"Minha Filha de Três Anos Decidiu Cuidar do Homem Mais Temido da Cidade" Capítulo 3

A assinatura

O doutor Marcelo voltou dois dias depois. Dessa vez, Otávio veio com ele.

Eu estava trocando a água das flores quando Clara saiu do escritório. Segurava o próprio crachá, que havia retirado do bolso do uniforme. Os olhos estavam vermelhos.

"Precisa de alguma coisa?", perguntei.

Ela balançou a cabeça.

"Se perguntarem, eu segui a orientação que recebi. Eu não inventei nada."

Ficou esperando uma resposta que eu não sabia dar. Depois desceu a escada sem olhar para trás.

Naquela tarde, Dona Lúcia ficou com Lia enquanto eu atendia ao chamado de Alessandro.

Otávio estava sentado diante da mesa. Havia um envelope aberto entre os dois e uma cadeira vazia para mim.

"Você está aqui porque trabalha na casa", Alessandro disse. "Preciso fazer algumas perguntas sobre a rotina."

Sentei na beirada do assento.

"Aconteceu alguma coisa com a Clara?"

"Ela foi afastada enquanto esclarecemos uma situação", Otávio respondeu.

Alessandro não desviou os olhos de mim.

"Alguém pediu que preparasse meus suplementos ou levasse medicação ao quarto?"

"Não. Eu levo refeições, café e água. Nunca mexi nos remédios."

"Recebeu algum frasco fora da cozinha? Alguma instrução para acrescentar algo às bebidas?"

"Não recebi."

Ele assentiu. A caneta estava firme em sua mão naquele dia, mas havia olheiras profundas em seu rosto.

"Obrigada, Helena", Otávio disse.

Era uma dispensa. Mesmo assim, não me levantei.

"Desculpem, mas minha filha come aqui. Eu também. Se há alguma coisa errada com a comida, preciso saber."

Alessandro apertou os lábios.

"A cozinha não está sob suspeita."

"Eu não estou pedindo detalhes da sua vida. Estou perguntando se é seguro manter minha filha nesta casa."

Minha voz saiu menos firme na última palavra. Pensei na indicação, no aluguel, no uniforme que eu ainda estava aprendendo a passar direito. Pensei também em Lia roubando pedaços de fruta da bandeja antes de eu levá-la.

Otávio fechou a pasta.

"Ela tem o direito de perguntar, Alessandro."

Ele pousou a caneta.

"Os exames mostraram uma substância que não deveria fazer parte do meu tratamento atual. O médico está verificando o que recebi. Não encontramos motivo para suspeitar dos alimentos."

Respirei com cuidado.

"O senhor já está sendo acompanhado?"

"Sim. Marcelo está cuidando disso."

Olhei para o envelope. Não tentei ler.

"Obrigada por me explicar."

Quando me levantei, ele me chamou.

"Eu deveria ter respondido antes."

Não pareceu uma frase fácil para ele. Segurei o encosto da cadeira.

"Eu também estou assustada. Talvez tenha falado de um jeito ruim."

"Falou de um jeito bastante claro."

Na copa, Lia havia colado duas orelhas de papel num copo.

"É para ele tomar água. O coelho também gosta de água."

Guardei o copo numa prateleira. Naquela noite, levei minha filha para casa e dormi com a mão sobre suas costas.

O pai de Lia saíra da nossa vida aos poucos, antes que ela completasse dois anos. Primeiro faltavam horas, depois dias. Mudara de cidade prometendo ajudar mais quando se organizasse. Às vezes telefonava. A pensão chegava de maneira tão irregular quanto as ligações.

Eu não tinha o luxo de perder trabalho. Também não podia confundir necessidade com confiança.

Na manhã seguinte, perguntei a Dona Lúcia se havia qualquer mudança que eu devesse conhecer. Ela me explicou que as entregas destinadas ao tratamento estavam sendo conferidas separadamente e que o médico assumira a revisão das orientações.

Só então deixei Lia abrir os lápis.

Durante os dias seguintes, Alessandro manteve a rotina da menina. Chamava por nós para o café, perguntava pelo desenho e devolvia o copo de coelho lavado. Com os adultos, estava cada vez mais seco.

Na quinta-feira, Luca passou por mim no corredor.

"Ele está sozinho?"

"O doutor Marcelo acabou de sair."

Luca afrouxou a gravata. Estava com a mesma camisa da véspera.

Pouco depois, ouvi seu nome ser chamado numa voz que atravessou a porta fechada. Não ouvi o restante. Voltei para a lavanderia, onde havia toalhas demais e respostas de menos.

Ao fim da tarde, Alessandro pediu que eu levasse café. Otávio estava com ele. Quando coloquei a bandeja, Alessandro apontou para o copo de papel que Lia fizera.

"Ela perguntou se você melhora quando bebe água?", perguntei.

"Perguntou se coelhos podem usar gravata. Não soube responder."

Sorri, mas ele não acompanhou.

"A enfermeira recebeu uma orientação falsa", disse, olhando para a mesa. "Com uma autorização da administração da casa."

Otávio não o interrompeu.

Alessandro virou uma cópia na minha direção. Reconheci o nome no campo de autorização: Luca Moretti.

"Isso prova que ele sabia o que havia no documento?", perguntei.

"Prova que assinou."

"E o que ele disse?"

Alessandro passou o polegar pela borda da folha.

"Que não se lembra."

Eu não conhecia Luca o suficiente para defendê-lo. Conhecia apenas o homem que se agachava para ouvir Lia e lembrava que Dona Lúcia tinha consulta às quartas.

"Eu também ficaria com raiva", admiti. "Mas ainda ia querer uma resposta melhor."

"Estou tentando conseguir uma."

Dona Lúcia bateu à porta antes que eu recolhesse a bandeja.

"Há um rapaz no portão. Daniel Castro."

Alessandro parou de mexer na folha.

Otávio endireitou as costas.

"O filho da Sofia?", perguntou.

Lúcia assentiu. Alessandro segurou o aro da cadeira.

"Aconteceu alguma coisa com ele?"

"Diz que está bem. Quer falar sobre o Luca."

Ela olhou para o documento sobre a mesa e pareceu escolher as palavras com cuidado.

"Ele disse que o Luca ajuda a pagar suas despesas há anos. E que pediu para o senhor nunca descobrir."

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