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"Todos Se Calaram. Eu Defendi o Mafioso." Capítulo 1

Antes do segundo tapa

O primeiro tapa fez o pianista parar. O segundo não chegou ao rosto de Nico Alfieri porque eu segurei o pulso da noiva dele.

A bandeja que eu carregava caiu atrás de mim. Ouvi o copo de plástico quicar no mármore, mas não olhei. Camille tinha os dedos rígidos dentro da minha mão e a expressão de quem acabara de ser contrariada por uma cadeira.

"Solte meu braço."

"Quando você baixar a mão."

Aos meus pés, Nico apoiava uma palma no chão e se agarrava à mesa do aparador com a outra. A cadeira de rodas estava tombada ao lado dele. A marca no rosto escurecia devagar.

Trinta pessoas tinham visto. Algumas ainda seguravam taças.

Eu havia chegado ao vestíbulo a tempo de ouvir Nico dizer que não assinaria documento algum naquela festa. Camille segurara o encosto quando ele tentara sair. Ele mandara que soltasse. Ela puxara a cadeira bruscamente para trás, uma roda batera no ressalto do tapete, e ele caíra.

Depois viera o tapa.

"Você está me machucando", ela disse.

Afrouxei os dedos o suficiente para não apertar seu pulso, sem permitir que ela alcançasse Nico.

"Então pare de tentar bater nele."

Um dos homens mais velhos da família deu um passo. O segurança junto à porta atravessou o braço na frente dele. Eu conhecia aquele gesto. Desde que começara a trabalhar ali, três meses antes, vinha aprendendo que as ordens mais importantes daquela casa raramente eram dadas em voz alta.

"Adeline."

Olhei para baixo.

Nico estava pálido sob a pele morena. A camisa branca esticava nos ombros, e uma faixa de tatuagem aparecia onde o punho havia subido. Ele respirava com cuidado.

"Pode soltar", disse. "Ela não vai tentar outra vez."

Camille arrancou o braço e ajeitou a pulseira de diamantes.

"Você está demitida. Recolha suas coisas."

Meu estômago se contraiu. Pensei no telefonema do hospital daquela manhã, na cirurgia de Wes, na palavra confirmação que eu finalmente ouvira depois de meses.

"Ela fica", Nico disse.

"Você viu o que ela fez comigo?"

Ele ergueu o rosto marcado.

Camille desviou os olhos primeiro.

Ajoelhei perto dele, deixando espaço.

"Bateu a cabeça?"

"Não."

"Está sentindo alguma dor diferente?"

"No ombro esquerdo. Consigo mexer."

"Vou verificar antes de ajudar você a levantar. Tudo bem?"

Ele assentiu. Toquei seu ombro com cuidado, observei a expressão e pedi movimentos pequenos. Eu não tinha como saber ali se havia algo além de uma contusão. Precisávamos sair daquele chão e obter uma avaliação adequada.

"Posso chamar uma ambulância", falei baixo.

"Chame o atendimento. Mas me tire daqui primeiro, se for seguro."

Edna apareceu ao meu lado com a prancha de transferência que mantínhamos no corredor de serviço. Os olhos dela estavam úmidos. Eu quis perguntar onde estivera um minuto antes, mas aquela não era a hora.

"Paolo", Nico chamou o homem que o segurança impedira de avançar. "Venha ajudar."

O segurança olhou para a entrada da sala de jantar.

Matteo Alfieri estava ali, impecável no terno escuro, observando o filho como quem esperava que uma inconveniência terminasse sozinha.

"Agora", Nico disse.

Paolo passou pelo braço do segurança.

Organizamos a transferência com espaço e apoio. Nico participou de cada movimento que conseguia fazer. Quando voltou à cadeira, havia suor junto à sua têmpora. Esperei que recuperasse o fôlego antes de ajeitar seu apoio de pé.

Camille se inclinou na direção dele.

"Se você sair agora, todos vão pensar que perdemos o controle."

"Tire a mão da minha cadeira."

"Nico, por favor."

"Eu pedi uma vez antes de cair. Não vou pedir de novo."

Ela recuou. O silêncio pareceu ficar mais pesado.

Nico olhou para os convidados.

"A festa acabou. Edna vai providenciar os carros."

Matteo finalmente se aproximou.

"Vamos conversar no escritório."

"Depois da avaliação médica."

"Você está exagerando um desentendimento."

Nico olhou de relance para a noiva.

"Então você não terá dificuldade em explicar aos convidados por que minha enfermeira precisou impedir que ela me batesse de novo."

Ninguém respondeu. Eu peguei minha bolsa de atendimento e acompanhei a cadeira até o elevador.

Só quando as portas se fecharam percebi que minhas mãos tremiam.

"Você está ferida?", ele perguntou.

"Não."

"Ela apertou seu braço. Eu vi."

Olhei as marcas de unhas perto do cotovelo.

"Isso não é nada."

"Não faça comigo o que eu faço com você. É irritante."

Uma risada curta escapou antes que eu conseguisse impedir. Então meus olhos arderam, o que me irritou mais ainda.

Nico não comentou. Esperou que eu terminasse a ligação com o serviço médico.

No quarto, tranquei a porta por hábito e me arrependi imediatamente.

"Quer que eu deixe aberta?"

"Não. Hoje eu prefiro saber quem entra."

Ajudei-o a tirar o paletó que Paolo colocara sobre seus ombros. A manga prendeu no relógio, e ele soltou uma palavra baixa em italiano.

"O relógio não está conspirando contra você", falei.

"Ainda estou avaliando."

Soltei o tecido. Aquele pequeno pedaço de normalidade quase me desarmou.

Havia três meses eu tratava de um homem que detestava que tocassem sua cadeira sem perguntar, sabia o nome de todos os funcionários e conseguia fazer um advogado perder a fala com uma única pergunta. Mesmo assim, lá embaixo, tinham esperado que ele aceitasse apanhar.

Coloquei água ao alcance dele e fui recolher o copo de medicamentos preparado antes da festa. Nico acompanhou meu movimento.

"Não me dê isso ainda."

Parei.

Ele olhou para o copo, depois para mim.

"Quando você chegou ao salão, antes da discussão, ficou olhando para essa bandeja. Eu vi sua expressão."

Minha mão se fechou na borda da mesa.

"Eu estava procurando você para conversar."

"Então converse agora. Por que você ficou com medo quando viu meus comprimidos?"

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