"Minha Filha Salvou o Homem Mais Temido da Cidade" Capítulo 3
A proposta do irmão
Sofia dormiu com a chave debaixo do travesseiro e a mão sobre as costas de Lily.
Às seis da manhã, a filha acordou perguntando se a mamãe tinha perdido o emprego.
"Quem disse isso?"
"Você ficou com a voz de quando o dinheiro acabou."
Sofia a abraçou, encostando o nariz no cabelo amassado.
"Meu trabalho não é problema seu, meu amor."
"Mas eu posso comer pouco."
A frase doeu mais do que a noite inteira.
Sofia segurou as duas bochechas da filha.
"Você não precisa comer pouco para cuidar de mim. Eu cuido de você."
Lily assentiu sem parecer inteiramente convencida.
No café da manhã, Dominic apareceu com uma tigela de morangos e encontrou a menina tentando passar manteiga numa torrada grande demais.
"Posso ajudar?"
"Só se você não quebrar."
Ele aceitou a faca sem ponta.
Sofia observou suas mãos. Tinham pequenas cicatrizes, veias marcadas e um anel que lembrava o do homem que tentara matá-lo. Mesmo assim, ele passou manteiga até os cantos, obedecendo às instruções de uma criança descalça.
"Seu emprego continua sendo seu", disse a Sofia, quando Lily começou a comer. "Rosa comentou que você estava preocupada."
Ela não gostou de sentir alívio tão depressa.
"Eu não quero pagamento pelo que ela fez."
"Não estou oferecendo. Você continua empregada porque não fez nada para ser demitida."
"E o seu irmão?"
A faca parou sobre o prato.
"Está na ala leste com dois homens na porta. Esta manhã será levado para outra propriedade. Preciso descobrir quem o ajudou antes de decidir os próximos passos."
Sofia olhou para Lily. Dominic acompanhou o movimento.
"Não vamos conversar sobre isso aqui", acrescentou.
Ela agradeceu com um gesto curto.
Perto das dez, Marco a acompanhou até a copa. Sofia precisava ligar para sua vizinha e cancelar a entrega de uma compra. Queria fazer alguma coisa comum: conferir leite, falar do tempo, lembrar que existia uma rua além dos portões.
Na volta, encontraram Enzo, o assistente pessoal de Alessandro, com um molho de chaves na mão.
Marco parou imediatamente.
"Você não deveria estar aqui."
"Vim devolver as chaves do carro. Pediram na garagem."
Sofia não conhecia todos os funcionários, mas se lembrava dele levando malas e flores para a ala leste. Marco o conduziu ao escritório de segurança e chamou outro homem para acompanhar Sofia.
Naquele instante, uma funcionária avisou que Dominic queria falar com ela na pequena biblioteca, ao lado do jardim de inverno.
Sofia perguntou por Lily.
"Está com a Rosa. O senhor Marco pediu que ninguém a tirasse de lá."
Aquilo a tranquilizou o bastante para que seguisse pelo corredor.
Foi só quando entrou na biblioteca que percebeu o erro.
Alessandro estava junto à janela.
Sem o paletó cinza, parecia menos formal. Não parecia menos perigoso.
Sofia recuou um passo.
"Onde está o senhor Moretti?"
"Meu irmão já vem. Feche a porta, por favor."
Ela não fechou.
"Prefiro esperar lá fora."
"Sofia, eu só quero conversar."
Ele tirou um envelope do bolso e o colocou na mesa.
"Você tem uma menina pequena. Deve ser cansativo fazer tanta coisa sozinha."
Sofia sentiu um zumbido nos ouvidos.
"Não fale da minha filha."
"É justamente por ela que estou tentando evitar uma tragédia. Crianças confundem gestos. Adultos precisam corrigir essas confusões antes que alguém se machuque."
Ele empurrou o envelope em sua direção.
Sofia não tocou.
"Eu não vi o que aconteceu à mesa. Não posso dizer o contrário do que ela viu."
Alessandro perdeu o sorriso.
"Pode dizer que ela estava cansada. Que inventa histórias. Você é a mãe. Acreditam em você."
A mão de Sofia encontrou a maçaneta atrás do corpo.
"Saia da minha frente."
Ele deu um passo na direção dela.
"Escute com atenção. Meu irmão pode se entediar com uma empregada corajosa amanhã. Eu vou continuar aqui. Você quer mesmo apostar o futuro da sua filha na gratidão dele?"
A porta se moveu contra sua mão. Sofia tentou abri-la mais, mas Alessandro a segurou pela borda.
"Diga que sua filha mentiu. Eu resolvo o resto."
Do corredor veio o som de passos.
Sofia viu uma sombra parar sobre o piso, além da fresta da porta.
E Alessandro, perto demais, ainda esperava sua resposta.
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