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"Todos Se Calaram. Eu Defendi o Mafioso." Capítulo 5

Uma ajuda que eu podia aceitar

Passei a madrugada no hospital, entre formulários, café ruim e o som discreto das rodas dos carrinhos no corredor.

Quando Ruth atendeu, começou perguntando se eu estava viva.

"Você disse que o plantão ia terminar cedo."

"Aconteceram algumas coisas."

"Essa frase costuma significar desastre na sua boca."

Contei o necessário. Ela ouviu em silêncio, depois disse que Wes continuava dormindo e que eu não deveria tomar decisão alguma antes de comer.

Parecia uma recomendação pequena diante de tudo, mas fui até a lanchonete.

Voltei com um sanduíche e encontrei Nico acordado. A enfermeira do hospital tinha acabado de acomodá-lo.

"Você mentiu para a criança sobre jantar", ele observou.

"Estava fiscalizando minha ligação?"

"Foi uma mentira pouco convincente."

Abri a embalagem. Ele acompanhou meu primeiro pedaço antes de fechar os olhos.

Os exames, a revisão da prescrição e a análise dos materiais levariam tempo. A médica que assumiu o caso explicou, com Nico presente, que alguns registros não correspondiam às ordens documentadas e que a sonolência precisava ser investigada. O tratamento seria ajustado sob acompanhamento. Não havia promessa de melhora instantânea.

Ele fez perguntas, pediu cópias e escutou respostas que não eram destinadas ao pai.

No fim da manhã, Helena chegou com notícias de Evelyn. A equipe havia conseguido verificar a propriedade indicada por Camille. Estava vazia. Um prestador confirmou que uma mulher e duas acompanhantes tinham sido levadas dali dez dias antes. As imagens e mensagens fornecidas por Camille ajudavam a reconstruir o caminho, mas ainda não mostravam o destino.

Nico ficou calado até a advogada terminar.

"Não deixem meu pai perceber o que já sabem", disse.

Quando ela saiu, ele olhou para a cadeira junto à cama.

"Eu devia ter procurado antes."

"Você procurou?"

"Pedi relatórios. Recebi histórias. Houve dias em que mal conseguia terminar de ler uma página. Comecei a achar que o problema era eu."

Eu apoiei os braços nos joelhos.

"Não sei tudo o que aconteceu. Mas sei que alguém tornou difícil para você pedir ajuda e depois usou sua dificuldade como prova de que não deveria ouvir você."

Ele virou o rosto para a janela. Fiquei em silêncio até a hora de ir para casa.

Antes de eu sair, pediu meu número pessoal. O número que ele tinha pertencia ao aparelho do plantão.

"Para avisar se houver notícia?", perguntei.

"Também para saber se você chegou."

Anotei no verso de um recibo. Ele guardou o papel, embora pudesse ter digitado diretamente.

Dois dias depois, encontrei Helena numa sala do hospital. Eu havia consultado uma profissional independente, indicada pelo sindicato da minha categoria, sobre o encerramento do contrato. Ainda havia questões a resolver, mas eu já sabia o que não deveria assinar.

Helena colocou diante de mim uma proposta de custeio do tratamento de Wes, enviada por Nico.

Li todas as páginas.

"Não quero que minha recusa em trabalhar para ele altere isso. Nem uma eventual separação", falei, ficando vermelha ao perceber a palavra que usara.

A advogada não sorriu.

"Vou deixar essa independência expressa. Você também pode levar para revisão antes de aceitar."

"E quero que o hospital receba diretamente."

"Tudo bem."

Quando entrei no quarto de Nico, ele estava tentando abrir um pote de geleia com uma mão só. O ombro ainda o incomodava.

"Não diga nada", avisou.

Sentei ao lado e esperei.

Ele empurrou o pote na minha direção.

"Pode abrir?"

Abri e devolvi.

"Helena contou suas condições", ele disse.

"Você se ofendeu?"

"Com a desconfiança? Não. Com a possibilidade de você achar que eu compraria sua companhia, um pouco. Mas provavelmente mereci, considerando o sobrenome."

"Eu preciso entender o que estou aceitando."

"Eu sei."

Tirei da bolsa uma folha com os horários de visitas e terapias que ele me pedira para organizar.

"A equipe aqui está cuidando de você. Depois da alta, outra empresa pode assumir a assistência domiciliar. Eu posso passar as informações, mas acho melhor não continuar como sua enfermeira particular."

Nico largou a colher.

"Porque está com medo?"

"Porque, quando você pediu meu telefone, eu fiquei feliz. Mais feliz do que deveria ficar por uma coisa de trabalho."

Ele me olhou sem se esconder atrás do humor.

"Eu não pedi por trabalho."

Minha garganta apertou de um jeito bom e assustador.

"Então precisamos fazer isso direito."

"Concordo. Embora eu vá sentir falta de você mandando em mim profissionalmente."

"Você vai sobreviver."

A alta veio no dia seguinte, para um apartamento acessível que ele possuía perto do lago. Uma equipe independente ficou responsável pelo cuidado. Eu fui ver Wes e dormi uma noite inteira no sofá de Ruth, com o pé do meu irmão enfiado sob minha perna.

No sábado, levei Wes a uma consulta. Nico já tinha uma avaliação no mesmo hospital e perguntou se podia nos encontrar depois.

Quando ele apareceu no saguão, meu irmão examinou suas mãos apoiadas nas rodas.

"Você consegue fazer curva bem rápido?"

"Wes", repreendi.

Nico ergueu uma sobrancelha.

"Depende de quem está no caminho."

"Minha irmã derruba tudo quando tenta andar rápido."

"Eu estou aqui", lembrei.

"Eu sei. Estou contando para ele tomar cuidado."

Na cafeteria, Wes tirou um pequeno jogo de cartas da mochila. Explicou as regras de maneira tão favorável a si mesmo que Nico me lançou um olhar indignado.

"É assim que você o educa?"

"Ele aprendeu sozinho. Eu estou muito orgulhosa."

Vi Nico rir. Um riso verdadeiro, que mudou seu rosto inteiro.

Mais tarde, Wes ficou sério de repente.

"Você tem medo de hospital?"

Nico pôs as cartas na mesa.

"Às vezes."

"Eu também."

"Do que você tem mais medo?"

"De acordar e a Addie não estar lá."

Meu peito doeu.

"Eu vou estar", falei.

Nico olhou para mim, depois para ele.

"Sua irmã costuma cumprir o que promete. Já percebi isso."

Ao sairmos, Ruth veio buscar Wes para eu poder conversar alguns minutos com Nico. Meu irmão aceitou depois de exigir uma revanche.

Nico esperou que o carro saísse.

"Você janta comigo amanhã?"

"Para conversarmos sobre a equipe de enfermagem?"

"Não. Para eu descobrir do que você gosta quando não está resolvendo um problema meu."

Senti um sorriso aparecer sem pedir licença.

"Você escolhe o lugar. E precisa comer alguma coisa além de torrada."

"Já estamos discutindo o cardápio. Vou considerar isso um sim."

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