"Na Noite do Noivado Dele, o Mafioso Viu Minhas Feridas" Capítulo 3
Antes que seja tarde
"Eu vou com o senhor."
Luca desligou depois de pedir que Daniel impedisse qualquer novo deslocamento de Bruno e obtivesse a documentação completa.
"Você precisa descansar."
"Ele quase não ouve. Se alguém tentar puxá-lo, vai ficar mais assustado. Conheço o jeito de fazê-lo levantar."
Luca me observou. Não discuti mais. Havia oferecido uma razão que ele podia avaliar.
"Leve o casaco. E sente no carro enquanto resolvermos a saída."
"Precisamos da manta."
Ele dobrou o tecido.
"Eu levo."
Na porta do escritório, encontramos Vanessa. A expressão preocupada que ela vestira no jantar sumiu quando me viu ao lado dele.
"O que ela contou?"
Luca permaneceu entre nós.
"Você assinou um documento entregando meu cachorro?"
"Era temporário. Eu já disse."
"Então por que declarou que ele atacou uma funcionária?"
Vanessa olhou para mim.
"Você está satisfeita? Criou exatamente a confusão que queria."
Minha primeira reação foi baixar a cabeça. O movimento começou, conhecido, antes que eu o interrompesse.
"Bruno não me atacou. A senhora me puxou pelo uniforme. Eu bati no trinco quando caí."
Ela soltou uma risada curta.
"Agora vai dizer que eu fiz isso de propósito? Luca, olhe para mim. Você me conhece."
Ele não se moveu.
"É o que estou tentando decidir."
Pela passagem aberta para a sala de jantar, vi um casal parado. Dona Célia falava com outros convidados. O jantar já não podia ser recuperado, mas Vanessa parecia agarrada à possibilidade de recolocar todos em seus lugares.
"Vamos conversar em particular", pediu, tocando o braço dele.
Luca afastou a mão dela.
"Você enviou Bruno para ser abandonado e usou meu nome. Feriu Elisa quando ela tentou impedir. Agora quer que eu aceite que tudo não passou de um inconveniente."
"É um cachorro velho. Não pode deixar que um cachorro e uma empregada decidam nosso futuro."
A frase saiu mais alta do que ela pretendia.
Ninguém no corredor fingiu não ouvir.
Luca baixou os olhos para o anel dela.
"Não haverá casamento."
Vanessa empalideceu.
Eu também parei de respirar por um instante. Não havia imaginado aquilo quando pedira para manter meu emprego. Meu desejo era muito menor: que Bruno não passasse a noite com medo, que eu pudesse pagar as compras de sábado.
"Você está nervoso", ela disse. "Amanhã vai se arrepender de ter falado isso na frente dela."
"Amanhã meus funcionários vão organizar a retirada dos seus pertences. Hoje você sai desta casa."
"Por causa dela?"
"Por causa do que você fez."
Ele chamou um segurança e pediu que acompanhasse Vanessa até o carro. Não houve gritos. A autoridade dele tinha um peso que tornava desnecessário qualquer espetáculo.
Mesmo assim, quando ela passou por mim, sussurrou:
"Ele vai cansar de bancar seu salvador."
Luca ouviu.
"Não fale mais com Elisa."
Vanessa abriu a boca, mas viu o rosto dele e continuou andando.
Saímos pela entrada lateral. A noite estava fria para a época do ano, e o tecido do paletó aqueceu minhas pernas assim que sentei no banco traseiro.
Luca se acomodou ao meu lado. Daniel ia à frente, falando com alguém pelo telefone. O portão se abriu antes que o carro chegasse até ele.
Eu acompanhava as luzes da estrada quando Luca recebeu uma cópia dos registros. Vi a expressão dele mudar.
"O que foi?"
Ele não respondeu de imediato. Isso me assustou mais.
"Por favor, não esconda de mim."
Ele virou a tela na minha direção.
Havia uma solicitação de avaliação para eutanásia, apresentada como pedido do responsável. Uma observação repetia que Bruno era agressivo e não deveria ser devolvido a empregados da família.
"Mas ele não..."
Minha garganta fechou.
Luca guardou o telefone e segurou minha mão boa. O gesto foi firme o bastante para me manter naquele banco, dentro daquele carro, em vez de me perder nas possibilidades.
"Daniel está falando com a equipe. Vamos encontrá-lo."
"Eu devia ter conseguido ligar antes."
"Você tentou. Agora estamos indo buscá-lo."
Daniel informou o nome de uma clínica em outra cidade da região. A entidade receptora havia encaminhado Bruno para lá com os documentos recebidos. A equipe noturna estava sendo contatada.
Perguntei quanto faltava. O motorista respondeu, e me concentrei no número como se pudesse reduzi-lo olhando pela janela.
Luca não soltou minha mão.
Depois de alguns quilômetros, ele perguntou:
"Você cuida dele todos os dias?"
"Quando termino a lavanderia. Às vezes ele fica esperando na porta."
"Eu não sabia."
"Ele gosta do barulho da máquina. Acho que sente a vibração no chão."
Luca olhou para a manta no colo.
"Minha mãe costurava na sala ao lado. Bruno dormia perto do pedal."
A voz dele tinha perdido a dureza do corredor.
Contei que, nas primeiras semanas depois da morte dela, eu encontrava Bruno deitado diante do antigo quarto. Era preciso me sentar ao lado por algum tempo antes que aceitasse voltar comigo.
"Por que ninguém me contou?"
Eu não soube tornar a resposta menos triste.
"O senhor também parava diante daquela porta."
Ele virou o rosto para a janela.
Pensei que tivesse ido longe demais. Então o polegar dele se moveu sobre meus dedos.
"Eu ainda não consegui mexer em nada lá dentro."
"Não precisa fazer isso hoje."
Ele assentiu uma vez.
O telefone de Daniel tocou. Ficamos em silêncio enquanto ele escutava.
"Entendi. Estamos chegando. Peça que o veterinário responsável aguarde."
Ele se virou parcialmente.
"Vanessa ligou para antecipar o pedido. Estava previsto para amanhã. Ela insistiu que fosse resolvido hoje."
Luca se inclinou para a frente.
"Diga que ninguém faz nada até eu chegar."
A clínica apareceu no fim de uma rua iluminada, com uma porta de vidro e um estacionamento quase vazio. Luca desceu primeiro e me ajudou a sair. Eu segurava a manta contra o peito.
Na recepção, uma mulher levantou os olhos do computador.
"Sou Luca Moretti. Vim buscar Bruno."
Ela reconheceu o nome imediatamente.
"Já avisaram que o senhor estava a caminho. O animal foi levado para a área de procedimentos."
Senti a manta escorregar nos meus braços.
"Há quanto tempo?", perguntei.
A mulher olhou para o corredor atrás de si.
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