"Na Noite do Noivado Dele, o Mafioso Viu Minhas Feridas" Capítulo 5
O homem no tapete
Minha mãe atendeu no segundo toque.
"Você está bem?"
Era a primeira pergunta dela sempre que eu ligava tarde. Naquela noite, precisei de alguns segundos para responder.
"Agora estou. Aconteceu um problema com Bruno. Conseguimos trazê-lo para casa, mas ele está assustado. Posso ficar aqui até amanhã?"
"Pode, filha. A vizinha já trouxe a sopa. Tomei os remédios."
Fechei os olhos. Uma preocupação, pelo menos, podia descansar.
"Eu me machuquei um pouco também. Já fui atendida. Não quero que a senhora se assuste se me vir com curativo."
"Elisa."
Apenas meu nome, dito daquele jeito, quase me fez contar tudo de uma vez. Prometi explicar pessoalmente. Ela me fez prometer também que comeria alguma coisa.
Quando desliguei, Luca aguardava perto da estante, sem fingir que estava ocupado.
"Ela está sozinha?"
"Dona Nair mora na casa da frente. As duas passam mais tempo juntas do que admitem."
Ele assentiu.
"Se precisar de alguma coisa, o motorista pode levar."
"Ela vai dizer que precisa da filha inteira, sem peças faltando."
"Parece uma mulher razoável."
Olhei para o curativo.
"Ela se esforça para compensar a filha."
Luca sorriu de novo. Dessa vez tive certeza de que não havia imaginado.
Dona Célia me mostrou um quarto no térreo, perto do escritório. Havia roupas de algodão limpas, toalha e uma escova de dentes ainda na embalagem. Fiquei parada diante da cama arrumada.
"Pode sentar, menina. Não é uma exposição."
"Eu sei. É que nunca..."
Não terminei. Não queria dizer que havia trocado aqueles lençóis mais de uma vez sem imaginar como seria deitar entre eles.
Célia entendeu mesmo assim.
"Amanhã conversamos. Hoje, banho do jeito que o médico orientou e comida."
Quando retornei ao escritório, de calça macia e blusa larga, havia uma bandeja baixa perto do sofá. Luca tirara a gravata. O telefone estava virado para baixo sobre a mesa.
"Não precisa voltar aos convidados?", perguntei.
"Já foram embora."
"E o resto da noite?"
Ele olhou para Bruno, adormecido.
"É isto."
Eu me sentei na poltrona. Luca colocou um prato na minha frente e ocupou a outra, perto o bastante para alcançar a cama do cachorro.
Havia arroz, legumes e frango. Simples, quente, exatamente o tipo de comida que eu teria procurado em casa se tivesse energia.
Tentei cortar com o garfo. Minha mão esquerda protestou antes que eu terminasse o movimento.
Luca estendeu a própria mão.
"Deixe comigo."
"Consigo dar um jeito."
"Eu também. Meu jeito demora menos."
Não havia impaciência. Só uma disposição tão prática que me tirou a vontade de discutir.
Ele cortou o frango, afastou o prato e me devolveu o garfo.
Fiquei olhando.
"O que foi?"
"O senhor cortou minha comida."
"Espero que isso não piore o sabor."
Eu ri. Doeu um pouco, e mesmo assim valeu a pena.
Comemos enquanto Bruno dormia. Por alguns minutos, o único som foi o de talheres e da respiração dele. Uma vez, Luca se levantou para atender Daniel do lado de fora. Voltou sem trazer consigo os assuntos da conversa.
Eu não sabia se devia perguntar.
"Vanessa não está mais na propriedade", ele disse, percebendo meu olhar. "Amanhã Daniel trata do restante."
Assenti.
"Não quero que pense que eu contei para..."
Ele pousou o copo.
"Elisa, eu encerrei um noivado. Você contou o que aconteceu. São responsabilidades diferentes."
Pensei no sussurro dela no corredor.
"Ela vai dizer que fiz de propósito."
"Vanessa está acostumada a explicar o comportamento dos outros para não precisar explicar o próprio."
