"Minha Filha de Três Anos Decidiu Cuidar do Homem Mais Temido da Cidade" Capítulo 5

O homem de confiança

Daniel ficou para jantar. Ligou para o pai da varanda, com a porta aberta, e explicou onde estava. Ouvi apenas sua metade da conversa.

"Eu sei. Estou bem. Amanhã eu volto."

Alessandro permaneceu do outro lado da sala, sem pedir o telefone.

Na hora de se despedir, Daniel aceitou voltar no fim de semana seguinte. Luca o levou até o hotel onde passaria a noite, antes da viagem de volta para Curitiba.

Durante a semana, Otávio apareceu quase todos os dias. A cozinha recebeu novas orientações para encaminhar correspondências, e ninguém mais deixava uma pasta no escritório sem registrar quem a havia trazido.

Alessandro me contou que os documentos da fundação confirmavam a versão de Luca. A ajuda às despesas pessoais também fora comprovada. Quanto à medicação, a conferência havia seguido outro caminho.

"Vocês encontraram quem mudou a orientação?", perguntei.

"Encontramos os registros. Agora preciso ouvir o que ele vai dizer."

Não precisei perguntar o nome.

Dois dias depois, Otávio me procurou na copa. Alessandro queria que eu estivesse disponível para confirmar a data em que encontrara sua caneta no chão. O médico registrara aquela piora, e eles estavam organizando a sequência dos acontecimentos.

Lia ficou com Dona Lúcia no jardim, longe da ala oeste. Entreguei-lhe o chapéu e prometi voltar antes do lanche.

Paulo Azevedo chegou usando um paletó azul e trazendo uma pasta fina. Devia ter pouco mais de cinquenta anos. Cumprimentou Otávio, chamou Alessandro de Sandro e perguntou se a fisioterapia continuava dando resultado.

Não perguntou quem eu era.

Alessandro indicou a cadeira diante da mesa.

"Helena trabalha aqui. Foi ela que chamou Clara na sexta-feira em que Marcelo antecipou minha avaliação. Eu pedi que confirmasse quando isso aconteceu."

Respondi à pergunta de Otávio, usando a data da minha primeira semana de trabalho como referência. Ele já tinha os registros do médico e do chamado da enfermeira. Anotou minha resposta e agradeceu.

Levantei para sair.

"Pode ficar, se quiser", Alessandro disse. "Parte do que aconteceu atingiu a equipe da casa. Não vou pedir que finja que não aconteceu."

Voltei à cadeira perto da porta. Paulo me olhou pela primeira vez.

Otávio abriu a pasta.

"Precisamos falar do projeto de galpões de Cajamar."

Paulo pousou a própria pasta no colo.

"Os números estão sendo ajustados. Eu ia levar uma apresentação completa à próxima reunião."

"Você levou apresentações completas durante oito meses", Alessandro respondeu. "Nenhuma mostrava o tamanho da perda."

"Uma projeção não é uma perda consolidada. Você sabe como essas operações funcionam."

Otávio colocou algumas folhas sobre a mesa. Não entendi os lançamentos. Entendi a pausa de Paulo antes de pegá-las.

"As transferências entre essas contas não corrigiram o resultado", o advogado disse. "Só dificultaram que fosse visto. A equipe independente já começou a revisão."

Paulo leu a primeira página duas vezes.

"Eu estava tentando ganhar tempo para recuperar o projeto. Havia empregos envolvidos."

"Havia decisões que eram minhas também", Alessandro disse. "Você me deu informações falsas para que eu não pudesse tomá-las."

"Eu conheço essa empresa desde o seu pai. Nunca tirei um centavo para mim."

Alessandro não levantou a voz.

"Então por que precisou mexer no meu tratamento?"

Paulo deixou a folha escorregar de volta para a mesa.

"Não sei o que estão dizendo."

Otávio colocou outra cópia diante dele.

"Marcelo não emitiu essa orientação. A versão enviada à enfermeira passou pela sua administração. Temos o histórico dos arquivos e o encaminhamento. Luca confirmou que você lhe entregou o conjunto para autorização."

Paulo passou os dedos pela gravata.

"O Luca assina coisas que não lê. Isso não é novidade para ninguém."

"Não perguntei pelo Luca", Alessandro respondeu.

"A Clara devia ter confirmado com o médico."

"Não perguntei pela Clara."

A cadeira de Paulo rangeu quando ele se moveu. Olhei para a porta. Meu corpo queria que eu saísse; alguma coisa mais teimosa me manteve ali.

"Você mal dormia", Paulo disse. "Trabalhava até tarde, revia tudo de madrugada. Eu achei que algumas noites de descanso ajudariam."

Alessandro ficou imóvel.

"Ajudariam quem?"

Paulo abriu a boca, mas levou tempo para responder.

"Eu precisava fechar a renegociação antes de apresentar o resultado. Se você interrompesse tudo, não haveria como recuperar."

Alessandro olhou para a própria mão. Eu me lembrei da caneta caindo, da irritação dele quando ofereci ajuda. Da vergonha que pareceu sentir ao precisar aceitá-la.

"Eu pedi a Marcelo que revisse minha reabilitação", ele disse. "Achei que estivesse piorando. Passei semanas tentando entender por que não conseguia me concentrar. Você ouviu quando contei isso."

Paulo não o encarou.

"Eu não queria que chegasse a esse ponto."

"A que ponto você queria chegar?"

"Eu pretendia corrigir."

"Você fez uma escolha toda vez que teve a oportunidade de me contar e não contou."

Otávio recolheu os papéis.

"A partir de agora, qualquer esclarecimento será feito com os representantes responsáveis pela apuração. Seus acessos foram suspensos. A empresa e Alessandro vão encaminhar os fatos pelas vias cabíveis."

Paulo se levantou, ainda segurando a pasta que trouxera.

"Depois de todos esses anos, você vai me tratar assim?"

Alessandro ergueu os olhos.

"Depois de todos esses anos, eu ainda esperava ouvir você perguntar como eu estava."

Paulo saiu acompanhado de Otávio. Não bateu a porta. O clique da fechadura pareceu alto no silêncio que deixou.

Fiquei perto da cadeira, sem saber se minha presença ainda era desejada.

"Quer que eu vá buscar sua filha?", Alessandro perguntou.

Balancei a cabeça.

"Ela está brincando. Posso ficar um minuto?"

Ele assentiu.

Sentei de novo. Não falei que tudo ia passar. Não tinha como saber o tempo que levaria, nem o que ainda precisaria ser resolvido.

Depois de um momento, ele disse:

"Passei a semana pensando que, se fosse Luca, eu não saberia o que fazer. Agora sei que não foi ele. E continuo sem saber o que fazer com isso."

"Hoje o senhor já fez bastante coisa."

Ele olhou para mim.

"Você não tem uma explicação melhor?"

"Não tenho. Eu queria ter."

Alessandro fechou os olhos por alguns segundos. Quando tornou a abri-los, apontou para a xícara vazia ao lado da minha mão.

"Aceitaria um café comigo, Helena? Sem precisar servir e sair?"

Aceitei.

Pela primeira vez desde que começara a trabalhar ali, fui à cozinha buscar duas xícaras sabendo que uma delas era para mim.

PUBLICIDADE

você pode gostar

Compartilhar Link

Copie o link abaixo para compartilhar com seus amigos: