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"Todos Se Calaram. Eu Defendi o Mafioso." Capítulo 8

A janela aberta

Esperamos numa sala reservada do hospital, porque Nico precisaria da equipe por perto se o esforço daquela noite agravasse seus sintomas. Ele detestou a ideia, concordou e depois passou vinte minutos olhando para um relógio que não parecia avançar.

Eu fiquei na cadeira ao lado.

As autoridades haviam recebido os elementos reunidos, localizado a propriedade e organizado uma intervenção. Era tudo o que Helena podia nos dizer naquele momento. Marco acompanhava as comunicações com a equipe, fora da sala.

Não havia nada que eu pudesse verificar numa tela ou resolver com uma bolsa de atendimento.

Nico abriu uma garrafa de água e não bebeu.

"Ela tinha dezoito anos quando quis sair de casa pela primeira vez", contou. "Eu disse que esperasse terminar os estudos. Achei que estava ajudando."

"Você tinha quantos?"

"Vinte e seis. Já fazia o trabalho do meu pai e achava que conhecia o mundo."

"Conhecia o dela?"

Ele baixou a cabeça.

"Não o suficiente."

Eu não conhecia Evelyn. Só podia imaginar a garota das fotografias crescendo numa casa onde até uma janela aberta provocava discussão.

"Ela procurou você quando encontrou os pagamentos", lembrei. "Ainda achava que você podia ouvir."

Nico fechou a garrafa.

"E eu devia ter atendido a primeira ligação."

"Você está tentando escolher um momento em que poderia ter impedido tudo. Entendo a vontade. Mas não sabemos se esse momento existiu do jeito que você imagina."

Ele me olhou com os olhos vermelhos.

"Você faz isso com sua mãe?"

Meu peito apertou.

"Com a última consulta. Com um exame. Com uma tarde em que eu estava cansada e não percebi que ela também estava."

"E funciona?"

"Não. Só me deixa sem dormir."

Ele encostou a cabeça na minha por um instante. Não procurei dizer mais nada.

Quando Marco entrou, nos levantamos de maneiras diferentes: eu depressa, Nico endireitando o corpo e levando as mãos às rodas.

"Encontraram Evelyn", ele disse. "Está consciente. Vem para cá para ser avaliada. Dois funcionários que estavam na casa também foram levados para prestar esclarecimentos."

Nico abriu a boca, mas não saiu som.

"Ela perguntou por você", Marco acrescentou.

Eu vi o rosto dele se desfazer. Ajoelhei ao lado da cadeira e o abracei com cuidado. Ele se agarrou à parte de trás da minha blusa e chorou contra meu ombro, quase sem fazer barulho.

Esperei. Marco saiu e fechou a porta.

Mais tarde, uma médica nos autorizou a entrar no quarto. Perguntei a Nico se preferia ir sozinho.

Ele segurou minha mão.

"Pode vir."

Evelyn estava sentada na cama, com um cobertor nos ombros. Tinha o mesmo cabelo escuro do irmão e o rosto muito magro. A primeira coisa que fez ao vê-lo foi levar as mãos à boca.

"Disseram que você não conseguia reconhecer ninguém."

Nico se aproximou até a lateral da cama.

"Disseram que você não queria falar comigo."

Ela soltou um som pequeno e se inclinou. Ele a abraçou. A mão dela ficou presa no colarinho da camisa dele, como se ainda houvesse alguém prestes a separá-los.

Fui até a janela e dei espaço sem sair do quarto.

"Eu tentei", Evelyn disse depois. "Escrevi num papel, escondi num pacote de roupa. Uma mulher encontrou antes que saísse. Depois me mostraram fotografias suas no hospital e disseram que qualquer notícia ruim podia acabar com você."

"Você não precisava me proteger dele."

"Você estava internado, Nico. Eu não sabia o que era verdade."

Ele fechou os olhos.

Evelyn tocou o rosto dele.

"Não faz isso. Não começa a dizer que a culpa é sua. Eu não aguento ter de cuidar disso também."

Ouvi meu próprio ar voltar aos pulmões. Ela podia estar exausta, mas havia alguém ali que ainda sabia enfrentar o irmão.

Nico soltou um riso quebrado.

"Você continua mandona."

"Você continua demorando para entender."

Ela me viu junto à janela.

"Você é Adeline?"

"Sou."

"Marco disse que você ajudou meu irmão a sair."

"Ele teve ajuda de muita gente."

"Sim, mas me contaram que você foi a primeira a fazer alguma coisa."

Não encontrei resposta. Ela estendeu a mão, e fui até a cama.

Conversamos pouco naquele primeiro encontro. Quando Helena chegou, Evelyn pediu que eu permanecesse enquanto relatava o essencial. Sua fala às vezes parava; a advogada não a apressou.

Os arquivos sobre o incêndio não estavam todos com ela. Antes de desaparecer, enviara uma parte a uma antiga colega e deixara instruções confusas, com medo de envolver alguém. O contato seria recuperado. Também sabia quais documentos Nico havia solicitado antes do acidente e quem recebera os pedidos.

"Eu ouvi meu pai dizer que, depois do carro, você não podia continuar fazendo perguntas", contou ao irmão. "Não sei tudo o que ele mandou fazer. Mas sei o que ouvi. Vou dizer de novo a quem precisar."

Quando a médica pediu descanso, Nico ainda segurava a mão dela.

Evelyn olhou para a janela.

"Pode abrir um pouco? Só enquanto vocês estão aqui."

Conferi com a equipe e destravei a abertura permitida. Entrou uma fresta de ar frio e o ruído distante da rua.

Nico abaixou a cabeça.

Ao sairmos, ele pediu um lugar quieto. Fomos para um pequeno jardim interno, vazio àquela hora.

"Ela perdeu oito meses", disse.

"E agora está aqui. As duas coisas são verdade."

"Meu pai fez isso com ela usando meu nome."

Sentei perto dele e esperei sua mão procurar a minha.

"Eu não sei como ser filho de um homem assim", confessou.

"Hoje você não precisa resolver isso. Pode ser só irmão dela."

Ele levou meus dedos à boca. O beijo ali foi tão delicado que meus olhos arderam.

Na volta ao quarto de Evelyn, Helena nos encontrou no corredor.

Matteo tinha ligado. Queria uma reunião privada com o filho. Alegava que ainda podia evitar que pessoas inocentes sofressem.

Entre os nomes mencionados estavam o meu e o de Wes.

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