"Minha Filha de Três Anos Decidiu Cuidar do Homem Mais Temido da Cidade" Capítulo 1

Primeiro, o biscoito

"Come. Eu trouxe para você."

Minha filha de três anos segurava meio biscoito diante da boca de Alessandro Moretti.

Eu tinha começado a trabalhar naquela casa havia menos de meia hora. A governanta me explicara onde guardar meu casaco, quais produtos usar na madeira e, sobretudo, que ninguém entrava no escritório da ala oeste sem ser chamado.

Lia aparentemente considerava biscoitos uma autorização suficiente.

"Lia, desça dessa poltrona. Agora."

Ela virou o rosto. O coelho de pano estava apertado debaixo de seu braço; farelos cobriam o assento de couro.

"Ele não almoçou, mamãe."

Alessandro ergueu a mão antes que eu chegasse à poltrona.

"Espere."

Parei tão depressa que meu tênis escorregou no tapete.

Ele estava numa cadeira de rodas, ao lado da mesa. Os ombros largos preenchiam a camisa escura, e as mangas dobradas revelavam tatuagens nos antebraços. Seus olhos cinzentos passaram por mim sem pressa. Depois voltaram à minha filha.

"Quero ouvir o que ela tem a dizer."

Eu precisava daquele emprego. Precisava do salário antes que o aluguel atrasasse de novo. Naquela manhã, a vizinha que ficaria com Lia acordara com febre, e eu chegara ao portão pronta para implorar que adiassem minha primeira diária.

Dona Lúcia permitira que ela ficasse na sala dos funcionários, a poucos passos da lavanderia. Eu a acomodara com papel, lápis e três biscoitos amanteigados. Fui buscar um avental limpo. Quando voltei, encontrei apenas o lápis vermelho debaixo da cadeira.

O funcionário que me indicara a ala oeste nem quis me acompanhar.

Agora minha filha estava diante do homem cujo nome fazia os adultos baixarem a voz.

"Senhor Moretti, ela não costuma sair assim. Eu já vou levá-la embora."

"Eu procurei o banheiro", Lia explicou. "A porta estava aberta."

Mostrou a bandeja sobre a mesa, como se isso resolvesse a questão. A sopa não havia sido tocada. O pão permanecia dentro do guardanapo.

"Aí eu achei ele."

"E resolveu fiscalizar meu almoço?", Alessandro perguntou.

Ela franziu a testa. Não conhecia a palavra.

Ele apontou para o biscoito.

"Por que preciso comer isso?"

"Porque você está triste."

Olhei para o homem de cabelos grisalhos perto da estante. Ele segurava uma pasta contra o peito e mantinha a boca muito séria. Apenas seus olhos se moveram.

"Lia, a gente não fala assim das pessoas."

"Mas ele está."

Alessandro olhou para a sopa.

"Talvez eu só não esteja com fome."

Lia examinou o pedaço que oferecia. Depois o partiu novamente, deixando cair mais farelos.

"Agora ficou pequeno. Cabe."

O homem junto à estante tossiu.

"Está tudo bem, Otávio?", Alessandro perguntou, sem olhar para ele.

"Perfeitamente."

Eu não achava que alguma coisa estivesse perfeitamente bem.

Alessandro abriu a mão. Lia depositou nela o pedacinho de biscoito e esperou, com o coelho espremido contra o peito.

Ele comeu.

Nos jornais, Alessandro era o empresário dos imóveis e da logística. Fora deles, seu sobrenome vinha acompanhado de histórias sobre a máfia que ninguém parecia disposto a repetir diante de testemunhas. Eu não sabia quais eram verdadeiras. Sabia que, naquela casa, até os funcionários mais antigos batiam antes de entrar.

Ela sorriu com tanta satisfação que senti uma vontade absurda de rir. Engoli a vontade. Eu ainda podia ser demitida antes do almoço.

"Viu? É gostoso."

"Você mesma fez?"

"Foi a mamãe. Eu apertei com o garfo."

"Entendo. Um trabalho em equipe."

"Eu fiz as listrinhas."

Ele examinou os farelos na palma, como se precisasse confirmar a qualidade das listras.

"Ficaram muito boas."

Só então me aproximei. Segurei Lia pela cintura e a coloquei no chão.

"Você não pode sair sem me avisar, meu amor. Eu fiquei com medo."

O sorriso diminuiu.

"Você não sabia onde eu estava?"

"Não sabia."

Ela passou os dedos pegajosos na minha mão.

"Desculpa, mamãe."

Beijei seu cabelo. Quando ergui o rosto, Alessandro nos observava.

"Como se chama?"

"Helena Duarte."

"Dona Lúcia autorizou que trouxesse sua filha?"

"Autorizou. A pessoa que ia cuidar dela ficou doente. Foi um imprevisto. Amanhã eu resolvo."

Falei depressa demais. Havia levado semanas para conseguir aquela indicação.

"Pode trazê-la enquanto resolve", ele disse. "Desde que fique acompanhada. Lúcia encontrará um lugar adequado."

Eu pisquei.

"Muito obrigada. Não vai atrapalhar seu trabalho."

Lia ergueu a cabeça.

"Eu vou cuidar dele também."

"Primeiro você vai ficar perto de mim."

"Mas ele fica sozinho."

Otávio baixou os olhos para a pasta. Alessandro encostou a mão na roda da cadeira, sem movê-la.

Durante um instante, ninguém respondeu.

Peguei a bolsinha de biscoitos e conduzi Lia até a porta.

"Helena."

Virei, com a barriga novamente apertada.

Alessandro apontou para a bolsinha.

"Pode deixar mais um?"

Lia soltou minha mão e voltou correndo. Escolheu um biscoito inteiro, colocou-o sobre o guardanapo e tocou a borda da bandeja.

"Esse é depois da comida. A mamãe fala que biscoito não é almoço."

"Sua mãe parece bastante exigente."

"Ela é."

Dessa vez, Otávio não conseguiu esconder o sorriso.

Abri a boca para me desculpar por alguma coisa, talvez por todas, mas Alessandro já olhava para Lia.

"Quantos você trouxe?"

Ela ergueu três dedos, conferiu a mão e levantou um quarto por engano. Eu ajudei a dobrá-lo.

"Três", ela afirmou.

Ele olhou para o biscoito inteiro no guardanapo, depois para o restante na bolsinha.

"Então esse era seu."

Lia deu de ombros.

"Eu divido."

No corredor, apertei minha filha contra mim até ela reclamar que o coelho estava ficando amassado.

Antes de fechar a porta, olhei para trás.

Alessandro havia puxado a bandeja para perto. Segurava a colher, mas ainda observava o biscoito ao lado do prato.

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