"Minha Filha de Três Anos Decidiu Cuidar do Homem Mais Temido da Cidade" Capítulo 8
O lugar à mesa
Miguel Castro chegou no domingo com uma torta de maçã e um filho que parecia pronto para impedir uma guerra usando o próprio corpo.
"Você trouxe sobremesa?", Alessandro perguntou na entrada.
Miguel olhou para a caixa.
"Não achei prudente aparecer de mãos vazias."
"Você já apareceu de mãos vazias antes."
Daniel fechou os olhos.
Miguel respirou fundo.
"Eu também já apareci com ferramentas para consertar a torneira da sua irmã. Você reclamou que eu estava riscando o piso."
Alessandro o encarou por um momento. Depois se afastou da passagem.
"A torneira ficou boa."
Miguel entrou.
Na sala de jantar, puxei minha cadeira ao lado de Lia. Eu estava de vestido, sem avental, e ainda assim me levantei quando percebi que faltava um copo.
Dona Lúcia colocou a mão no meu ombro.
"Hoje você é visita. Sente-se antes que eu precise mandar."
Lia concordou imediatamente.
"Você tem que obedecer, mamãe."
Sentei sob o olhar divertido de Alessandro.
O almoço começou ao som de talheres. Luca elogiou o frango duas vezes. Daniel perguntou se a torta podia ficar fora da geladeira. Miguel respondeu a ele, evitando olhar para a cabeceira.
Lia resolveu a parte de conhecer o visitante.
"Você é o pai do Dani?"
"Sou."
"Por que você não veio brincar antes?"
"Lia", comecei.
Miguel levantou a mão, pedindo que eu o deixasse responder.
"Porque eu e o seu amigo ficamos brigados durante muito tempo."
Ela olhou para Alessandro.
"Você não pediu desculpa?"
O silêncio se estendeu. Minha vontade foi distrair minha filha com qualquer coisa sobre o prato.
Alessandro pousou o garfo.
"Ainda não pedi direito."
Miguel ficou olhando para ele.
"Eu devia ter ido ver Daniel", Alessandro disse. "Mesmo quando você não queria me receber. Devia ter procurado outro jeito."
"Eu não facilitei."
"Não. Mas ele não tinha culpa."
Daniel apertou a boca. Luca baixou os olhos para o prato.
Miguel apoiou os antebraços na mesa.
"Quando Sofia morreu, eu não aguentava entrar aqui. Tudo me lembrava dela. E você perguntava o que eu tinha feito, onde eu estava, por que não tinha procurado outro médico. Eu já me fazia essas perguntas. Não conseguia ouvir de você."
Eu segurei a mão de Lia antes que alcançasse a travessa quente. Ela se encostou em mim, distraída com a comida.
Alessandro levou algum tempo para responder.
"Eu quis encontrar alguma coisa que alguém pudesse ter feito diferente. Acabei tratando você como se tivesse escolhido perdê-la. Sinto muito."
Miguel passou os dedos pelos olhos.
"Eu deixei Daniel acreditar que vir aqui seria uma traição a mim. Não falei isso com essas palavras. Não precisava."
O rapaz ergueu a cabeça.
"Eu só queria conhecer vocês."
Miguel olhou para o filho.
"Eu sei. Devia ter percebido antes."
Lia puxou meu dedo.
"Agora eles vão comer?"
Uma risada curta escapou de Daniel. Miguel pegou o garfo. Alessandro olhou para o próprio prato, como se o encontrasse pela primeira vez.
"Vamos", ele respondeu.
Não foi um almoço fácil depois disso. Houve perguntas desajeitadas e intervalos longos. Mas Miguel contou que Daniel queria estudar arquitetura. Alessandro perguntou sobre os desenhos, e dessa vez esperou a resposta até o fim.
Depois da sobremesa, os dois foram à sala de música. Daniel havia levado a caixa com as fotografias. Quando voltaram, quase uma hora depois, Miguel segurava a pulseira de contas azuis.
Não perguntei o que tinham dito.
Na despedida, ele aceitou o convite para voltar quando Daniel viesse novamente. Alessandro não tentou marcar o calendário inteiro.
Luca levou Lia para procurar o coelho, que fora esquecido num sofá. Fiquei na varanda ao lado de Alessandro, vendo o carro de Miguel desaparecer pela alameda.
"Você está bem?", perguntei.
"Ainda não sei."
"Quer que eu espere para perguntar de novo?"
Ele virou o rosto para mim.
"Quero que fique um pouco."
Sentei na cadeira ao lado. Nossos braços ficaram próximos, sem se tocar.
"Foi a primeira vez que almocei aqui sem contar quantos minutos faltavam para voltar ao trabalho", falei.
"E como foi?"
"Eu teria escolhido uma estreia com menos gente chorando. Mas gostei da sobremesa."
Ele riu e esfregou a testa.
"Eu também."
O vento trouxe o cheiro de terra molhada. Lá dentro, Lia explicava a Luca que coelhos não podiam ficar sozinhos no escuro. Ele prometia fazer uma busca imediata.
Alessandro olhou para a porta, depois para mim.
"Naquele dia, você disse que queria voltar a estudar. O que gostaria de fazer?"
"Ciências Contábeis. Ou começar por uma formação que me permita trabalhar na área enquanto estudo."
Ele olhou para mim com um espanto tão franco que comecei a rir.
"Depois do que aconteceu aqui?", perguntou.
"Eu gostava de números antes de conhecer os seus problemas."
"Justo."
"Gosto de entender o que estou olhando. De conferir uma coisa e saber por que não fecha. Parece pouco quando digo em voz alta."
"Não parece pouco."
Olhei para suas mãos. Uma pequena cicatriz atravessava o indicador. Eu sabia agora como aqueles dedos seguravam um biscoito, construíam uma torre e hesitavam sobre um telefone.
"E você?", perguntei. "O que quer fazer quando isso tudo estiver menos difícil?"
Ele acompanhou meu olhar até a própria mão.
"Tenho pensado em sair para jantar."
Meu rosto esquentou.
"Parece um bom começo."
Alessandro sorriu devagar.
"Também acho."
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