"Minha Filha de Três Anos Decidiu Cuidar do Homem Mais Temido da Cidade" Capítulo 6

A torre torta

Clara voltou à casa na terça-feira seguinte, para buscar os últimos pertences e conversar com Alessandro.

Eu a encontrei na entrada. Ela parecia preparada para se defender outra vez.

"Ele está esperando na biblioteca", expliquei.

Quando passei por lá mais tarde, a porta estava aberta.

"Eu deveria ter ouvido sua explicação antes de permitir que saísse daquele jeito", Alessandro dizia. "A orientação foi adulterada. Sua conduta será avaliada a partir dos fatos, não de uma suspeita minha."

Continuei andando. Aquela conversa pertencia aos dois.

Clara me contou depois que não voltaria ao posto. Recebera uma proposta de uma clínica de reabilitação e queria começar de novo. Aceitara o pedido de desculpas; não precisava aceitar o emprego.

Alessandro enviou flores no primeiro dia dela na clínica. Dona Lúcia descobriu porque foi incumbida de conferir o endereço.

"Ele pediu discrição", ela me disse, antes de contar a novidade também à cozinheira.

Naquela semana, Lia construiu uma torre no tapete da biblioteca. Alessandro e eu tomávamos café quando os blocos caíram sobre o sapato dele.

Minha filha olhou para a destruição e depois para suas mãos.

"Ela caiu sozinha."

"A base estava estreita", ele respondeu.

"Você pode fazer uma grande?"

Ele olhou para o tapete. Eu percebi o cálculo antes da resposta: a distância, a altura, o esforço de se transferir apenas para alcançar meia dúzia de peças.

Lia não esperou. Recolheu os blocos na barra do vestido e começou a colocá-los sobre a mesa baixa ao lado dele.

"Aqui dá."

Alessandro afastou a xícara.

"Aqui dá", concordou.

Ela lhe entregou as peças, uma de cada vez, corrigindo as cores. Ele queria uma base firme. Ela queria o amarelo em cima porque era onde morava o coelho.

"Coelhos não moram em torres", ele argumentou.

"Esse mora."

"Ele está sujeito a regras de construção?"

Lia colocou o animal de pano sobre as próprias pernas.

"Ele é meu."

Alessandro olhou para mim, como se esperasse uma decisão judicial.

"Acho que isso encerra a discussão", respondi.

Ele construiu o último andar amarelo.

Quando a torre ficou pronta, Lia bateu palmas.

"Você é bom nisso."

A mão dele permaneceu sobre o último bloco por um instante a mais.

"Obrigado."

Ela encostou o coelho no braço dele, oferecendo-lhe a honra de guardar o morador. Alessandro acomodou o brinquedo no colo com uma seriedade que me fez morder a parte interna da bochecha.

Daniel voltou naquele sábado. Com autorização do pai, ficaria até segunda-feira. Lia o adotou antes que ele terminasse de tirar a mochila.

"Você sabe fazer avião?"

"De papel?"

Ela pensou.

"Pode ser."

No fim da tarde, havia aviões no corredor e uma risada masculina que eu ainda não conhecia. Era de Alessandro, que acabara de receber um deles no ombro.

Dona Lúcia levou as crianças para buscar suco. Daniel protestou por ter sido incluído entre elas, mas foi.

Fiquei na varanda com Alessandro. Era meu horário de saída; minha bolsa estava aos meus pés. Eu ainda não a pegara.

"Você sempre quis trabalhar em casas?", ele perguntou.

"Eu sempre quis pagar minhas contas. Os empregos foram aparecendo dentro dessa necessidade."

"E antes dela?"

"Eu gostava de estudar. Comecei um curso, parei, prometi voltar. Depois veio Lia."

"O pai dela ajuda?"

Observei o jardim antes de responder.

"Às vezes. Ela ainda não sabe que às vezes é uma palavra pequena para uma responsabilidade grande."

Ele apoiou a mão no braço da cadeira.

"Foi por isso que ficou tão assustada no primeiro dia?"

"Fiquei assustada porque minha filha sumiu. Depois porque a encontrei no único lugar onde disseram que eu não podia entrar. Eu achei que fosse sair daqui com ela no colo e sem emprego."

"Entendo."

"O senhor chegou a pensar em me mandar embora?"

Ele me encarou. Havia humor nos olhos, mas também uma hesitação que não esperava.

"Por alguns segundos. Até perceber que você estava mais assustada do que eu estava irritado."

"Que alívio saber que venci uma competição de desespero."

Alessandro riu. Baixo, sem esconder o rosto.

"Você fica diferente quando ri", falei.

O riso diminuiu, mas ele continuou olhando para mim.

"Diferente como?"

Senti calor no pescoço. Eu podia ter dito menos severo. Mais acessível. Qualquer resposta que coubesse entre patrão e funcionária.

"Mais bonito."

A palavra saiu inteira. Não havia como recolhê-la.

Ele baixou os olhos por um instante e voltou a me encarar.

"Vou precisar encontrar motivos para rir com mais frequência."

Peguei a bolsa depressa demais.

"Já passou da minha hora."

Ele olhou para a bolsa e depois para a porta.

"Eu não deveria ter feito você se sentir constrangida."

"O senhor não fez. Eu é que falei antes de pensar."

"Precisa pensar tanto para falar comigo?"

A pergunta me fez parar.

"Ainda preciso."

Alessandro assentiu. Não tentou transformar minha resposta numa brincadeira.

"Então vou ter de aprender a esperar."

Lia voltou abraçada à perna de Daniel e anunciando que o avião deles precisava de passageiros. A conversa terminou ali.

No ônibus para casa, minha filha dormiu no meu colo. Eu mantive os olhos na janela, vendo meu reflexo sorrir toda vez que lembrava a voz dele.

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