"Minha Filha Salvou o Homem Mais Temido da Cidade" Capítulo 5

Um urso no escritório

Na terceira noite, Lily acordou chorando.

Não queria contar o sonho. Só agarrava a camisola de Sofia e repetia que não devia ter saído da copa.

Sofia acendeu o abajur, ofereceu água e a embalou sentada na cama.

"Você pode ter medo. Eu também tive. Mas não fez nada de errado por pedir ajuda."

"O moço cinza ficou bravo."

"Ele não está aqui."

"Ele volta?"

Sofia encostou a boca na testa da filha.

"Eu não vou deixar você sozinha com ele."

Era a promessa que conseguia fazer. Não quis construir outra maior do que suas forças.

Uma hora depois, Lily ainda recusava o travesseiro. O corredor estava silencioso, exceto pela luz sob a porta do escritório no fim da ala.

Sofia pensou na copa. Um pouco de leite morno talvez ajudasse.

Saiu com a menina no colo e avisou o segurança antes de descer. Ao passar pelo escritório, ouviu Dominic falar:

"Sofia?"

Ele estava à porta, descalço, com a camisa aberta no pescoço e uma pasta na mão.

Lily esticou o braço.

"Você tá vivo?"

A pergunta fez Sofia parar.

Dominic colocou a pasta sobre um móvel e se aproximou devagar.

"Estou, pequena."

"No sonho você bebia."

Ele olhou para Sofia. Ela assentiu, sem conseguir falar.

Dominic ofereceu a mão à menina.

"Quer conferir?"

Lily segurou dois dedos dele. Ficou assim por alguns segundos.

"Tá quentinho."

"É porque acabei de tomar café."

"Mamãe diz que café de noite dá problema."

"Sua mãe provavelmente está certa."

Sofia soltou o ar pelo nariz.

"Ela costuma estar, quando não está conversando às duas da manhã com uma criança que deveria estar dormindo."

Ele abriu mais a porta.

"Entrem. Peço o leite."

O escritório tinha uma poltrona funda, um sofá e prateleiras de livros que Sofia limpava havia anos. Nunca se sentara ali.

Dominic afastou uma pilha de documentos antes que ela chegasse ao sofá. Deixou o telefone longe da menina e pediu leite e torradas pelo interfone.

Lily examinou uma fotografia sobre a mesa.

"Esse é você pequeno?"

"Sou."

"Você já era bravo?"

Sofia levou a mão à boca.

Dominic olhou para a foto: dois meninos diante de uma cerca, um mais alto, com o braço sobre os ombros do menor.

"Eu achava que era muito importante."

"E era?"

"Minha mãe dizia que eu só precisava lavar as mãos antes de comer."

Lily pareceu considerar aquilo uma boa resposta.

Quando a bandeja chegou, o leite já vinha numa caneca simples, sem o pires de porcelana usado pelos hóspedes. Dominic testou a temperatura na lateral e entregou a Sofia.

A filha bebeu três goles e se acomodou contra ela.

"Você não precisa fazer plantão aqui", Sofia disse.

"Já estava acordado."

"Por causa do seu irmão?"

Ele passou o polegar pela cicatriz junto ao indicador.

"Em parte."

Sofia esperou.

"Passei muitos anos acreditando que proteger uma família era manter as pessoas obedientes e as portas fechadas. Descobrir que a ameaça estava sentada na minha frente não ajuda a dormir."

Ela olhou para a menina, que já piscava devagar.

"Eu costumava achar que, se trabalhasse o suficiente, nunca ia faltar nada para ela. Ainda assim, tem noites em que faço contas até amanhecer. A gente inventa uma regra para não sentir medo. Nem sempre funciona."

Dominic a observou por um instante.

"O pai dela ajuda?"

"Foi embora antes de ela nascer. Sei onde mora, mas não conto com ele para nada."

"Sinto muito."

"Eu também senti. Hoje sinto mais cansaço do que saudade."

Ele não disse que resolveria aquilo. Sofia agradeceu em silêncio.

Lily estendeu o urso na direção dele.

"Segura o Bento. Eu tô segurando a mamãe."

Dominic recebeu a pelúcia.

Dez minutos depois, a menina dormia com a boca aberta sobre o peito de Sofia. O urso continuava no colo do homem mais temido da cidade.

Sofia estava tão cansada que acabou encostando a cabeça no sofá.

Acordou quando uma manta tocou seus pés.

Dominic se afastou imediatamente.

"Desculpe. Não queria acordar você."

Ela olhou para o relógio. Quarenta minutos tinham passado.

"Eu devia voltar para o quarto."

Ele pegou a bandeja e abriu caminho.

Na porta, Sofia se virou.

"O Bento pode passar a noite aqui. Se você achar que ajuda."

Só percebeu que abandonara o tratamento formal depois de dizer.

Dominic segurou o urso pela pata.

"Acho que ajuda."

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