"Ela Me Jogou na Piscina. Uma Ligação Minha Calou a Festa" Capítulo 5

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O UNIFORME NA COZINHA

Na casa da mãe, Sofia não conseguiu abrir o pote de azeitonas.

Tentou uma vez, sentiu o ombro e soltou um palavrão baixo.

Lúcia tirou o vidro de suas mãos, bateu de leve na tampa e o abriu sem esforço.

"Continua convencida de que está ótima?"

"Eu disse que estava melhor."

"Disse as duas coisas. Eu ouvi."

Sofia sorriu e se sentou à mesa.

A casa ficava em Niterói, numa rua onde os vizinhos ainda chamavam uns aos outros pelo portão. Lúcia recusara a ideia de se mudar para um apartamento maior porque ali tinha sol na cozinha, suas plantas e uma senhora da casa ao lado que sabia a diferença entre visitar e aparecer para fiscalizar a vida dos outros.

Naquela noite, havia arroz no fogo e uma panela de frango com legumes.

Sofia tinha vindo sem avisar com antecedência. Precisava de um lugar onde ninguém a chamasse de presidente.

A mãe colocou um copo de água diante dela.

"Você comeu hoje?"

"Comi."

"O quê?"

Sofia tentou se lembrar.

"Isso é uma investigação?"

"Só quando a resposta demora."

Lúcia trouxe um prato e não insistiu. Esperou que a filha desse as primeiras garfadas antes de tocar no assunto.

"Beatriz me ligou para dizer que você estava acompanhada naquela noite. Depois esperei você querer contar."

Sofia mexeu no arroz.

"Eu não queria que você ficasse preocupada."

"Isso não costuma funcionar. Só fico preocupada sem informação."

A filha deixou o garfo sobre o prato.

Tentou contar de forma organizada. O serviço, Patrícia, o empurrão, a escada. A mãe ouviu sem interromper, embora sua mão tivesse parado sobre o pano de prato.

Sofia chegou ao momento em que um convidado reclamara do chão molhado.

Então não conseguiu continuar.

Baixou o rosto, surpresa com o choro que vinha depois de tantos dias de reuniões e respostas firmes.

Lúcia puxou uma cadeira para perto.

"Eu fiquei com vergonha", Sofia disse. "Sei que não devia. Mas fiquei. Não tinha onde colocar as mãos, a roupa estava colada, e eles continuavam olhando."

A mãe segurou sua mão esquerda.

"Você não precisa sentir a coisa certa na hora certa para ter razão."

Sofia limpou o nariz com um guardanapo.

"Quando saí da água, lembrei do pai."

Lúcia assentiu antes mesmo que ela explicasse.

"A camisa com vinho."

Por muitos anos, Sofia pensara naquela noite como uma imagem isolada. O pai na cozinha, os botões abertos, uma toalha sobre os ombros. Agora se lembrava também do sapato encostado na porta, que ele tirara para não sujar o chão que a mãe acabara de limpar.

Paulo trabalhava na manutenção de um hotel e fazia serviços extras quando surgia uma recepção. Naquela ocasião, um convidado o chamara para consertar uma porta e, incomodado com a demora, virara uma taça em seu peito.

Sofia ouvira pedaços da conversa dos pais.

Perguntara por que ele não tinha feito o mesmo.

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Paulo respondera que precisava do trabalho.

"Eu fiquei com raiva dele", Sofia confessou. "Naquela noite. Achei que tinha aceitado porque não era corajoso."

"Você era uma criança."

"Eu nunca disse que pensava isso. Mas pensei."

Lúcia passou o polegar sobre os dedos dela.

"Seu pai também ficou com raiva de si mesmo. Não precisava. Mas ficou."

O ruído da panela preenchia a cozinha.

"Eu achei que, depois de tudo que mudou na minha vida, ninguém conseguiria me fazer sentir daquele jeito", Sofia disse.

"Dinheiro não impede uma pessoa de machucar você. Às vezes só dá mais caminhos para reagir."

Sofia olhou para a estante pequena onde a mãe guardava fotografias. Gabriel aparecia numa delas, ao lado de Paulo, os dois jovens demais para o afastamento que viria depois.

O tio não tinha chegado a tempo de se reconciliar com o irmão. Retomara contato quando Sofia já trabalhava nos fins de semana e Lúcia somava despesas numa caderneta.

Sua aproximação começara desconfortável, com visitas curtas e presentes que a mãe devolvera. Só melhorara quando ele parara de tentar resolver a culpa com dinheiro e aprendera a sentar à mesa.

Sofia tinha herdado muito dele. A maneira de ler os números, a teimosia e uma parte da empresa que agora trazia responsabilidades que não cabiam nas fotografias.

"Tem gente que pode perder o emprego", disse à mãe. "Se o grupo cair. Pessoas que não estavam naquela festa."

"Você tem como evitar?"

"Talvez algumas perdas. Não todas. Ainda não sei."

Lúcia soltou a mão dela para servir mais comida.

"Então descubra o que consegue fazer. Você não precisa salvar todo mundo para não abandonar quem está ao seu alcance."

"Às vezes eu só quero que ele sinta o que fez."

"Eu também quero. Sou sua mãe, não uma santa."

Sofia soltou uma risada molhada.

Lúcia empurrou a travessa para o centro da mesa.

"Só não deixe ele escolher o que você vai fazer com o resto da sua vida. Já tomou uma noite sua."

Mais tarde, enquanto lavavam a louça, Sofia recebeu uma mensagem de Júlia.

A entrevista tinha dado certo. Haveria duas diárias, começando na sexta-feira. Ela estava nervosa porque a coordenadora parecia rigorosa.

Sofia respondeu que rigor e humilhação não eram a mesma coisa, e que desejava um bom primeiro dia.

Guardou o telefone antes de começar a explicar mais do que precisava.

A mãe lhe entregou um prato para secar.

"Vai dormir aqui?"

Sofia olhou para a janela escura e para o reflexo das duas na cozinha.

"Se você tiver uma camiseta que não exija levantar muito o braço."

"Tenho uma horrível."

"Serve."

Na manhã seguinte, tomou café com o cabelo ainda úmido e fez a ligação que vinha adiando.

Pediu à equipe que separasse os negócios viáveis do grupo Valença dos projetos que só consumiam recursos.

Precisava saber o que existia além da imagem de Renato.

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