"Na Noite do Noivado Dele, o Mafioso Viu Minhas Feridas" Capítulo 4
Vamos para casa
"Suspenda qualquer procedimento", Luca disse. "Os documentos apresentados em meu nome não foram autorizados por mim. Meu segurança está com os registros do animal."
A recepcionista já alcançava o telefone quando ouvimos um gemido atrás da porta.
Reconheci aquele som.
"É ele. Por favor, deixem que eu o veja."
Uma veterinária apareceu no corredor, tirando as luvas.
"Sou a doutora Renata. Bruno está vivo. Estamos avaliando o estado dele. Não realizamos a eutanásia."
Apoiei a mão no balcão. Luca segurou meu cotovelo antes que meus joelhos cedessem.
"Posso entrar?", perguntei.
Ela olhou a manta nos meus braços e abriu a porta.
Bruno estava sobre uma superfície baixa, com um auxiliar ao lado. Quando me aproximei, tentou levantar a cabeça. Seus olhos procuravam alguma coisa que ele ainda não conseguia reconhecer.
"Oi, meu velho. Sou eu. Trouxe sua cama de viagem."
Não importava que ele mal ouvisse. Eu precisava falar.
A veterinária permitiu que eu me sentasse perto dele. Estendi a manta sem fazer movimentos bruscos. Bruno cheirou o tecido, depois meu punho, e encostou o focinho na minha palma.
Foi quando chorei de verdade.
Sem vergonha, sem conseguir interromper. A cabeça pesada dele estava ali, quente, e não havia mais uma estrada entre nós.
Luca se ajoelhou ao meu lado. Bruno tentou virar na direção dele, soltando um lamento fino.
"Estou aqui", Luca falou. Acariciou o espaço entre os olhos do cão. "Você vai voltar comigo."
Eu nunca o ouvira usar aquela voz.
Daniel permaneceu perto da porta, tratando da identificação e dos papéis. A doutora Renata explicou que a equipe havia recebido um relato de agressividade, mas o comportamento e o exame inicial não correspondiam à descrição. Faltavam informações, e ela havia interrompido a sequência para tentar confirmar o histórico com a veterinária habitual.
"Ele está dolorido e muito assustado. Antes de qualquer decisão, eu precisava esclarecer a situação."
Luca agradeceu sem desviar a mão de Bruno.
"O que ele precisa agora?"
Ela explicou os cuidados da noite e combinou contato com a profissional que já o acompanhava. Não ofereceu uma recuperação milagrosa. Bruno era idoso, tinha limitações antigas e havia passado por um transporte inadequado para suas necessidades.
Mas podia voltar para casa.
Essa parte da explicação foi a única que precisei ouvir duas vezes.
"Hoje?"
Renata assentiu.
"Depois de concluirmos a avaliação e orientarmos vocês. Com atenção, repouso e acompanhamento."
Luca abaixou a cabeça por um segundo. Quando voltou a me olhar, seus olhos estavam úmidos.
Fingi não perceber. Pareceu-me uma forma de gentileza.
Enquanto ele conversava com a veterinária, uma técnica trouxe água para mim. Só então notei que minha mão estava marcada por meia-lua, onde minhas próprias unhas haviam apertado a pele.
Luca viu também.
"Seu ombro piorou?"
"Não sei. Ainda não tive tempo de prestar atenção."
Ele me olhou com uma severidade quase íntima.
"Agora vai prestar. Não vou levar dois pacientes para casa e fingir que só um precisa descansar."
Dei uma risada curta, quebrada pelo choro.
"Bruno vai gostar de saber que estamos dividindo a categoria."
"Bruno costuma obedecer mais."
Como se quisesse desmenti-lo, o cão tentou escorregar da superfície para seguir Daniel até a porta. Nós dois nos movemos ao mesmo tempo.
"Está vendo?", falei. "Ele também não gosta de esperar."
Luca me olhou, e o canto de sua boca se levantou. Foi pequeno, mas reconhecível. O primeiro sorriso daquela noite não era para os convidados.
Quando chegou a hora de sair, um funcionário ofereceu uma maca. Luca ajudou a acomodar Bruno para não forçar suas pernas, depois o ergueu com apoio e cuidado, seguindo a orientação da equipe.
A imagem ficou comigo: o homem que fizera uma sala inteira se calar carregando um cachorro velho contra a camisa de festa.
Eu recolhi a manta e caminhei ao lado. No estacionamento, Daniel havia preparado o banco traseiro. Luca entrou primeiro com Bruno, e eu me sentei na outra ponta.
O cão acabou com a cabeça nas minhas pernas.
"Pode deixar", falei quando Luca tentou ajeitá-lo.
"Seu ombro."
"Ele não está em cima do ombro."
"Você está usando o braço para segurá-lo."
Antes que eu encontrasse outra objeção, ele acomodou a própria mão sob o peito de Bruno, sustentando parte do peso. Seu antebraço ficou junto à minha coxa.
Eu podia sentir o calor através do tecido.
Pela primeira vez desde o jantar, lembrei que estava sozinha no banco traseiro com Luca Moretti. Não era apenas meu patrão dando ordens. Eu sabia agora como ele segurava algo frágil.
"Obrigada por vir", murmurei.
Ele me encarou.
"Você agradeceu à pessoa errada."
"O senhor poderia ter acreditado nela."
Luca olhou para a cabeça de Bruno.
"Eu devia ter percebido antes. Ela não começou a tratar as pessoas assim hoje."
Não tentei absolvê-lo. Havia coisas que eu ouvira na cozinha, pequenas humilhações que ninguém levava adiante porque pareciam inúteis de repetir.
"As pessoas mudam de voz quando o senhor entra", falei.
Ele absorveu a frase em silêncio.
No portão da propriedade, o guarda se afastou assim que reconheceu o carro. As janelas do andar térreo continuavam acesas. O jantar havia acabado, e a casa parecia grande demais sem os convidados.
Dona Célia esperava na entrada com uma cama limpa. Ao ver Bruno, apertou os lábios e levou a mão aos olhos.
"Graças a Deus. Venha, meu querido. Já está tudo pronto."
Montamos o lugar dele no escritório. Assim que Luca tentou se afastar, Bruno ergueu a cabeça. Quando eu dei um passo para a porta, tentou levantar também.
Voltei e me agachei ao lado.
"Eu sei. Hoje foi muita coisa."
Luca ficou diante de mim, com a gravata solta e os punhos da camisa dobrados. Havia pelos dourados na roupa escura.
"Elisa, pode ficar esta noite?"
Abri a boca para responder como uma funcionária, perguntando a que horas deveria começar. Ele pareceu reconhecer isso antes de mim.
"Célia prepara um quarto. Você não vai trabalhar. Só achei que ele conseguiria dormir se soubesse que você está aqui."
Bruno apoiou o focinho no meu joelho.
Olhei para o homem ajoelhado do outro lado da cama.
"Preciso avisar minha mãe."
Luca assentiu.
"Diga a ela que você também vai descansar. Vou tentar fazer essa parte acontecer."
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