"Minha Filha de Três Anos Decidiu Cuidar do Homem Mais Temido da Cidade" Capítulo 9

O convite era para mim

Durante duas semanas, Alessandro não voltou a falar do jantar.

Eu poderia ter perguntado. Em vez disso, conferia o cabelo no reflexo da janela antes de levar seu café e depois ficava furiosa comigo mesma.

Lia não percebeu nada. Estava ocupada ensinando Daniel, por videochamada, a fazer um cobertor para o coelho com um guardanapo.

Na terceira segunda-feira, Dona Lúcia me entregou informações sobre um programa de apoio aos estudos oferecido pela fundação.

Eu estava preenchendo uma inscrição para o semestre seguinte. O valor da mensalidade já havia sido riscado e recalculado tantas vezes no meu caderno que a folha começara a rasgar.

"O Alessandro pediu que lhe mostrasse", ela explicou. "A filha da cozinheira participou no ano passado."

Li os critérios. Funcionários da casa também podiam se candidatar. Havia prazos, análise da documentação e uma equipe responsável pelas bolsas.

Mesmo assim, fui ao escritório com o papel na mão.

Alessandro olhou para meu rosto e deixou a caneta.

"O que aconteceu?"

"Você pediu que me entregassem isto?"

"Pedi. Você falou da faculdade. Lembrei que o programa existia."

"E eu preciso aceitar?"

Ele franziu a testa.

"Por que precisaria?"

Olhei para a folha, envergonhada antes mesmo de explicar.

"Porque você tem sido bom com a Lia. Porque me deixou trazê-la, porque me convidou para almoçar. Eu não quero começar a olhar para cada coisa e tentar descobrir quanto vou ficar devendo."

Ele se manteve em silêncio até eu levantar os olhos.

"Você acredita que estou cobrando alguma coisa?"

"Não sei mais o que você quer de mim."

A resposta pareceu surpreendê-lo. Depois vi o momento em que entendeu.

Alessandro apoiou as mãos nos braços da cadeira.

"Quero jantar com você. Não consegui decidir como convidá-la sem fazer você se sentir obrigada a dizer sim. Então esperei. Pelo visto, não fui muito eficiente."

Fiquei olhando para ele.

"Eu pensei que tivesse desistido."

"Depois de você me chamar de bonito? Helena, passei três dias me lembrando disso. Não estava perto de desistir."

Uma risada nervosa escapou. Apertei o papel, depois o alisei.

"Eu não costumo fazer isso com o meu patrão."

"Espero que não. Ficaria preocupado com quantos convites você recebe."

Eu ri de novo, dessa vez sem conseguir esconder.

Ele esperou que eu o olhasse.

"A bolsa tem um processo próprio. Você pode se candidatar, recusar ou rasgar esse papel, embora eu prefira que pense antes de rasgar. O jantar é outra pergunta."

"Então faça."

Seu rosto mudou. Foi uma mudança pequena, mas suficiente para acelerar meu coração.

"Você quer jantar comigo no sábado?"

"Quero. Preciso organizar alguém para ficar com Lia."

"Podemos escolher outro dia."

"Eu não disse que sábado era ruim. Só disse que preciso me organizar."

Alessandro sorriu.

"Está bem. Vou tentar não atrapalhar enquanto você faz isso."

Dona Lúcia se ofereceu para ficar com Lia assim que soube. Eu ainda tentei explicar que não era parte de seu trabalho. Ela me mostrou uma caixa de massinha que comprara para usar com a menina e perguntou se eu pretendia arruinar os planos das duas.

No sábado, levei minha filha já alimentada, de pijama e com instruções demais na bolsa. Alessandro nos esperava na entrada. Trocara a camisa escura por uma branca, com as mangas dobradas e o primeiro botão aberto.

Eu tinha vinte e oito anos e me senti uma adolescente ao perceber que também estava sendo observada.

"Você está linda", ele disse.

"A mamãe trocou de vestido", Lia contou. "Duas vezes."

"Obrigada pela informação, meu amor."

Alessandro pressionou os lábios para não rir.

"Eu achei que esta camisa me deixava com cara de reunião", confessou à minha filha. "Troquei de ideia quando não encontrei outra passada."

Lia examinou o tecido.

"Essa serve."

Fomos a um restaurante que ele conhecia. O funcionário o cumprimentou pelo nome, afastou uma cadeira da mesa e nos deixou escolher a posição. Observei Alessandro conduzir a própria cadeira pelo salão sem a pressa defensiva que eu vira tantas vezes na casa.

"Faz tempo que não vem?", perguntei.

"Mais do que gostaria."

Ele tocou a borda do cardápio.

"Depois da emboscada, eu inventava um motivo para adiar quase tudo que não fosse indispensável. Aos poucos, parei de precisar inventar. Ninguém mais convidava."

Dona Lúcia já me contara do ataque, dois anos antes de eu chegar. Do ferimento na coluna, da reabilitação e da maneira como ele transformara a casa num lugar onde sempre havia trabalho para justificar ficar.

"Você sentiu falta de sair?"

"Senti. E odiava perceber."

O garçom veio anotar o pedido. Quando saiu, Alessandro me perguntou qual fora meu último jantar sem uma criança pedindo meu prato.

Não consegui lembrar.

Falamos de Lia, depois de outras coisas. Contei do curso que abandonara, dos cadernos que ainda guardava, da mania de conferir troco até quando isso atrasava a fila. Ele confessou que não sabia cozinhar nada além de ovos e que já discutira com Sofia porque ela insistia em dirigir seu carro comendo pão de queijo.

"Ela deixava farelos?"

"Em lugares que eu nem sabia que existiam."

"Você deixou minha filha fazer isso numa poltrona de couro."

"Sua filha entrou com uma estratégia melhor."

Na volta, encontrei Lia dormindo no quarto de hóspedes, com o coelho debaixo do queixo. Beijei sua testa antes de voltar à varanda.

Alessandro estava junto à mesa onde havíamos conversado no domingo. A luz amarela tocava o lado de seu rosto.

"Gostou?", perguntou.

"Muito."

Ele estendeu a mão, e eu a segurei.

"Eu fico esperando você chegar", disse. "Mesmo quando sei que não vai trazer Lia. Às vezes, principalmente porque sei que teremos alguns minutos para conversar."

Aproximei minha cadeira. O joelho tocou de leve a lateral da dele.

"Eu ensaio coisas no ônibus para dizer a você. Depois chego aqui e pergunto se quer café."

Ele sorriu, mas seus olhos permaneceram sérios.

"Pode começar por uma delas."

Toquei seu rosto. Senti a barba curta contra a palma, o calor da pele. Inclinei-me, e ele veio ao meu encontro.

O beijo começou devagar. Quando sua mão encontrou minha cintura, parei de pensar na frase certa. Beijei-o outra vez, com a confiança que ainda não tivera para falar.

Ele encostou a testa na minha.

"Acho que essa foi bastante clara."

Eu ri contra sua boca.

"Eu também achei."

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