinha obrigação de estar lá.
Mesmo assim, quando ele me perguntou o que eu pretendia fazer, respondi sem hesitar.
"Vou com você. Posso esperar fora durante o que não me disser respeito. Mas não quero que você saia de lá achando que precisa esconder de mim como foi."
Ele segurou minha mão por cima da mesa.
Dessa vez, perguntou qual horário funcionava para mim.
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