"Na Noite do Noivado Dele, o Mafioso Viu Minhas Feridas" Capítulo 6

O horário de voltar

Luca abriu os olhos e, por um segundo, pareceu tão surpreso com a própria posição quanto eu.

Depois tentou levantar.

O ruído que fez foi pouco digno de um homem que mantinha tantas pessoas assustadas.

"Seu joelho?", perguntei.

"Não comente."

"Não vou. Só estava pensando que a casa tem algumas camas."

Ele me olhou de baixo, ainda apoiado numa mão.

"Você é mais insolente antes do café."

"É a falta dele."

Luca conseguiu ficar em pé e ofereceu a mão boa quando me levantei. Não a soltou assim que encontrou meu equilíbrio. Ficamos próximos por um instante, tempo suficiente para eu sentir o cheiro da camisa e lembrar que ele havia dormido ali por minha causa também.

Afastei-me primeiro, procurando as sandálias.

Dona Célia entrou com o café e fingiu não perceber nada. Fingiu tão mal que eu quis rir outra vez.

Depois do desjejum, uma veterinária que acompanhava Bruno foi examiná-lo. Ajudei a relatar o que ele comera e como passara a noite. Luca anotou os horários no próprio telefone, embora Célia já tivesse uma folha inteira sobre a mesa.

"O senhor sempre anota pessoalmente?", perguntei quando ela saiu.

"Quando não quero esquecer."

Naquela manhã, me senti parte de uma pequena equipe. Isso tornou mais difícil pedir para ir embora.

"Minha mãe está esperando."

Luca ergueu os olhos.

"Claro. Daniel providencia um carro."

Assenti. Ele continuou:

"Vou pedir que deixem mantimentos e o que ela precisar em casa. Célia pode organizar alguém para ajudá-la. Seu retorno fica suspenso até..."

"Espere."

A palavra saiu mais firme do que eu pretendia.

Luca parou.

"O que foi?"

"Eu preciso conversar com minha mãe antes de colocar alguém na cozinha dela. E não sei se vou precisar de mantimentos. Ainda nem vi o que há na geladeira."

Ele parecia acostumado a agradecerem quando resolvia uma dificuldade. Eu estava agradecida. Estava também com a sensação de que minha vida se tornara um corredor por onde ele podia entrar abrindo portas.

"Você está ferida", disse.

"Eu sei. Não quero voltar a carregar cestos amanhã. Mas preciso saber o que vai acontecer com meu trabalho. E quero ir para casa sem descobrir que alguém decidiu como vamos viver lá."

Luca olhou para a mesa. Deixou o telefone ao lado da xícara.

"Está bem. O que você aceita?"

A pergunta simples me deu espaço.

Combinei com ele e Célia alguns dias de afastamento remunerado, com reavaliação antes do retorno. Depois, tarefas que não exigissem esforço do ombro e um horário temporário que permitisse acompanhar minha mãe.

Aceitei o carro para casa. Recusei a pessoa na cozinha, porque imaginava com facilidade a expressão de Rosa diante de uma estranha mexendo em suas panelas.

"Minha mãe provavelmente expulsaria a ajuda e mandaria a senhora limpar os pés antes de sair", expliquei a Célia.

"Eu gostaria de conhecê-la", ela respondeu.

Luca riu pelo nariz.

Quando me despedi de Bruno, o cachorro manteve o focinho no meu joelho. Fiquei ali um minuto a mais, coçando a base da orelha.

"Volto para ver você", prometi.

"Quando?", Luca perguntou.

Olhei por cima do ombro.

"Amanhã à tarde, se estiver tudo bem."

"Está."

A resposta veio depressa demais para ser apenas uma autorização de visita.

Ele foi comigo até a entrada. Eu segurava uma sacola com o uniforme rasgado, as instruções médicas e as roupas que Célia insistira em emprestar.

"Elisa."

Virei.

"Obrigado por não deixar a manta lá."

Não consegui responder com a mesma leveza de antes.

"Eu sabia que ela era importante para ele."

Luca assentiu, mas seu olhar continuou no meu.

O carro me deixou em casa no fim da manhã. Minha mãe me recebeu na porta e viu o curativo antes que eu terminasse de sorrir. Passei a hora seguinte contando a verdade enquanto ela segurava minha mão com uma força maior do que eu esperava.

Não me repreendeu por defender Bruno. Repreendeu por achar que precisava suportar o restante sozinha.

Nos dias seguintes, Luca enviou notícias do cachorro. Não mandava alguém escrevê-las. Eu sabia pelo modo objetivo e um pouco desajeitado das mensagens.

Bruno comeu. Não gostou da segunda opção. Célia diz que você entende essa preferência.

Respondi que ele gostava de tudo que fingíamos não ter separado para ele.

Luca enviou uma fotografia do cão dormindo em cima do próprio sapato.

A imagem ficou no meu telefone por mais tempo do que eu admitiria.

Voltei para visitas curtas e, depois da reavaliação, reassumi parte da rotina. Minha mãe tinha uma consulta na quinta-feira. Eu a mencionei a Célia enquanto discutíamos o horário, sem imaginar que Luca prestara atenção da porta.

Na quinta, ele me encontrou na saída às quatro.

"Sua mãe já está pronta?"

Parei com a bolsa no ombro bom.

"Como sabe que é hoje?"

"Você disse que precisava chegar antes das cinco."

"Eu disse à Célia."

"Eu estava perto."

Havia homens que eu conhecia havia anos e que esqueciam meu sobrenome. Luca lembrava uma conversa que nem era com ele.

O motorista habitual estava em outra tarefa. Luca ofereceu carona e, quando tentei dizer que poderia chamar um carro, levantou uma sobrancelha.

"Eu também sei dirigir, Elisa."

"Não era isso."

"Então venha. Sua mãe não deve gostar de atrasos."

Ele tinha razão.

Rosa já esperava com a bolsa no colo quando chegamos. Abriu a porta, olhou para Luca e depois para mim.

"O patrão veio pessoalmente?"

Eu quis desaparecer.

Luca ofereceu a mão.

"Luca Moretti. Obrigado por me receber."

"Ainda não recebi. Estou decidindo."

Ele não pareceu ofendido. Pareceu interessado.

Enquanto eu buscava os exames, minha mãe o observou com aquela franqueza que me fizera temer reuniões escolares na infância.

"Minha filha contou o que aconteceu. Também disse que o senhor ia se casar."

Voltei à sala antes de ouvir a resposta inteira.

"O noivado acabou naquela noite", Luca disse. "Não existe casamento marcado. Elisa não tem nenhuma responsabilidade pelo que minha ex-noiva fez."

Minha mãe assentiu lentamente.

"Bom que sabe disso."

Ele a ajudou a descer o degrau da entrada sem fazer do gesto um acontecimento. Na clínica, esperou conosco até Daniel chegar para levá-lo a um compromisso.

Antes de sair, pôs um copo de café ao meu lado.

Sem açúcar.

"Como o senhor sabia?"

Ele olhou para mim como se a resposta fosse óbvia.

"Nunca vi você colocar."

Minha mãe esperou que ele se afastasse para sorrir.

"Esse homem presta atenção."

Apertei a tampa do copo.

"Ele tem esse costume."

"Deve ter. Mas hoje estava olhando para você."

Quando Luca me deixou em casa naquela noite, depois de passar para saber da consulta, Rosa já dormia. Fomos até a porta falando baixo.

Ele não voltou imediatamente para o carro.

"Quero jantar com você no sábado."

Meu coração bateu errado.

"Vai ter visita?"

"Só você."

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