"Minha Filha de Três Anos Decidiu Cuidar do Homem Mais Temido da Cidade" Capítulo 7

A letra de Sofia

Na segunda-feira, Alessandro me chamou de Helena assim que entrei, sem levantar os olhos dos papéis.

"Bom dia", respondi, colocando a bandeja na mesa.

Ele ergueu o rosto.

"Bom dia. Eu estava esperando você."

Demorei um segundo para lembrar que trazia o café. Pela maneira como ele olhou para minhas mãos, suspeitei que a confusão não fosse apenas minha.

Daniel apareceu na porta antes que eu precisasse decidir o que dizer.

"Posso mostrar uma coisa?"

Trazia uma caixa de sapatos, com a tampa presa por um elástico. Alessandro afastou o trabalho.

"Claro."

Eu apanhei a bandeja vazia, mas Daniel me pediu que ficasse.

"Talvez você possa levar as fotografias à Dona Lúcia depois. Ela disse que queria ver."

Dentro da caixa havia fotos, um ingresso antigo de cinema e uma pulseira de contas azuis. Daniel pegou a pulseira primeiro.

"Meu pai guardou as coisas que estavam no apartamento. Quando contei que vinha para cá, ele disse que eu podia trazer. Eu lembrava dessa. Minha mãe deixava eu puxar as bolinhas."

Alessandro estendeu a mão. Daniel colocou a pulseira em sua palma.

"Ela comprou numa feira. Disse que tinha encontrado uma joia rara. Miguel perguntou se a joia vinha com garantia contra tinta descascada."

Daniel sorriu.

"Isso parece o meu pai."

Alessandro passou o polegar por uma conta que perdera a cor.

"Era uma briga boa. Dessas que as pessoas procuram um jeito de começar só para continuar conversando."

Daniel baixou a cabeça para a caixa.

"Tem um envelope com o seu nome. Não abri."

Alessandro demorou a devolver a pulseira. Quando recebeu o envelope, olhou a letra antes de abrir.

Puxei uma cadeira para perto da mesa. Ele se moveu um pouco na minha direção, deixando o papel entre nós.

A carta começava com uma reclamação sobre três telefonemas não atendidos. Sofia queria saber se o irmão havia esquecido como funcionava o telefone ou apenas se considerava importante demais para atender à irmã.

Alessandro soltou uma risada sem som.

"Ela estava furiosa comigo."

Daniel se sentou do outro lado.

"Pode ler?"

Ele leu em voz alta.

Sofia falava de um recital da escola, de Daniel insistindo em dormir com um carrinho na mão, de Miguel fazendo panquecas no jantar porque esquecera de comprar arroz. Escrevera antes de uma cirurgia, convencida de que, durante a recuperação, precisaria organizar todos à distância.

Na metade da segunda página, a voz de Alessandro ficou rouca.

"Você e Miguel não precisam concordar sobre tudo. Mas meu filho precisa saber que o tio existe fora das fotografias. Não deixe que as brigas dos adultos decidam quem fica perto dele."

Daniel parou de mexer no elástico.

O restante não trazia despedida solene. Sofia queria sua partitura de volta. Perguntava se o irmão poderia buscar Daniel na escola numa sexta-feira. Dizia que tinha separado um pedaço de bolo, mas que não garantiria a sobrevivência dele por muito tempo.

A última frase fora escrita na margem.

"Você pode ficar decepcionado com a gente e continuar aparecendo, Sandro. Eu também faço isso com você."

Ele terminou sem olhar para ninguém.

Daniel esfregou o rosto com a manga.

"Meu pai disse que achou que tinha mandado tudo o que era seu. Esse envelope estava no meio dos papéis dela."

Alessandro dobrou a carta pelas marcas antigas.

"Eu devolvi algumas coisas que ele mandou. Nem quis abrir. Ele pode ter pensado que eu devolveria isso também."

O rapaz ergueu os olhos.

"Por quê?"

Alessandro respirou fundo.

"Porque eu estava com raiva. E porque, durante muito tempo, preferi estar com raiva a sentir falta dela sem ter alguém para culpar."

Não era uma explicação que tornava onze anos aceitáveis. Pelo rosto dele, sabia disso.

"Eu não fui embora de propósito", Daniel disse.

Alessandro se inclinou para a frente.

"Eu sei. Você era uma criança. Eu deveria ter encontrado um jeito de estar na sua vida sem obrigar seu pai a concordar comigo sobre tudo."

Daniel assentiu olhando para o chão.

"Quero que você saiba uma coisa", Alessandro continuou. "Não precisa escolher entre gostar dele e vir aqui. Eu não vou pedir isso."

O rapaz respirou como se tivesse segurado o ar desde que entrara.

Depois, levou as fotografias à cozinha. Fiquei recolhendo as xícaras, devagar, até Alessandro falar.

"Você está esperando para saber se vou ligar?"

"Estou esperando para saber se quer ficar sozinho."

Ele olhou para o telefone sobre a mesa.

"Não quero. Mas talvez precise ficar alguns minutos."

Toquei seu ombro antes de pensar. Sob a camisa, o músculo se contraiu. Eu já retirava a mão quando ele a cobriu com a sua.

Não apertou. Apenas a manteve ali durante uma respiração.

"Obrigado por perguntar."

Saí e fechei a porta sem encostá-la completamente.

Mais tarde, ele me encontrou no corredor.

"Falei com o Miguel."

"Como foi?"

"Ele me disse que onze anos não cabem numa ligação."

Pousei a pilha de lençóis sobre o aparador.

"E o que você respondeu?"

"Que ele podia vir no domingo."

Alessandro olhou para a minha mão apoiada nos lençóis.

"Você estará aqui?"

"Domingo é minha folga."

Ele se endireitou na cadeira.

"Eu sei. Estou convidando você e Lia para almoçar. Não para trabalhar."

Meu coração deu um salto que não combinava com uma pilha de roupa de cama.

"Então estaremos."

PUBLICIDADE

você pode gostar

Compartilhar Link

Copie o link abaixo para compartilhar com seus amigos: