"Todos Se Calaram. Eu Defendi o Mafioso." Capítulo 2
A primeira pessoa em quem confiar
Puxei a cadeira da escrivaninha e sentei diante dele. Não queria que minha resposta viesse do outro lado do quarto.
"Encontrei uma diferença entre o registro de administração e a contagem dos comprimidos. Depois percebi que havia uma anotação feita em um horário em que eu não estava trabalhando. Minha assinatura foi usada."
O rosto dele perdeu o pouco humor que ainda tinha.
"Quando?"
"Hoje à tarde. Conferi a segunda vez antes de descer. Eu ia pedir que você autorizasse uma revisão independente."
"Por que não ligou para meu médico?"
"Liguei para o consultório. Disseram que ele retornaria. Não quis administrar uma dose duvidosa enquanto esperava."
Mostrei o horário da ligação e as fotografias. Apontei diferenças sem transformá-las em certezas.
"A aparência de um comprimido, sozinha, não prova o que ele contém. Mas isso precisa ser verificado por alguém que não dependa desta casa."
Nico pediu meu telefone. Ampliou uma imagem, aproximando o rosto da tela.
"Essa letra não é sua."
"Não."
"Eu conheço sua letra. Você escreve sete como se estivesse brigando com o papel."
Eu olhei para ele, surpresa.
"É para ninguém confundir com um."
"Se alguém confundir, você provavelmente aparece para corrigir."
Ele devolveu o aparelho e passou a mão pelo rosto, evitando a área atingida.
"Não quero mais que o consultório fale com meu pai antes de falar comigo."
"Vou registrar essa orientação."
"E quero falar com Marco Rinaldi."
Eu conhecia o nome. Dois funcionários haviam parado de conversar quando eu entrara na cozinha durante uma discussão sobre sua transferência.
"Ele cuidava da segurança?"
"Cuidava de mim. Meu pai o mandou para outro estado enquanto eu estava internado. Disse que eu precisava descansar de assuntos do trabalho."
Nico abriu o telefone e encontrou o contato. Deixou a chamada no viva-voz.
"Onde você está?", perguntou quando o homem atendeu.
"Em Milwaukee. O que aconteceu?"
"Preciso que venha me buscar. Traga uma equipe em quem você confie e fale com Helena Price. Quero minha advogada aqui."
Houve uma pausa breve.
"Seu pai sabe que está me ligando?"
"Não estou ligando em nome dele."
"Entendi. Saio agora."
Quando desligou, Nico fechou os olhos. Eu conhecia aquele sinal: a dor começava a vencer sua concentração.
"Deixe que eu veja seu ombro mais uma vez."
Ele não discutiu. Isso me preocupou mais do que qualquer reclamação.
O atendimento chegou pouco depois. Fiquei durante a avaliação, entreguei os registros e expliquei a queda. Nico respondeu por si mesmo. O profissional recomendou investigação complementar e observação, e ele concordou com a transferência assim que o transporte estivesse organizado.
Quando ficamos sozinhos de novo, bateram à porta.
"Nico, sou eu", Camille chamou. "Seu pai disse que você não está pensando direito. Precisamos conversar antes que alguém leve você."
Ele manteve os olhos em mim.
"Você anotou o que aconteceu lá embaixo?"
"Ainda não."
"Anote tudo. Inclusive o nome de quem estava perto."
Camille girou a maçaneta.
"Não vou conversar agora", ele disse alto.
"Ela está colocando coisas na sua cabeça."
"Eu estava presente quando você me bateu. Minha memória desse momento está excelente."
Os passos se afastaram.
Meu celular vibrou. Ruth, prima da minha mãe, tinha mandado uma fotografia de Wes adormecido no sofá com uma tigela de pipoca apoiada na barriga.
Antes que eu respondesse, veio uma chamada de vídeo.
"Desculpe", falei. "Preciso atender por um minuto."
Nico indicou a poltrona com a mão.
Na tela, meu irmão apareceu perto demais da câmera.
"A Ruth disse que você ia ligar antes de eu dormir."
"Você já estava dormindo. Tenho provas."
"Eu estava pensando de olhos fechados."
"Na pipoca?"
"Principalmente. Você vem amanhã?"
Olhei para Nico. Ele desviou os olhos para me dar privacidade, embora não pudesse deixar de ouvir.
"Vou organizar tudo para ir. Como você está?"
Wes deu de ombros. A ponta do pijama estava torcida entre seus dedos.
"O hospital ligou de novo?"
"O horário continua o mesmo. Você não precisa ficar conferindo."
"Alguém precisa. Você perde os óculos quando eles estão na sua cabeça."
Prometi ligar cedo e esperei Ruth pegar o aparelho. Ela me disse baixinho que ele estava cansado, sem novidades preocupantes, e perguntou se eu tinha comido.
Menti que sim.
Assim que desliguei, Nico apontou para o telefone.
"Seu filho?"
"Meu irmão. Sete anos. Eu sou a responsável por ele desde que nossa mãe morreu."
"E seu pai?"
"Nunca foi alguém com quem pudéssemos contar."
Ele não preencheu o silêncio com condolências automáticas.
"O tratamento dele estava no seu contrato", disse.
Assenti, olhando minhas mãos.
"Foi por isso que aceitei a vaga. Eu sabia quem era sua família. Sabia que três enfermeiros tinham ido embora. Mesmo assim, quando falaram da cirurgia, eu parei de fazer as perguntas que deveria ter feito."
"Você começou hoje."
"Talvez tarde demais."
"Você impediu aquele segundo tapa. Não chegou tarde para mim."
Precisei respirar antes de responder.
"Isso não quer dizer que eu sou corajosa o tempo inteiro."
"Eu desconfiaria se dissesse que é."
O braço dele escorregou no apoio. Vi a careta que tentou esconder.
"Adeline, pode colocar a almofada atrás do meu ombro?"
Era uma solicitação simples. Ainda assim, fui devagar, consciente de que ele raramente fazia uma.
"Assim?"
"Um pouco mais para a esquerda. Isso. Obrigado."
Quando me afastei, ele segurou meus dedos por um instante.
"Não deixe que meu pai converse por você. Nem comigo."
Soltou minha mão antes que eu encontrasse uma resposta.
Pouco depois, precisei buscar minha bolsa e os registros no posto de enfermagem do corredor. Edna veio ficar com ele. Eu tinha acabado de fechar a porta quando encontrei Matteo ao lado da escada.
"Senhorita Marsh. Podemos conversar?"
"Estou aguardando a transferência de Nico."
Ele sorriu sem pressa.
"Seu irmão tem uma consulta pré-operatória na terça, não tem? Seria uma pena vocês precisarem começar tudo de novo."
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