"Na Noite do Noivado Dele, o Mafioso Viu Minhas Feridas" Capítulo 2
A manta azul
"Não sei o endereço."
Minha resposta saiu baixa, mas Luca ouviu.
"Você viu quem o levou?"
Vanessa se levantou.
"Querido, podemos conversar sobre isso depois? Há pessoas esperando..."
"Daniel."
O homem que estava junto à entrada deu um passo à frente. Aos quarenta e poucos anos, ele tinha o tipo de expressão que não mudava nem quando os outros começavam a perder a compostura.
"Descubra onde está Bruno. Agora."
Luca se voltou para mim.
"Primeiro, seu ferimento. Depois conversamos."
Dona Célia me levou ao escritório. Eu costumava entrar ali para tirar pó e recolher xícaras. Nunca havia me sentado no sofá de couro, muito menos com o paletó do dono da casa sobre os joelhos.
Quando ela me ajudou a tirar o uniforme, fez um som indignado.
"Isso não aconteceu porque você esbarrou numa porta."
Eu fixei os olhos na parede.
"Preciso falar com o senhor Moretti."
"Vai falar. Mas não vai continuar sangrando enquanto isso."
O doutor Henrique chegou pouco depois. Limpou a escoriação, examinou meu ombro e perguntou se eu havia batido a cabeça. Respondi às perguntas enquanto dona Célia segurava minha mão.
Eu me sentia ridícula por precisar daquilo. Ela não pareceu achar.
"Aperte se arder", disse.
Apertei.
Não houve uma cena heroica em que eu suportava tudo sem piscar. O antisséptico ardeu, minhas pernas tremeram e eu precisei de um minuto antes de conseguir vestir a blusa larga que Célia buscou.
O médico orientou repouso, explicou os cuidados e deixou as recomendações por escrito. Depois, Célia recolheu o uniforme para guardá-lo num saco limpo.
"Não jogue fora", pedi.
Ela me olhou por um instante.
"Não vou jogar."
Quando Luca entrou, eu estava na beirada do sofá. Havia soltado o cabelo para evitar que os fios prendessem no curativo. Sem o avental e o coque apertado, senti-me mais exposta do que estivera no jantar.
Ele parou à porta.
"Posso entrar?"
Quase respondi que o escritório era dele. Em vez disso, assenti.
Luca fechou a porta. A movimentação do jantar ficou distante. Não havia Vanessa nem convidados. Só uma luminária acesa, o cheiro do remédio e um homem que eu ainda não sabia se podia ajudar sem destruir minha vida.
"Amanhã eu posso voltar?", perguntei.
Ele franziu a testa.
"Ao trabalho?"
"Minha mãe está se recuperando de uma cirurgia. Não posso ficar sem salário."
Luca puxou uma cadeira, mas não se sentou perto demais.
"Você continua empregada. Seu salário continua o mesmo. Seu tratamento não será descontado de nada."
Passei o polegar pela costura da calça emprestada.
"E se a sua noiva quiser me mandar embora?"
"Vanessa não decide mais nada sobre você nesta casa."
Olhei para ele.
Não sorriu para tornar a promessa mais fácil de ouvir. Esperou até que eu parecesse compreendê-la.
"Ela ameaçou você?"
"Disse que minha mãe teria que encontrar outro jeito de pagar as contas."
A mandíbula dele se moveu. Foi a única reação antes de perguntar:
"Isso foi antes ou depois de você se machucar?"
"Depois."
Fiquei em pé devagar e fui até a sacola que Célia deixara junto à porta. A manta azul estava dobrada dentro dela, ao lado do papel que eu recolhera do chão.
Quando voltei, Luca já olhava para o tecido.
"Onde você encontrou isso?"
"Ela mandou esvaziar o canil. Colocaram as coisas perto dos sacos de descarte. Não consegui deixar a manta lá."
Ele a recebeu com as duas mãos.
Havia uma letra B torta bordada num canto. Durante meses, eu a tomara por um acabamento caseiro sem importância. Agora vi Luca passar o dedo sobre a linha como se tocasse algo que podia desaparecer.
"Minha mãe fez isso quando ele era filhote. Reclamava que os pelos ficavam presos na máquina de costura. Mesmo assim, lavava a manta toda semana."
Foi a primeira história que ouvi dele sobre ela.
"Bruno dorme melhor com esse lado para cima", falei, apontando a parte mais gasta. "Não sei por quê."
"Porque minha mãe colocava assim."
Ele ergueu os olhos.
"Conte desde o começo, Elisa. Não precisa proteger ninguém nesta sala."
Sentei novamente.
Contei sobre a van que chegara pouco depois das quatro, o transportador com uma caixa grande e Bruno encolhido na cama. Contei que perguntei pelos remédios e pedi que esperassem o dono voltar.
"Vanessa disse que o senhor havia autorizado. Mas Bruno tinha consulta marcada, e eu sabia que o senhor não o mandaria embora sem separar a medicação. Pedi para falar com Daniel."
"E ela?"
"Mandou que eu abrisse o portão de serviço. Eu disse que não ia abrir sem confirmar."
Eu via de novo a mão fechando no tecido, o puxão inesperado, a quina do trinco. Respirei até conseguir prosseguir.
"Ela me puxou para trás. O vestido rasgou. Bati no portão e caí. O homem levou Bruno enquanto eu tentava levantar."
Luca não me interrompeu para perguntar por que eu não fizera mais. Isso me permitiu contar o pior.
"Ele tentou voltar. Não conseguia firmar as patas, mas tentou sair da caixa quando me ouviu chamar."
A voz falhou.
"Eu não consegui segurá-lo."
Luca apoiou os antebraços nos joelhos.
"Você estava ferida e sozinha. Não devia ter precisado enfrentar aquilo."
Enxuguei o rosto com o lenço que ele me entregou.
"Este papel caiu da pasta do motorista. Eu só vi depois que a van saiu. Tem um número. Tentei ligar do meu celular, mas caiu numa gravação."
Ele recebeu a via de transporte. Fotografou o cabeçalho e enviou a Daniel.
"Isso ajuda. Obrigado por guardar."
Pela primeira vez naquela noite, minhas mãos pararam de tremer.
O telefone tocou poucos minutos depois. Luca colocou no viva-voz quando expliquei que precisava ouvir.
"Localizei a empresa", Daniel disse. "Não foi hospedagem. O transporte terminou numa entidade que recebe animais entregues pelos responsáveis."
Luca ficou imóvel.
"Quem assinou?"
"Vanessa. Usou seu nome como titular e apresentou uma autorização."
A manta azul cedeu entre os dedos dele.
"Quero falar com quem recebeu Bruno."
"Já estou providenciando. Há outra coisa. No registro consta que o animal é agressivo."
Eu me levantei.
"Não é verdade."
Daniel fez uma pausa.
"Disseram que ele feriu uma funcionária ao atacar."
Luca olhou para o curativo que aparecia junto à gola da minha blusa.
Compreendi antes que alguém precisasse explicar.
Vanessa não havia apenas escondido o que fizera comigo.
Havia transformado meu ferimento numa acusação contra Bruno.
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