"Minha Filha de Três Anos Decidiu Cuidar do Homem Mais Temido da Cidade" Capítulo 2

A pequena também pode vir

No dia seguinte, Dona Lúcia colocou uma caixa de lápis sobre a mesa da copa e apontou para a cadeira ao seu lado.

"Aqui eu consigo olhar para ela enquanto você trabalha. E o banheiro fica naquela porta. Vamos conhecer juntas, Lia?"

Minha filha concordou solenemente.

"Ontem eu errei."

"Hoje a gente acerta."

A governanta não me fez um sermão. Isso foi quase pior. Agradeci e comecei a limpar a cristaleira com o cuidado de quem acreditava que uma única marca no vidro poderia custar o emprego.

Três dias depois, ela me encontrou na lavanderia.

"O senhor Moretti pediu café na biblioteca."

Enxuguei as mãos.

"Eu levo."

"A pequena também pode ir. Foram essas as palavras dele."

Lia ouviu da copa.

"Ele pediu eu?"

"Pediu que você acompanhasse sua mãe."

Minha filha pegou o coelho e dois lápis antes que alguém mudasse de ideia.

A propriedade ficava numa região arborizada do interior paulista, distante o suficiente da capital para o trânsito se tornar uma preocupação antes mesmo da viagem. Atrás dos portões, havia jardins, uma piscina coberta e corredores onde meus passos pareciam barulhentos demais.

Na biblioteca, Alessandro trabalhava junto à janela. Levantou os olhos quando entramos.

"Está supervisionando sua mãe hoje?"

Lia me olhou, desconfiada de outra palavra difícil.

"Ele quer saber se você está tomando conta de mim", expliquei.

"Estou. Ela esqueceu de comer a banana."

Alessandro olhou para mim.

"Uma falha grave."

"Vou comer no intervalo."

"Espero que sim. Sua fiscal parece rigorosa."

Deixei o café na mesa. Lia se instalou numa cadeira baixa e começou a desenhar. Eu arrumei os livros devolvidos pelo escritório, esperando que, a qualquer momento, ele se cansasse da nossa presença.

Em vez disso, perguntou se ela precisava de mais papel.

"Preciso de roxo."

"Receio que não tenha."

"Eu volto com ele amanhã."

Ele ergueu uma sobrancelha, mas não corrigiu a visita já marcada.

No dia seguinte, Lia lhe entregou um desenho. Um homem enorme, de cabelo espetado, estava sentado numa cadeira roxa com rodas de tamanhos diferentes.

"Esse é você."

Alessandro segurou o papel pelas pontas.

"Minha cadeira não é dessa cor."

"Essa é mais bonita."

"Pelo visto, minha opinião chegou atrasada."

"Chegou", ela concordou, sem perceber a ironia.

Eu ri antes de conseguir impedir. Ele olhou para mim, e senti meu rosto esquentar.

"Desculpe."

"Por rir ou por concordar com ela?"

"Prefiro não responder."

O canto de sua boca se moveu.

Na manhã seguinte, o desenho estava numa moldura sobre a estante.

Não comentei. Lia comentou por nós duas, anunciando a Dona Lúcia que agora era artista.

Ao fim da primeira semana, conheci Luca Moretti. Ele entrou na cozinha elogiando o cheiro do almoço e roubou uma cenoura da tábua. Lúcia bateu em seus dedos com um pano.

"Você continua entrando aqui como se tivesse oito anos."

"E a senhora continua sendo a única pessoa que me alimenta sem uma reunião antes."

Ele tinha trinta e quatro anos, cinco a menos que o primo, segundo me contou enquanto Lia lhe apresentava o coelho. A semelhança entre os dois aparecia no formato do rosto. A diferença estava no sorriso fácil de Luca.

"Então foi você que fez Alessandro comer biscoito?"

Lia assentiu.

"Você também pode. Mas precisa pedir para a mamãe."

"Aprendi a lição."

Ele me perguntou se estávamos nos adaptando. Respondi que sim. Quando Clara, a enfermeira, passou para buscar uma pasta de autorizações, Luca largou a brincadeira e procurou o telefone.

"O Paulo pediu que eu confirmasse esses documentos. Já estou indo."

Só guardei aquele nome porque Clara precisou repeti-lo ao celular, perguntando a quem devolver a pasta.

Na sexta-feira, levei o almoço ao escritório e encontrei Alessandro lendo a mesma página havia tempo suficiente para não notar minha entrada.

"Senhor Moretti?"

Ele levantou o rosto. A caneta escorregou de seus dedos e bateu no chão.

Abaixei para pegar.

"Não precisa", ele disse.

"Já estou aqui."

Quando a entreguei, percebi o esforço que fazia para manter os olhos abertos.

"Quer que eu chame a Clara?"

"Quero terminar este relatório."

Pousei a caneta ao lado da mão dele.

"Seu almoço pode esperar alguns minutos. O senhor parece não estar se sentindo bem."

Ele me encarou, irritado. Fiquei imóvel, desejando ter me limitado à bandeja.

Então sua expressão mudou. Não para gentileza; para uma espécie de cansaço que ele já não conseguia disfarçar.

"Chame a Clara, por favor."

Na segunda-feira, o médico chegou antes do almoço.

Da copa, vi Dona Lúcia conduzi-lo pelo corredor. Lia desenhava um prato de sopa embaixo de outro homem de cadeira roxa.

"Hoje ele vai comer tudo", ela me informou.

Eu acariciei seu cabelo, mas fiquei olhando para a porta por onde o médico havia desaparecido.

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