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"Todos Se Calaram. Eu Defendi o Mafioso." Capítulo 3

O preço do meu silêncio

"Meu irmão não tem nada a ver com isso."

As palavras saíram mais baixas do que eu queria. Matteo percebeu. Vi na maneira como inclinou a cabeça, satisfeito por termos encontrado um assunto que entendíamos igualmente bem.

"O tratamento dele faz parte de um acordo de trabalho. Acordos podem terminar."

"Eu não pedi demissão."

"Ainda não."

Ele abriu a porta do pequeno escritório ao lado da escada. Da entrada eu continuava vendo o corredor do quarto de Nico. Fiquei ali, sem avançar até a cadeira que me ofereceu.

Sobre a mesa havia duas folhas.

"Você reconhece que interpretou mal alguns registros. Encerra seu contrato por motivos pessoais. Recebe seis meses de salário e a garantia de que o menino será operado."

Li a primeira página. O texto dizia que eu não observara irregularidade alguma, que estava emocionalmente abalada por questões familiares e que minhas declarações não deveriam ser consideradas confiáveis.

Pensei em Wes me perguntando por que uma cirurgia marcada podia desaparecer do calendário. Pensei na vizinha que vendera uma máquina de costura para nos ajudar e em todas as ligações nas quais eu aprendera a dizer obrigada depois de ouvir não.

Seis meses de salário. Uma cirurgia garantida.

Eu queria aquelas coisas com uma força que me envergonhou.

"Posso receber o que já trabalhei e fazer uma passagem regular de plantão", falei. "Mas não vou assinar isso."

Matteo apoiou a mão na mesa.

"Você não precisa transformar um emprego em uma causa. Meu filho gosta de comprar lealdade quando está contrariado. Amanhã ele se acalma, e você continua com um irmão doente."

Eu dobrei a folha na marca já existente e a deixei onde estava.

"Então vou precisar encontrar outra maneira de cuidar dele."

Minha voz falhou no final. Eu odiei que falhasse, mas não retirei o que dissera.

Matteo recolheu os papéis.

"Seu acesso ao armário de medicamentos será suspenso."

"Solicite o recolhimento formal e a identificação de quem vai assumir. Até lá, não autorize ninguém a usar meu nome."

Saí antes que ele visse meus olhos encherem.

No corredor, apoiei a mão na parede por dois segundos. Precisava ligar para o hospital. Precisava falar com Ruth. Precisava conseguir pensar em uma coisa de cada vez.

A porta do quarto abriu.

"Adeline?", Edna chamou.

Passei as mãos no rosto e entrei.

Nico me olhou uma única vez.

"O que ele ofereceu?"

Não perguntei como sabia.

"Dinheiro. A cirurgia do meu irmão. Em troca de uma declaração dizendo que eu me enganei."

Edna abaixou os olhos.

"Você pode nos dar alguns minutos?", Nico pediu a ela.

Quando a porta se fechou, permaneci em pé.

"Eu preciso que você saiba uma coisa antes de ouvir a versão dele. Eu quase aceitei."

A mandíbula de Nico se contraiu.

"Quase?"

"Eu li. Fiz as contas. Imaginei meu irmão saindo da cirurgia. Não quero que pense que nem considerei."

Ele estendeu a mão para o documento que eu não tinha trazido. Ao perceber, deixou-a cair no colo.

"Você assinou?"

"Não."

"Então sente."

"Nico, eu aceitei esse emprego pelo dinheiro."

"Eu também pago meu motorista para dirigir. Isso não o autoriza a me jogar de uma ponte."

Uma lágrima caiu antes que eu conseguisse contê-la.

"Isso não é engraçado."

"Eu sei. Estou tentando não ir até o corredor fazer uma coisa que vai piorar sua noite."

Sentei na beirada da poltrona. Ele esperou que eu me recompusesse, sem tocar em mim como se precisasse encerrar meu choro depressa.

"Meu pai contou com você ficar com vergonha de precisar", disse. "Ele faz isso muito bem."

"Não quero que você me dê alguma coisa porque está zangado com ele."

"Então não vamos resolver dinheiro hoje. Vamos sair daqui e conversar com pessoas que não usem seu irmão para negociar."

Alguém bateu duas vezes. Edna entrou com uma mulher de cabelo curto, pasta de couro e nenhum interesse em aparentar simpatia.

"Helena Price", ela se apresentou. "Represento Nico. Ele me autorizou a ouvir o que aconteceu. Você pode preferir orientação própria antes de assinar qualquer coisa."

"Eu não assinei."

"Ótimo começo."

Marco chegou minutos depois, com um casaco aberto sobre a camisa. Parou diante da marca no rosto de Nico.

"Quem?"

"Depois", Nico respondeu. "Primeiro, o transporte."

Enquanto Helena conferia as orientações dele, eu reuni meus registros e os itens separados para avaliação. Cada material foi identificado; os profissionais que assumiriam a assistência receberiam o histórico completo. Eu não levaria comprimidos soltos no bolso como se fossem uma prova que só eu pudesse proteger.

Estávamos quase prontos quando Camille entrou sem bater.

Tinha trocado a taça por um lenço. A pulseira continuava no mesmo lugar.

"Precisamos parar com esse espetáculo", disse. "Os convidados estão perguntando por que houve uma ambulância."

Nico afastou o telefone.

"Diga a verdade."

"Você quer acabar com nossa reputação por uma discussão?"

"Você me derrubou e me bateu. Depois tentou demitir a pessoa que impediu que continuasse. Não chame isso de discussão."

Ela olhou para mim.

"Você ensaiou isso com ele?"

"Fale comigo", Nico disse.

Camille apertou o lenço.

"Estamos a dezessete dias do casamento. Minha família fez compromissos por você."

"Avise que eles não precisam mais cumpri-los. O casamento não vai acontecer."

Eu ouvi o ar sair do peito dela.

"Você não pode decidir isso agora."

"Acabei de decidir. Helena vai tratar das comunicações necessárias."

Camille deu um passo e parou ao ver Marco se mover para perto da porta. Pela primeira vez naquela noite, pareceu compreender que não bastaria levantar a voz.

"Você vai escolher uma funcionária em vez de mim?"

"Estou terminando com você pelo que você fez. Não coloque isso nas costas dela."

Fiquei imóvel. Havia algo doloroso em ouvir aquela frase depois de tanto tempo carregando coisas que outras pessoas tinham decidido por mim.

Camille olhou de Nico para Helena. A advogada apenas fechou a pasta.

"Você deveria conversar com seu próprio advogado", disse.

"Meu pai não vai aceitar isso. Nem o seu."

"Meu pai não vai se casar com você", Nico respondeu. "Saia, Camille."

Ela chegou à porta. Pôs a mão na maçaneta e ficou ali por um momento longo demais.

Quando se virou, já não olhava para mim.

"Se você me mandar embora, nunca vai descobrir onde Evelyn está."

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