"Minha Filha Salvou o Homem Mais Temido da Cidade" Capítulo 1
A mão na manga
"Não beba isso, senhor! Eu vi um homem colocando uma coisa na sua taça."
Sofia ouviu a voz da filha quando atravessava a porta de serviço com uma garrafa vazia na mão.
Do outro lado do salão, Lily estava agarrada à manga de Dominic Moretti.
A taça dele já tinha encostado no lábio.
Sofia parou tão depressa que o garçom atrás dela quase bateu em suas costas. Havia deixado a menina na copa, desenhando com Rosa, a cozinheira. Cinco minutos. Só precisava de cinco minutos para terminar o serviço.
Agora sua filha de três anos estava ao lado do homem de quem até os seguranças falavam baixo.
Dominic afastou a taça da boca.
Ninguém à mesa disse nada. O violinista ainda tocou algumas notas antes de interromper a música.
Lily apertava o urso de pelúcia contra a barriga. Usava um vestido azul de algodão, meias brancas e um dos sapatos com a fivela torta. Sofia enxergou aquilo com uma nitidez absurda: tinha esquecido de ajustar a fivela.
Deixou a garrafa na bandeja mais próxima e foi buscar a filha.
Antes que chegasse, Dominic colocou a taça na mesa e se abaixou ao lado da cadeira.
"Que coisa você viu?"
Não falou com raiva. Isso assustou Sofia ainda mais. Naquela casa, os homens perigosos quase nunca precisavam levantar a voz.
"Era de um vidrinho."
Lily aproximou o polegar do indicador.
"Pequeno assim."
"Onde você estava?"
"Ali. O urso caiu atrás da cortina."
Sofia olhou para a passagem de serviço junto à janela. A cortina tocava o chão, a poucos passos da copa. Lily devia ter escapado enquanto Rosa conferia o forno.
"E você viu a minha taça?", ele perguntou.
A menina assentiu.
"Tava bem aqui. Você olhava a moça cantando."
Dominic levantou os olhos para Marco, o chefe da segurança. Marco se aproximou da mesa sem tocar no vinho.
Sofia alcançou a filha e se ajoelhou, prendendo-a contra o próprio corpo.
"Senhor Moretti, me desculpe. Ela estava comigo porque a pessoa que fica com ela se machucou hoje. Eu tive autorização para trazê-la, mas ela não devia ter saído da copa."
Lily tentou se virar.
"Mamãe, eu vi."
"Eu sei, meu amor."
Sofia não sabia coisa nenhuma. Sabia apenas que Alessandro Moretti estava sentado em frente ao irmão, sorrindo, e que a mão dele tinha parado sobre a haste da taça.
"Sofia."
Ela ergueu o rosto.
Dominic sabia seu nome. Depois de quatro anos limpando quartos e servindo refeições naquela casa, ainda era estranho ouvi-lo dizer aquilo.
"Sua filha não está encrencada. Quero ouvir o que ela tem para contar."
Lily relaxou um pouco nos braços da mãe.
"Você consegue me mostrar quem estava perto da taça?", ele perguntou.
A menina virou a cabeça e apontou.
"Aquele moço. O do paletó cinza."
Alessandro soltou uma risada curta.
"Dominic, pelo amor de Deus. Eu estava ajeitando as flores. Devia estar atrapalhando a visão dela."
Sofia olhou para o arranjo. As rosas eram baixas para os adultos sentados. Para uma criança escondida junto ao chão, a toalha impediria a visão das mãos, mas não de alguém inclinado sobre a ponta da mesa, perto da cortina.
Dominic não respondeu ao irmão.
"O que ele fez depois, Lily?"
"Guardou aqui."
Ela bateu no próprio peito, sobre o lugar onde ficaria o bolso interno de um paletó.
"E você conhece esse moço?"
"Não. Mas ele tem o anel vermelho também."
Sofia viu Alessandro baixar a mão esquerda para o colo.
O anel de família dele tinha a mesma pedra escura que o do irmão.
"É suficiente", Alessandro disse, apoiando o guardanapo na mesa. "Você está constrangendo a funcionária. Sofia, leve sua menina para comer alguma coisa. Criança cansada mistura o que vê."
Ele sabia o nome dela também.
Na boca dele, porém, o nome pareceu uma advertência.
Lily encolheu os ombros.
"Eu não misturei."
Sofia passou a mão nas costas da filha. A pele entre suas próprias escápulas parecia gelada.
Dominic se levantou.
"Marco, guarde a taça. Ninguém toca nela."
O sorriso de Alessandro diminuiu.
"Você não vai levar isso a sério."
"Vou verificar."
"A palavra de uma criança contra a minha?"
Dominic olhou para Sofia.
"Ela tocou no vinho?"
"Lily? Você encostou na taça?"
"Só no casaco dele, mamãe."
Sofia puxou o ar. Não percebera que estava prendendo a respiração.
"Leve as duas para a sala de café", Dominic disse a Marco. "Fique na porta até eu chegar."
Sofia se ergueu com Lily no colo. A menina tinha crescido nos últimos meses, e suas costas protestaram, mas ela apertou mais os braços.
Alessandro afastou a cadeira.
"Se vamos estragar o jantar, eu prefiro ir embora."
Dois seguranças se moveram junto à saída.
Dominic nem precisou olhar para eles.
"Você vai ficar."
Sofia já estava perto da porta quando Lily se inclinou em seu ombro.
"Ele vai brigar comigo?"
Não soube responder antes que Dominic falasse, atrás delas:
"Não, pequena. E ninguém vai brigar com a sua mãe por sua causa."
Pela primeira vez naquela noite, Sofia olhou para ele sem procurar o chão logo em seguida.
Dominic continuava ao lado da cadeira. O vinho intocado estava diante dele.
E o irmão já não sorria.
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