"Ela Me Jogou na Piscina. Uma Ligação Minha Calou a Festa" Capítulo 3

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A MOÇA DA TOALHA

Júlia demorou a atender.

Quando falou, Sofia ouviu o barulho de um ônibus e uma respiração curta, interrompida pelo esforço de manter a voz firme.

"Eu não devia ter mandado mensagem. A senhora já tem problema demais."

"Você está onde?"

"No ponto. Eu ia para outra diária, mas trocaram meu nome também. Acho melhor eu ir direto ao buffet conversar."

Sofia afastou o lençol.

"Você quer conversar comigo antes? Posso encontrar você num lugar perto daí."

"Não quero parecer que estou pedindo emprego."

"Você perguntou se fez alguma coisa errada. Eu quero responder olhando para você."

Encontraram-se numa padaria perto da rodoviária, uma hora depois. Júlia chegou com a mesma mochila que levara à festa. Tinha os olhos inchados e o cuidado de quem calcula o preço antes de aceitar um café.

Sofia pediu pão com manteiga para as duas.

"Eu já comi", Júlia disse.

Seu estômago fez um ruído baixo quase ao mesmo tempo.

Sofia fingiu procurar o celular enquanto a atendente anotava o pedido.

"Eu ainda não. Me faz companhia."

Júlia aceitou, olhando para as próprias mãos.

No telefone, mostrou a conversa com o supervisor. As primeiras mensagens tratavam do próximo fim de semana. Depois vinha a alteração: o nome dela deveria sair das escalas relacionadas ao grupo Valença.

"Ele ligou depois", explicou. "Disse que eu me envolvi numa coisa que não era minha."

"Você anotou o horário?"

"Está aqui no registro. Mas não gravei. Nem pensei nisso."

"Você não tinha obrigação de pensar."

Júlia partiu o pão em pedaços pequenos.

"Eu preciso das diárias de sábado. Minha mãe faz tratamento e não está trabalhando. Eu consigo pagar o aluguel com meu salário da semana, mas o resto depende dos eventos."

Sofia sentiu o impulso de oferecer dinheiro e resolver pelo menos aquela manhã. Conseguiu contê-lo antes de transformar a conversa numa decisão tomada sobre a vida de outra pessoa.

"O que você precisa primeiro?"

Júlia pareceu estranhar a pergunta.

"Saber se ainda posso trabalhar no buffet sem ficar marcada."

"Vou pedir que Beatriz ajude você a esclarecer isso. Se quiser, ela pode acompanhar a conversa. E conheço uma equipe que está contratando para dois eventos. Posso encaminhar seu contato, com sua autorização."

"Eles vão achar que precisam me contratar por sua causa?"

"Vou dizer que trabalhei com você e gostei do seu serviço. O restante vocês combinam."

Júlia considerou aquilo, então assentiu.

"Pode passar."

A primeira coisa que perguntou em seguida foi se o braço de Sofia estava melhor.

Sofia quase sorriu.

"Está. Obrigada por ter ficado comigo."

"Eu fiquei com medo."

"Eu também."

Júlia finalmente ergueu os olhos.

"Você não parecia."

"Eu estava tentando sair dali. Depois fiquei com medo, raiva e frio ao mesmo tempo. Foi uma combinação péssima."

A moça soltou uma risada breve. O som desfez um pouco da tensão entre elas.

Quando a conta chegou, Júlia tentou pagar sua parte. Sofia apontou para o pão que tinha pedido.

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"Hoje eu convidei. Na próxima, você escolhe o lugar."

Não prometeu que ninguém jamais voltaria a prejudicá-la. Prometeu retornar naquele dia com informações concretas.

E retornou.

Beatriz falou com Júlia à tarde. A direção do buffet, confrontada com a mudança nas escalas, marcou uma reunião e informou que investigaria a atuação do supervisor. As demais diárias de Júlia foram confirmadas por escrito.

Os eventos do grupo Valença continuaram cancelados para ela.

Sofia não chamou aquilo de solução. Era apenas o primeiro espaço recuperado.

Na segunda-feira, de volta ao escritório no Rio, recebeu o material que a equipe de análise vinha reunindo desde antes da festa.

Havia fornecedores esperando pagamento enquanto Renato contratava novas recepções. Relatos de empregados retirados de postos depois de reclamar. Diferenças entre os documentos entregues à equipe de investimento e informações obtidas nas verificações.

Sofia passou a manhã lendo.

O ombro ainda doía ao alcançar papéis no outro lado da mesa. A dor a irritava, mas também impedia que a lembrança da piscina se tornasse uma história distante, organizada e fácil de contar.

Perto do meio-dia, abriu a gaveta e encontrou uma caneta de Gabriel.

O tio a presenteava com objetos úteis, quase sempre acompanhados de alguma observação inconveniente. Aquela viera no dia em que ela conduzira sua primeira negociação sozinha.

Ele perguntara quantas vezes ela tinha dito sim apenas para não incomodar a sala.

Sofia fechou a gaveta com um sorriso triste.

Não nascera sabendo ocupar aquela cadeira. Depois da morte do pai, trabalhara em hotéis, estudara com bolsa e reencontrara o tio, afastado da família por anos. Gabriel lhe dera oportunidades e, mais tarde, uma participação importante na empresa.

A herança abrira a porta. Os anos seguintes tinham sido cheios de perguntas às quais ela não sabia responder, erros corrigidos tarde e reuniões em que precisara aprender a não pedir desculpas por discordar.

Naquela tarde, discordaria de alguém que contava com sua vontade de ser razoável.

Beatriz entrou pouco antes das três.

"Renato chegou com o advogado. Você quer que eu conduza?"

"A parte dos documentos, sim. A primeira pergunta eu faço."

Na sala de reunião, Renato se levantou depressa. Olhou para o ombro dela, agora coberto por um blazer claro.

"Espero que esteja melhor. Lamentei muito saber..."

"Eu contei ao senhor naquela noite."

Ele interrompeu o gesto de puxar a cadeira para ela.

Sofia se sentou e colocou sobre a mesa a impressão da mensagem recebida por Júlia. Ao lado, deixou os relatórios preparados antes da recepção.

"Vamos começar pela funcionária que me trouxe a toalha. Por que ela perdeu o trabalho nos seus eventos?"

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