"Na Noite do Noivado Dele, o Mafioso Viu Minhas Feridas" Capítulo 1
Não me peça para virar
"Vire de costas, Elisa. Não é educado sair andando desse jeito."
Vanessa sorriu ao dizer aquilo, e duas mulheres à sua direita sorriram também. Eu segurava a cesta de pães contra o avental, tentando calcular quantos passos faltavam até a porta.
Cinco. Talvez seis, se ninguém me chamasse.
"Ainda estou falando com você."
Parei. O alfinete mais alto havia se soltado. Senti a ponta roçar a pele e, logo abaixo, o tecido úmido colar no ferimento.
"Vou buscar o vinho que a senhora pediu."
"Depois. Primeiro, sirva meu pão."
Voltei à mesa. Vinte e seis pessoas celebravam o noivado de Luca Moretti sob os lustres da casa onde eu trabalhava havia onze meses. Eu conhecia o lugar de cada taça, a temperatura do vinho e o nome dos convidados que não comiam manteiga.
Naquela noite, não conseguia levantar o braço esquerdo.
Inclinei a cesta com a mão direita. Uma fisgada atravessou minhas costas. Dois pães caíram na toalha, perto do prato de Vanessa.
Ela recuou a cadeira.
"Meu Deus, nem isso você consegue fazer direito?"
"Desculpe. Eu já recolho."
"Com essas mãos? Você passou a tarde inteira no canil."
Meu rosto queimou. Um convidado olhou para minhas unhas, curtas e limpas. Eu as havia esfregado duas vezes antes do jantar.
Estendi a mão para apanhar o pão. O tecido puxou outra vez.
"Elisa."
A voz veio da cabeceira.
Luca Moretti havia pousado os talheres. Não falou alto, mas os comentários ao redor da mesa cessaram. Ele usava um terno escuro e estava sentado ao lado da mulher que, naquela tarde, me arrastara pelo uniforme.
"Fique em pé."
Endireitei o corpo com cuidado.
"O senhor precisa de alguma coisa?"
Ele olhou para meu ombro.
"Você está sangrando."
Antes que eu respondesse, Vanessa deu uma risadinha.
"Ela prendeu o uniforme no portão do canil. Uma confusão por nada."
Luca virou o rosto para a noiva.
"Eu perguntei a ela."
O silêncio ficou diferente. Vanessa levou a taça à boca, sem beber.
"Só estou explicando, querido."
Eu poderia ter falado. Bastava uma frase. Mas minha mãe estava em casa contando comprimidos para não precisar comprar outra caixa naquela semana, e meu aluguel venceria na sexta-feira. A advertência de Vanessa ainda parecia dita ao meu ouvido: se abrisse a boca, não voltaria a trabalhar naquela casa.
Luca se levantou.
Eu nunca o vira interromper um jantar. Já o vira dispensar homens com um movimento de cabeça, receber telefonemas que mudavam a expressão dos seguranças e atravessar uma sala enquanto todos procuravam não estar em seu caminho.
Naquela noite, ele caminhou até mim.
"Posso ver onde você se machucou?"
A pergunta quase me desarmou.
Olhei para Vanessa. Foi rápido demais para disfarçar.
Luca percebeu.
"Olhe para mim, Elisa."
Obedeci.
"Não vou tocar no ferimento. Só preciso saber se você necessita de atendimento."
Afastei a cesta do corpo e virei um pouco o ombro. Senti o ar frio alcançar a abertura no vestido. Um dos alfinetes caiu no chão com um som minúsculo que, naquela sala, pareceu enorme.
Atrás de mim, alguém prendeu a respiração.
Luca tirou o paletó.
"O que está fazendo?", Vanessa perguntou.
Ele o colocou sobre meus ombros com uma delicadeza que eu não esperava de mãos daquele tamanho. A lã escura cobriu o rasgo até minha cintura.
"Há quanto tempo você está assim?"
"Desde a tarde."
"E serviu o jantar inteiro?"
Eu não sabia se era uma pergunta ou uma acusação dirigida a alguém que não estava no meu lugar.
"Achei que conseguiria terminar."
"É um arranhão", Vanessa interveio. "Ela está constrangendo os convidados sem necessidade."
Ele continuou olhando para mim.
"Dói quando você respira?"
"Não. Só quando levanto o braço."
Luca chamou dona Célia, que aguardava perto da porta. A governanta viu meu uniforme e levou a mão ao peito.
"Minha filha, por que você não me chamou?"
Eu havia tentado encontrá-la antes da chegada dos convidados. Depois, Vanessa me mandara voltar ao serviço. Agora, explicar parecia o mesmo que acusar.
"Achei que fosse melhorar."
Luca pegou a cesta das minhas mãos.
"Chame o doutor Henrique. Elisa não trabalha mais esta noite."
"Eu ainda preciso fechar a copa."
"Outra pessoa fecha."
Vanessa soltou a taça com força.
"Luca, não podemos parar o jantar toda vez que uma funcionária..."
Ele enfim se voltou para ela.
"Uma funcionária está ferida diante de você. Termine essa frase com cuidado."
Vanessa fechou a boca.
Eu senti vontade de chorar, o que me deixou furiosa comigo mesma. Aguentara horas sem derramar uma lágrima. Bastara alguém cobrir minhas costas para meus olhos começarem a arder.
Dona Célia me conduziu à porta. Segurei a manga dela.
"Meu pagamento não vai ser descontado, vai?"
Luca ainda estava perto o suficiente para ouvir.
"Não haverá desconto. Você vai receber o turno completo."
Assenti, porque minha voz havia desaparecido.
Uma das mulheres à mesa murmurou que Vanessa certamente não tinha visto a extensão do machucado. A desculpa oferecida pareceu devolver um pouco de cor ao rosto dela.
"Claro que não. Elisa sempre foi um pouco desastrada. Hoje inventou de ajudar com o Bruno e..."
Luca levantou a cabeça.
"O que aconteceu com Bruno?"
Meu pé parou no limiar.
Vanessa abriu aquele sorriso de anfitriã, bonito e cuidadosamente treinado.
"Nada. Eu o mandei para um lugar mais tranquilo até terminarem os preparativos do casamento. Você sabe como essa movimentação deixa o cachorro nervoso."
A mão de dona Célia apertou meu braço bom.
Eu conhecia o sono de Bruno. Conhecia o jeito como ele gemia ao se levantar, a pata que escorregava no piso liso, a pequena alegria com que reconhecia o cheiro do frango usado para esconder seu remédio.
Ele não precisava de um lugar mais tranquilo.
Precisava da própria cama.
Luca olhou para a noiva.
"Você tirou Bruno desta casa sem falar comigo?"
"Só por alguns dias."
Eu me virei antes de lembrar que não deveria chamar atenção.
Sob o paletó dele, minhas costas latejaram.
Luca encontrou meus olhos. Dessa vez, não tentou dirigir a pergunta a Vanessa.
"Elisa, você sabe para onde levaram meu cachorro?"
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