"Na Noite do Noivado Dele, o Mafioso Viu Minhas Feridas" Capítulo 10
A escolha de ficar
Luca me levou para casa depois do jantar. Antes que eu abrisse a porta do carro, tocou meu rosto.
"Eu queria que tivesse sido uma noite mais fácil."
Olhei para o homem que me escutara no corredor quando seria mais simples prometer vingança.
"Foi uma noite importante."
Ele me beijou, e pela primeira vez não pensei em quem poderia estar olhando pela janela. Quando nos afastamos, fiquei com a mão na nuca dele, acariciando os fios curtos.
"Obrigada por me deixar responder."
"Você não precisava da minha permissão."
"Eu sei. Você poderia ter falado por cima de mim mesmo assim."
Luca encostou a testa na minha.
"Estou tentando aprender depressa."
Nas duas semanas seguintes, aprendi coisas também.
Que ele gostava de receber minhas mensagens cedo, embora fingisse reclamar quando eu fotografava Bruno roubando seu lugar no sofá. Que ficava irritado se eu dizia estar bem só para encerrar uma conversa. Que podia passar uma hora discutindo um problema sério por telefone e, no minuto seguinte, prestar atenção em como minha mãe descrevia o preço das frutas.
Também aprendi que o nome Moretti não deixara de ter o peso que sempre tivera.
Uma tarde, esperando Luca no corredor, vi dois homens saírem de seu escritório. Um deles estava muito pálido. Daniel permaneceu na porta até o carro deles desaparecer atrás do jardim.
Luca me encontrou ali e percebeu meu olhar.
"Está esperando há muito tempo?"
"O suficiente para lembrar que não conheço tudo sobre você."
Ele não tentou sorrir.
"Há coisas sobre mim de que você não vai gostar."
"Eu já imaginava."
"Não quero que precise fingir que não percebe."
Ficamos diante um do outro, sem o abrigo confortável das pequenas conversas. Ele continuava sendo o homem que eu temera durante quase um ano. Agora eu conhecia suas mãos no meu cabelo. Uma coisa não apagava a outra.
"Eu não vou perguntar só coisas fáceis", avisei.
Luca assentiu.
"É uma das razões pelas quais quero você perto."
Aquilo não resolveu todas as diferenças entre nós. Tornou possível continuar sem fingir que não existiam.
Meu ombro cicatrizava. A marca nas costas ainda estava vermelha, e o médico orientara cuidado com esforço e exposição. Eu voltara a cumprir quase todo o horário, mas percebia um desconforto novo quando recebia ordens de serviço numa casa onde, na noite anterior, tinha sido beijada contra a porta do jardim.
Célia era correta comigo. Os colegas também. O problema não dependia de alguém me tratar mal.
Eu queria poder dizer que estava cansada sem imaginar se Luca se culparia. Queria passar uma manhã ocupada com algo que havia escolhido, depois ligar para ele para contar.
Comecei a procurar um curso de confeitaria aos sábados e possibilidades de trabalho compatíveis com minha experiência. Não sabia ainda qual seria o caminho. Sabia apenas que precisava mudar alguma coisa.
Contei a Célia primeiro, porque ela organizava a equipe. Pedi tempo para fazer uma transição responsável.
Ela ouviu, pensou e concordou.
"Você vai dizer a ele hoje?"
"Vou."
"Então diga antes que ele tente adivinhar. O senhor Moretti é ótimo em descobrir o problema dos outros e péssimo quando o assunto é o próprio coração."
Eu ri. Pouco depois, deixei de achar graça.
Luca me encontrou guardando meus objetos num armário. Eu queria levar para casa o que já não usava. A sacola aos meus pés, porém, pareceu dizer outra coisa.
"Você está indo embora?"
Levantei o rosto.
"Queria conversar com você."
Ele olhou para a sacola, depois para o avental dobrado.
"Aconteceu alguma coisa? Alguém falou com você?"
"Não."
"Então por que está tirando suas coisas?"
Sua voz não se elevou. Tornou-se mais seca. Reconheci a maneira como ele se preparava para uma perda antes de permitir que ela o atingisse.
"Porque quero encerrar meu trabalho aqui. Já combinei com Célia como posso fazer a transição."
Luca ficou em silêncio.
Eu devia ter começado pela parte mais importante. Vi isso nos segundos em que ele pareceu prender o corpo inteiro.
"Não estou terminando com você."
Ele inspirou devagar.
"Devia ter dito isso primeiro."
"Estou percebendo."
O humor não encontrou lugar de imediato. Luca passou a mão pela nuca.
"Quero entender."
Fomos ao escritório. Bruno dormia com uma pata sobre o sapato dele, como se mantivesse a propriedade sob controle.
Sentei no sofá onde havia recebido o primeiro curativo.
"Eu gostei do meu trabalho aqui. Precisei dele, aprendi coisas e conheci pessoas que quero manter na minha vida. Mas agora janto com você no terraço e, na manhã seguinte, entro pela porta de serviço para começar o turno. Ainda não sei fazer essas duas coisas sem me sentir dividida."
Ele se sentou ao meu lado.
"Podemos mudar sua função."
"Não quero uma função inventada para continuar perto de você."
Luca assentiu, contrariado consigo mesmo.
"Está bem. Continue."
Contei sobre o curso, a vontade de experimentar uma cozinha de verdade e as vagas que estava procurando. Não fiz um discurso sobre independência. Falei dos meus dias, do meu medo de abandonar um salário certo e da alegria que sentira ao imaginar uma coisa nova.
Ele perguntou o valor do curso. Eu respondi, mas acrescentei:
"Antes que você faça alguma ligação, já separei o dinheiro da inscrição."
Luca olhou para mim.
"Você está começando a prever minhas más ideias."
"Algumas são bem fáceis."
Ele soltou uma risada curta. A tensão diminuiu, mas seus dedos continuaram imóveis no joelho.
Toquei a mão dele.
"O que foi?"
Demorou a responder.
"Quando vi a sacola, pensei que você estivesse indo embora porque finalmente havia decidido que eu era complicado demais."
A franqueza me atingiu sem defesa.
"Você é complicado."
Luca ergueu os olhos.
"Eu sei."
"Mas eu quero continuar conhecendo você. Mesmo as partes que não cabem num jantar bonito."
Passei o polegar sobre seus dedos.
"Quero vir porque sinto saudade. Quero poder ficar porque é aqui que desejo estar. Não porque o turno ainda não acabou."
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Ele segurou minha mão com as duas dele.
"Eu não quero você aqui por causa de Bruno. Nem porque me agradece por alguma coisa. Quero porque passo o dia pensando em quando vou ouvir sua voz de novo."
Meu peito apertou.
"Luca..."
"Eu amo você, Elisa. Estou tentando não transformar isso em mais uma coisa que resolvo sem perguntar. Mas não sei fingir que quero pouco."
As lágrimas vieram antes da resposta. Dessa vez, não me envergonhei delas.
"Ainda bem", falei. "Porque eu também amo você. E seria muito constrangedor dizer isso sozinha."
Ele riu e me puxou com cuidado para o colo. Beijei a linha firme da boca, o canto em que começava o sorriso, o rosto que eu já sabia ler um pouco melhor.
Luca me abraçou como se finalmente pudesse reconhecer o alívio.
Conversamos até escurecer. Combinamos o fim do meu trabalho depois de um período de passagem para outra funcionária. Eu continuaria morando com minha mãe enquanto procurava um novo emprego e começava o curso. Aceitaria ajuda quando precisasse, sem fazer de cada gesto dele uma dívida impossível de pagar.
E iria à casa para vê-lo.
Naquela noite, liguei para Rosa.
"Vou ficar aqui hoje. Está tudo bem?"
Ela fez uma pausa curta.
"Comigo, está. Com você?"
Olhei para Luca, que esperava junto à porta sem tentar ouvir a resposta.
"Está, mãe. Muito."
Mais tarde, ele me levou ao quarto. Eu já o conhecia por ter arrumado a cama, mas parecia um lugar inteiramente diferente com a mão dele na minha.
Luca tocou meu ombro, esperando minha reação. Afastei o cabelo e o deixei ver a marca que ainda atravessava minha pele.
Ele beijou a parte intacta logo abaixo, sem pressa.
Senti vontade de chorar outra vez. Em vez disso, virei para ele e o puxei pela camisa.
"Agora olhe para mim."
Luca obedeceu.
Foi assim que o beijei, sem esconder nada.
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