"Na Noite do Noivado Dele, o Mafioso Viu Minhas Feridas" Capítulo 8

O que disseram de mim

Não fui embora imediatamente, mas também não dormi na casa dele naquela noite.

Ficamos no terraço até o café esfriar. Luca me beijou outra vez na porta, devagar, como se agora pudesse aproveitar o tempo que antes gastara tentando entender o que queria.

No carro, ele segurou minha mão sobre o banco. Não precisei pensar no que fazer com os dedos. Eles se acomodaram nos dele.

Em casa, beijei o rosto da minha mãe antes de ir para o quarto. Ela olhou para mim por cima dos óculos e não perguntou nada. Algumas coisas eram visíveis.

Nos dias seguintes, minha rotina continuou existindo. Havia roupa para separar, compras para fazer, uma consulta de retorno e um homem que aparecia na copa para perguntar se eu já tinha almoçado.

A diferença estava no modo como meu corpo reconhecia sua presença antes que ele falasse.

Luca não me agarrava pelos corredores nem me chamava para o escritório sob pretextos profissionais. Mas, quando estávamos a sós, demorava a soltar minha mão. Uma tarde, encontrou-me perto da porta do jardim e me beijou até eu precisar lembrá-lo de que Célia nos procurava.

"Ela sabe onde estamos", respondeu.

"Isso não melhora a situação."

Ele sorriu contra minha têmpora.

Eu queria aquela proximidade. Queria também conseguir olhar para os outros sem perguntar se enxergavam em mim alguma mudança constrangedora.

Foi uma mensagem de uma antiga colega que me mostrou o que já começava a circular fora da propriedade.

Ela não me escreveu por maldade. Mandou uma captura de tela, seguida de um pedido para que eu não acreditasse que todas as pessoas pensavam daquele jeito.

O texto não citava meu nome. Não precisava. Falava de uma empregada que se aproveitara de um incidente com um animal idoso para entrar na intimidade de um homem prestes a se casar. Dizia que algumas mulheres sabiam usar lágrimas melhor do que um vestido caro.

Li uma vez.

Na segunda, a tela pareceu distante.

Eu estava no vestiário, no final do turno. Fechei a porta e me sentei no banco de madeira. Havia passado dias lembrando do beijo. De repente, parecia que outras pessoas tinham estado lá, observando, dando a tudo um significado sujo.

Minha colega ligou. Não atendi. Ela enviou outra mensagem: aquilo vinha de um grupo ligado às amigas de Vanessa.

Não era um mistério a investigar. Era só cruel.

Guardei o telefone quando ouvi passos. Duas funcionárias passaram no corredor falando de uma entrega, e esperei que se afastassem antes de sair.

Pela primeira vez desde que começara a trabalhar ali, temi ser vista na casa.

No dia seguinte, encontrei dona Célia na despensa. Ela fechou o armário e me perguntou, sem rodeios, o que havia acontecido.

Mostrei a mensagem.

Ela leu com o maxilar apertado.

"Isso chegou ao senhor Moretti?"

"Não por mim."

"Elisa..."

"Eu sei. Vou falar com ele. Só preciso descobrir como dizer sem parecer que estou pedindo que me escolha na frente de todo mundo."

Célia devolveu o aparelho.

"Você pode pedir para não ser humilhada. Não é uma extravagância."

Assenti, mas o rosto da minha mãe apareceu na tela antes que eu conseguisse fazer qualquer coisa. Ela havia recebido uma ligação de uma conhecida perguntando, com falsa preocupação, se eu estava envolvida com meu patrão.

Ouvi Rosa responder com firmeza do outro lado. Depois me chamou para conversar.

"Não estou zangada com você. Quero saber se está bem."

Eu disse que sim. Minha voz não convenceu nenhuma de nós.

Luca me encontrou no fim da tarde. Eu havia levado para uma sala vazia de serviço o uniforme rasgado que Célia guardara. Precisava buscá-lo para decidir o que fazer com ele, mas fiquei alisando a costura rompida sem sair do lugar.

"Elisa."

Levantei os olhos.

O rosto dele estava fechado.

"Daniel me mostrou as mensagens. Quero saber quem falou com sua mãe."

"Uma conhecida dela."

"Qual é o nome?"

Deixei o vestido no colo.

"Para quê?"

"Para impedir que isso se repita. Já mandei que retirem as publicações que conseguirmos identificar. Os convites da próxima reunião..."

"Luca, espere."

Ele parou, mas o corpo continuou tenso, como se ainda estivesse a caminho de uma solução.

"Você nem perguntou como estou."

A frase fez mais efeito do que se eu tivesse gritado.

Ele olhou para a cadeira vazia ao meu lado. Sentou sem tocar em mim.

"Como você está?"

Eu ri sem alegria.

"Com vergonha. E com raiva por sentir vergonha de uma coisa que não fiz."

Luca olhou para o uniforme.

"Você não tem motivo para..."

"Eu sei que não tenho. Isso não faz desaparecer."

Minha voz começou a tremer, mas continuei.

"Eu lembro de cada segundo daquela tarde. Do barulho do portão, do Bruno tentando sair da caixa. E agora tem gente dizendo que foi um plano meu para terminar no seu quarto."

A boca dele endureceu.

"Elas não sabem nada sobre você."

"Mas minha mãe ouviu. As pessoas com quem trabalho ouviram. E eu não quero ter que contar onde encostei a boca em você para provar que não aconteceu antes."

Luca abaixou a cabeça.

Ficamos em silêncio até eu conseguir respirar direito.

"Eu estava tão ocupado pensando no que fazer com Vanessa que não pensei no que você precisaria enfrentar", disse.

Não era uma explicação bonita para torná-lo inocente. Era uma admissão simples, e eu precisava ouvi-la.

"Não quero que pare de me proteger", falei. "Só não quero ficar para trás enquanto você resolve o que sente que deve resolver."

Ele estendeu a mão, parando perto da minha.

Fui eu quem a segurou.

Luca levou meus dedos à boca.

"Então vamos fazer juntos. Me diga o que você quer."

Pensei antes de responder.

"Quero que as pessoas que estavam naquela mesa saibam a verdade. Sem inventarem que você cancelou um casamento para ficar comigo. Você já tinha terminado quando me convidou para jantar."

"Sim."

"E quero que minha mãe pare de receber perguntas. Ela já tem coisa suficiente para cuidar."

Ele assentiu.

Explicou que alguns parentes viriam à casa no fim da semana para encerrar os assuntos familiares ligados ao noivado. O pai de Vanessa havia pedido uma conversa. Luca pretendia recebê-lo com Daniel presente e disponibilizar os registros a quem precisasse conhecê-los.

"Eu não ia pedir que você participasse."

Olhei para o uniforme mais uma vez.

Naquela sala, eu estava sentada com a prova do que acontecera, ainda esperando que alguém autorizasse minha versão.

Dobrei o vestido e o pus na sacola.

"Quero ir."

"Você não precisa enfrentar Vanessa novamente."

"Eu sei. Mas quero entrar naquela sala sem uma bandeja nas mãos."

Luca sustentou meu olhar.

"Então você entra comigo."

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