"Minha Filha Salvou o Homem Mais Temido da Cidade" Capítulo 8

Sem a bandeja entre eles

Na noite de sábado, choveu tão forte que Lily decidiu que o céu estava tomando banho.

Depois de contar a mesma história três vezes, Sofia conseguiu fazê-la dormir. Encontrou Dominic na cozinha da família, olhando para uma panela como se ela lhe devesse uma explicação.

"A Rosa deixou sopa", ele disse.

"E você está esperando que ela se aqueça sozinha?"

"Estou decidindo se isso é fogo baixo."

Sofia olhou para o fogão desligado.

"Nesse ritmo, vai demorar bastante."

Ele baixou os olhos para o botão e soltou uma risada.

Ela acendeu a chama, pegou duas tigelas e se encostou à bancada.

Dominic estava de camiseta escura. Sem o colarinho e o paletó, parecia menos distante. As tatuagens subiam pelo braço até desaparecer sob a manga, e havia um pequeno corte antigo junto ao queixo que Sofia nunca observara tão de perto.

Ele a pegou olhando.

"O que foi?"

"Você parece uma pessoa que devia saber aquecer sopa."

"Posso aprender. Minha professora é exigente."

Sofia desviou o rosto para esconder o sorriso.

Comeram à mesa pequena, ouvindo a chuva bater nos vidros. Não havia um funcionário esperando junto à parede, nem uma bandeja entre os dois.

"Seu botão ficou bom", ela comentou.

"Eu sei. Cobrou barato."

"Da próxima vez, aumento."

"Justo."

Dominic terminou a sopa e deixou a colher na tigela.

"Quando decidiu trabalhar com vestidos?"

Sofia girou a própria colher entre os dedos.

"Minha mãe fazia consertos na mesa da cozinha. Eu gostava de ver uma roupa que não servia em ninguém voltar a servir em alguém. Parecia um truque."

"Ela ainda costura?"

"Morreu quando eu tinha vinte e dois. Ficaram a máquina e umas clientes. Depois vieram outras urgências."

Ele baixou a cabeça.

"Eu não sabia."

"Você não tinha como saber. Eu nunca contei."

A chuva engrossou. Dominic se levantou para fechar uma janela, e Sofia recolheu as tigelas.

Ele voltou a tempo de pegar uma delas.

"Deixe que eu levo."

As mãos se tocaram na borda da louça.

Nenhum dos dois se afastou imediatamente.

Sofia olhou para os dedos dele, depois para seu rosto. Já sentira medo daquele homem muitas vezes. Naquele momento, o que a fez prender a respiração foi outra coisa.

Dominic colocou a tigela sobre a bancada.

"Estou tentando ir devagar", disse.

Sofia ouviu a própria voz sair mais baixa:

"Eu percebi."

"Nem sempre sou bom nisso."

Ela pensou na chave entregue sem entrar, no café, no lugar vazio ao lado da porta enquanto depunha. Pensou também nos carros, nos homens armados e no irmão que ainda lhe causava pesadelos.

Gostar dele não apagava nada. Só tornava impossível fingir que ele era apenas seu empregador.

"Eu não sei fazer isso sem ter medo", confessou.

Dominic apoiou a mão na bancada, perto da sua.

"Medo de mim?"

"Às vezes. Hoje, de gostar de ficar."

Ele fechou os olhos por um instante.

Quando voltou a olhá-la, não havia um sorriso fácil.

"Eu penso em beijar você desde aquela manhã do botão. Provavelmente desde antes."

Sofia soltou uma risada nervosa.

"Ainda bem que não disse enquanto eu segurava a agulha."

Ele riu também, e foi aquele pequeno alívio que a fez se aproximar.

Sofia tocou seu antebraço. Dominic ergueu a mão devagar e afastou um fio de cabelo de seu rosto.

O primeiro beijo foi breve. A boca dele estava quente, com um gosto leve de café. Quando se separaram, Sofia continuou segurando sua camiseta.

"Eu queria fazer isso sem estar trabalhando", ela disse.

"Você está de folga."

"Você sabe o que eu quis dizer."

Dominic encostou a testa na dela.

"Sei."

Ela ergueu o rosto e o beijou outra vez.

Dessa vez, ele a puxou pela cintura. Sofia sentiu a palma larga nas costas, o cuidado desaparecendo só o bastante para revelar o quanto ele também estava se contendo.

Quando se afastaram, sua respiração estava tão irregular quanto a dele.

Do corredor veio o som de uma porta.

"Mamãe?"

Sofia deu um passo para trás e encontrou Lily de camisola, arrastando o urso por uma pata.

"Acordou, meu amor?"

"O trovão brigou."

Dominic foi até a porta e se abaixou.

"Quer que a gente confira a janela?"

Lily o abraçou pelo pescoço sem responder.

Ele ficou imóvel por um segundo antes de envolvê-la com os braços.

Sofia levou a mão à boca, ainda sentindo o beijo.

A filha tinha escolhido um colo antes que os adultos soubessem o que fazer com o próprio coração.

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