"Minha Filha Salvou o Homem Mais Temido da Cidade" Capítulo 7
O lugar de cada um
O investigador chegou numa quinta-feira, às nove.
Sofia tinha passado a noite organizando na cabeça tudo o que ouvira na biblioteca. Não precisava inventar coragem para uma plateia. Precisava lembrar as palavras certas, inclusive as que desejava esquecer.
Dominic a esperou junto à sala reservada para o depoimento.
"O advogado explicou como funciona?"
"Explicou. Vou contar o que vi e ouvi. Se não lembrar alguma coisa, digo que não lembro."
Ele assentiu.
"Quer que eu espere aqui?"
Sofia olhou para a porta fechada.
"Quero. Mas lá dentro preciso falar sozinha."
"Está bem."
Durante quase uma hora, ela respondeu a perguntas sobre o jantar, a mensagem falsa e o envelope. O investigador não pediu para Lily repetir a história naquela sala. Explicou que qualquer necessidade de ouvi-la seria tratada com os cuidados adequados para sua idade.
Sofia saiu com dor de cabeça e a sensação incômoda de ter aberto todas as gavetas de sua vida diante de um desconhecido.
Dominic estava no mesmo lugar, agora com uma xícara intocada na mão.
"Acabou por hoje?"
"Acabou."
Ele lhe entregou a xícara.
"Esse ainda está quente. Pedi quando ouvi a cadeira se mover."
Sofia segurou o café com as duas mãos.
"Você anda prestando muita atenção nas cadeiras."
"Tenho tido bons motivos."
Ela bebeu um gole. Não estava doce demais.
Naquela tarde, Marco os encontrou na varanda enquanto Lily ensinava Rosa a desenhar gatos.
O advogado autorizara que Sofia recebesse uma atualização. Alessandro havia sido preso na manhã seguinte à ameaça na biblioteca. Enzo também estava sendo investigado. Os registros de acesso e as mensagens recuperadas no telefone dele ligavam a ordem falsa ao plano de fazer Sofia voltar atrás.
Nada daquilo dependia mais de uma criança enfrentar um salão inteiro sozinha.
"E quando a gente puder ir para casa?", Sofia perguntou.
Marco respondeu, olhando para ela, não para Dominic:
"Estamos terminando a revisão de segurança do prédio e dos trajetos. Se não surgir nenhuma informação nova, podemos organizar a volta na próxima semana. Com acompanhamento no começo."
Sofia percebeu Dominic ficar muito quieto ao seu lado.
"Obrigada por me dizer."
Marco se afastou.
Lily levantou o desenho.
"Esse gato parece uma batata."
"Eu fiz o que pude", Rosa protestou.
Sofia riu. Dominic não.
Antes que pudesse perguntar o motivo, chegaram dois carros. Homens que ela conhecia das reuniões atravessaram o jardim acompanhados de Augusto, primo mais velho dos Moretti.
Dominic se levantou.
"Vou resolver uma coisa."
Augusto, porém, já os tinha visto.
"Aqui estão nossas heroínas."
O tom fez Sofia apertar a xícara.
Lily não percebeu. Continuou ocupada acrescentando bigodes à batata.
"Sofia", Dominic disse, "você não precisa ficar para esta conversa."
Ela teria ido embora se Augusto não olhasse para a menina e acrescentasse:
"O que uma criança pode causar sem entender, não é? Alessandro sempre foi impulsivo. Uma família não deveria ser destruída por uma confusão de jantar."
Sofia pousou a xícara com cuidado.
"Minha filha não causou isso."
Augusto a encarou como se só então tivesse percebido que ela podia responder.
"Não estou acusando ninguém, querida. Só digo que algumas questões de família precisam ser resolvidas em família."
Dominic desceu o único degrau da varanda.
"Então fale comigo. Não use uma criança para chegar ao assunto."
"Você sabe o que estão dizendo sobre tudo isso."
"Se quiser repetir, faça isso longe dela."
Augusto baixou a voz, mas Sofia ainda ouviu:
"É mesmo necessário expor seu irmão por causa dessa mulher?"
O rosto de Dominic perdeu qualquer vestígio de gentileza.
"Meu irmão colocou veneno no meu vinho. Sofia não fez isso. Lily também não. Não volte a trocar o nome do culpado porque é mais fácil pressionar quem tem menos poder."
Um dos homens olhou para os próprios sapatos.
Augusto tentou tocar o braço dele. Dominic se afastou.
"Podemos conversar no escritório. Se vieram pedir que eu abandone o caso, economizem o caminho."
Sofia pegou Lily no colo e entrou com Rosa. Não ficou para ouvir o resto.
Na cozinha, a filha quis saber por que o homem estava zangado.
"Porque ouviu uma resposta que não queria."
"Você também faz essa cara quando eu peço doce antes do almoço."
Sofia beijou sua testa.
"Espero fazer uma cara um pouco melhor."
Mais tarde, Dominic a encontrou no pequeno ateliê improvisado.
"Sinto muito pelo que ele disse."
Ela terminou de prender um alfinete antes de responder.
"Você não pediu que eu ficasse calada para facilitar as coisas."
"Não teria esse direito."
Sofia ergueu o rosto.
"Muita gente teria pedido mesmo assim."
Ele se aproximou da mesa, parando do outro lado do vestido que ela ajustava.
"Não vou gostar quando vocês forem embora."
A frase saiu sem preparação. Sofia perdeu o lugar da linha.
Dominic olhou para suas mãos.
"Mas Marco tem ordens de continuar organizando a volta."
Pela primeira vez, Sofia conseguiu separar as duas coisas: ele queria que ficassem. E estava ajudando-as a partir.
Ela pousou a agulha.
"Eu também não vou achar fácil."
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