"Minha Filha de Três Anos Decidiu Cuidar do Homem Mais Temido da Cidade" Capítulo 4
Duas coisas escondidas
"A ajuda começou depois que meu pai perdeu o emprego", Daniel explicou, ainda com a mochila no ombro. "O Luca pagou parte do aluguel. Depois continuou mandando dinheiro para outras coisas. Foi do dinheiro dele."
Alessandro havia pedido que o trouxessem à biblioteca. Eu recolhia o café quando o rapaz entrou; ele me pediu um copo de água, e Alessandro fez um gesto para que eu ficasse.
Daniel olhou do tio para Otávio.
"Eu não vim pedir mais nada. Recebi um extrato de uma reserva para meus estudos e fiquei preocupado. O Luca parou de responder. Achei que tivesse acontecido alguma coisa."
Tirou da mochila um envelope dobrado. Dentro, havia correspondência da fundação da família.
"Por que não me procurou antes?", Alessandro perguntou.
"Porque eu tinha seis anos quando vocês pararam de se falar. E depois eu não sabia se você queria me ver."
O copo gelado deixou uma marca na mesa. Daniel tentou enxugá-la com a manga. Entreguei-lhe um guardanapo.
Ele agradeceu sem olhar para mim.
Na semana anterior, Dona Lúcia me mostrara uma fotografia de Sofia com um menino no colo. Contara que ela morrera onze anos antes, que o marido e o irmão haviam brigado e que, depois, ninguém soubera desfazer a distância.
O menino daquela fotografia agora tinha dezessete anos. Sentado diante do tio, tentava ocupar pouco espaço.
Alessandro observou seus dedos apertando o guardanapo.
"Você não precisa ter medo de mim."
Daniel ergueu os olhos.
"O meu pai também fala isso quando está com raiva. Nunca ajuda muito."
Otávio pigarreou. Alessandro soltou o ar pelo nariz.
"É uma observação justa."
Quando Luca chegou, Lia estava na copa com Lúcia e eu acabara de trazer uma segunda jarra de água. Daniel se levantou.
"Você podia ter atendido o telefone."
Luca fechou os olhos por um instante.
"Eu sei. Sinto muito."
"Sente-se", Alessandro disse.
Colocou a correspondência da fundação ao lado da autorização médica.
Luca passou a mão pelo rosto.
"São duas coisas diferentes."
"Então explique as duas."
Eu apanhei a bandeja para sair.
"Helena, pode ficar", Alessandro disse. "Você perguntou se era seguro trazer sua filha. Quero que ouça o que estamos esclarecendo."
Sentei perto da porta. Não era da família e não pretendia fingir que era. Mas, depois de ver Clara ir embora segurando o crachá, queria entender por que tanta gente honesta parecia assustada.
Luca começou por Daniel.
"A reserva para a faculdade foi aprovada pela fundação. Otávio pode conferir. O aluguel, material da escola e outras despesas saíram da minha conta. Não usei dinheiro da empresa."
"Por que esconder?", Alessandro perguntou.
"Porque você proibiu o nome do Miguel nesta casa. Porque ele devolvia qualquer coisa que achasse que vinha de você. Eu consegui convencer os dois a aceitarem o silêncio. Não consegui convencer nenhum a conversar."
"Você deveria ter insistido."
Luca olhou para o primo.
"Eu insisti. Por anos. Enquanto isso, Daniel continuava crescendo."
Alessandro baixou os olhos para o envelope.
Daniel ficou imóvel. Vi quando deixou de amassar o guardanapo e o alisou sobre o joelho.
Otávio examinou a correspondência.
"Vou conferir os registros, mas conheço o programa. A destinação é compatível."
Alessandro assentiu uma vez. Tocou no outro papel.
"Agora isto."
O rosto de Luca mudou.
"Eu assinei uma pasta de documentos. Disseram que eram renovações administrativas e autorizações de despesas. Não li tudo."
"Quem disse?"
"O Paulo."
Otávio levantou a cabeça.
"Paulo Azevedo?"
"Sim."
Eu lembrava o nome da cozinha. Luca percebeu minha expressão.
"Ele cuida das despesas da família junto com as da administração. Eu deixei isso se misturar mais do que deveria."
"Meu tratamento não é uma despesa que você aprova sem ler", Alessandro disse.
Luca ficou vermelho.
"Eu sei."
"Desde quando sabe que seu nome está aqui?"
"Desde terça. A Clara me mostrou."
"E por que demorou dois dias para dizer quem lhe entregou a pasta?"
Luca olhou para Daniel, depois para mim. Por um momento, achei que não responderia.
"Porque fiquei com vergonha. Eu não conseguia acreditar que tinha assinado aquilo sem perceber. Quis conferir os documentos antes de falar. Quanto mais demorava, pior parecia."
"E enquanto você tentava parecer menos irresponsável, eu continuava sem saber em quem confiar."
"Eu fiz uma besteira e depois piorei tudo. Não tenho uma resposta que deixe isso bonito."
A voz dele falhou no fim. Alessandro recostou a mão sobre a folha, cobrindo a assinatura.
Daniel se inclinou.
"Eu não sei nada dos remédios. Só sei que ele apareceu quando a gente precisava. Queria que você soubesse as duas coisas."
Não houve abraço. Alessandro não rasgou o documento nem anunciou que tudo estava perdoado.
Pediu a Otávio que conferisse os pagamentos, recolhesse os registros administrativos e falasse com Marcelo. Depois olhou para Luca.
"Você vai entregar o acesso às autorizações até terminarmos a revisão."
"Vou."
"E, da próxima vez que encontrar algo errado, vai me contar antes de tentar proteger a própria imagem."
"Vou contar."
Luca se levantou devagar. Daniel também, como se precisasse acompanhá-lo para que não saísse sozinho.
Alessandro chamou o sobrinho antes de chegarem à porta.
"Sua mãe queria que você estudasse. Falava disso quando você ainda nem sabia segurar um lápis."
Daniel apertou a alça da mochila.
"Meu pai diz que ela fazia planos demais."
"Fazia. E cantava muito mal enquanto fazia."
O rapaz sorriu pela primeira vez.
"Ele também diz isso."
Alessandro apontou para a cadeira que Daniel deixara vazia.
"Se puder ficar mais um pouco, eu gostaria de ouvir como vocês estão. Sem falar de documentos."
Daniel tirou a mochila e voltou a se sentar.
Saí com a bandeja. Na copa, Lia ergueu o coelho para me mostrar uma orelha nova de fita adesiva.
"A Lúcia consertou."
Sentei ao lado dela. Por aquela tarde, eu já tinha visto adultos suficientes tentando fazer a mesma coisa.
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