Luca se recostou, parecendo cansado pela primeira vez.
"Não vou pedir que você lide com isso hoje."
Bruno se mexeu na cama. Meu corpo se inclinou automaticamente. Luca já havia abaixado a mão, deixando que o cachorro a cheirasse antes de acariciá-lo.
"Ele gosta quando passo o dedo aqui", falei, apontando para a base da orelha.
"Minha mãe fazia isso. Eu nunca tive paciência para ficar tanto tempo parado."
"Hoje teve."
Ele olhou para mim.
A luminária tornava menos rígidas as linhas do rosto dele. Havia um pequeno fio branco junto à têmpora que eu nunca reparara, embora tivesse servido seu café quase todos os dias.
"Hoje descobri que algumas coisas não esperam a gente ter tempo."
Baixei os olhos para o prato.
Contei sobre a cirurgia da minha mãe, o susto da internação e a culpa de estar lavando roupa enquanto minha vizinha a levava à emergência. Não era uma doença misteriosa nem uma tragédia sem fim. Era uma recuperação lenta, feita de consultas, compras e dias em que ela fingia ter mais força do que tinha.
Luca ouviu sem interromper com soluções.
Quando terminei, perguntou:
"Ela sabe que você está cansada?"
"Sabe. Eu finjo que não, ela finge que acredita. É um acordo antigo."
Ele passou a mão pelo rosto.
"Minha mãe e eu tínhamos um desses. Ela dizia que não se incomodava porque eu perdia os almoços. Eu fingia acreditar."
Não fiz a pergunta mais óbvia. Esperei.
"O último domingo em que ela me chamou, eu mandei flores."
A frase ficou entre nós.
"Ela gostava de flores?"
"Gostava."
"Então deve ter ficado contente com elas. E sentido sua falta. As duas coisas podem ser verdade."
Luca me encarou por tanto tempo que pensei ter dito algo errado.
"Você não costuma facilitar as coisas para quem quer mentir para si mesmo, não é?"
"Tento não discutir com quem paga meu salário. Mas hoje o senhor tirou minha cesta de pão. Fiquei sem o que fazer."
Ele soltou uma risada baixa. Bruno abriu um olho, ofendido pela interrupção, e voltou a dormir.
A tensão afrouxou. Conversamos sobre coisas menores: a teimosia de dona Célia, o hábito de Bruno de esconder biscoitos atrás da cortina, o tomate que minha mãe insistia em plantar em latas na varanda.
Luca queria saber quem eu era quando não estava segurando uma bandeja.
Essa atenção me cansou de um jeito doce. Eu não estava acostumada a ser o centro de uma pergunta sem ter cometido um erro.
Mais tarde, ele recolheu os pratos. Tentei levantar para ajudar.
"Sente."
"O senhor fala isso como se fosse fácil."
"Eu poderia mandar trazer uma cadeira mais confortável."
"Não é da cadeira que estou reclamando."
Ele olhou para minhas mãos, já procurando algo para organizar.
"Então pratique um pouco."
Pratiquei.
A última coisa de que me lembrei foi Bruno mudando de posição e Luca estendendo a mão para impedir que meu braço escorregasse do apoio.
Quando acordei, a janela estava cinzenta. Havia uma manta sobre minhas pernas e uma almofada sustentando meu cotovelo.
Luca dormia sentado no tapete, com as costas contra o sofá. Uma das mãos estava perto de Bruno. A outra segurava a borda da almofada que me apoiava.
Não soube por quanto tempo ele havia ficado assim.
Pude apenas olhar para aquele homem grande, desconfortável no chão do próprio escritório, e lembrar de todas as vezes em que o vira passar sem imaginar que podia ser assim.
Bruno abriu os olhos e abanou a cauda duas vezes.
"Não faça barulho", sussurrei. "Ele finalmente aprendeu a ficar parado."
Luca respondeu de olhos fechados:
"E você finalmente ficou sentada. Estamos progredindo."
Meu sorriso apareceu antes que eu pudesse escondê-lo.
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