"Duas Pulseiras de Prata — e a Mãe Que Disseram Estar Morta" Capítulo 10

PUBLICIDADE

UM LUGAR À MESA

No segundo mês, Caio ouviu Elisa discutir com uma funcionária porque queria usar uma blusa que ainda estava no varal.

A discussão durou menos de um minuto e acabou com as duas rindo. Ele permaneceu na porta, espantado.

Sua mãe tinha preferências que não incluíam o filho. Podia ser impaciente, gostar de uma cor, reclamar de uma manga apertada. Caio começou a se sentir menos responsável por cada expressão no rosto dela.

Foi naquela visita que Vítor voltou a acompanhá-los.

Não entrou com um presente. Trouxe a bolsa de Rosa e uma caixa de fotografias que ela pedira. Ao estacionar, avisou que precisava atender uma ligação de trabalho e que ficaria dez minutos no jardim.

Rosa olhou para o relógio.

Ele voltou em oito.

Caio percebeu que ela tinha conferido.

As coisas entre os dois mudavam assim. Na primeira semana, Rosa mal falara com o pai na frente dele. Depois começara a pedir coisas práticas. Água, o carregador, a bolsa. Mais tarde, numa tarde em Campinas, Caio os ouvira discutir porque Vítor queria cancelar uma visita por causa da previsão de chuva.

"Você pode falar que está preocupado", ela dissera. "Mas não fala que eu não quero ir. Eu quero."

Vítor acabara telefonando para perguntar sobre o acesso coberto.

Foram mesmo assim.

Caio ainda não gostava de ficar sozinho com ele, mas já conseguia pedir que diminuísse o ar-condicionado sem achar que aquilo o deixava em dívida.

Na sala de Elisa, Rosa abriu a caixa de fotos.

Havia imagens das irmãs pequenas, de uma festa com um bolo torto, de Clara sentada no capô de um carro enquanto Elisa fingia empurrá-lo.

Caio pegou uma fotografia em que as duas usavam as pulseiras e roupas que pareciam ter sido escolhidas por outra pessoa.

Atrás, Clara havia escrito: Elisa diz que vai embora para muito longe. Eu disse que sempre vou encontrar ela.

Caio leu duas vezes.

"Ela escreveu isso?"

Vítor confirmou.

"Estava nas coisas que a Rosa escolheu trazer. Pode ficar com uma cópia. O original a gente guarda como vocês decidirem."

Elisa pediu a imagem.

Passou o dedo pelas duas meninas de braços dados e, por um momento, não falou nada.

Rosa encostou a cadeira na mesa. Caio ficou do outro lado. Nenhum dos dois precisou tentar preencher o silêncio.

Algumas semanas depois, Augusto pediu para vê-los.

O pedido chegou por Lurdes, que dessa vez não respondeu antes de conversar com Caio. Ele já havia falado com o avô duas vezes por telefone, conversas curtas em que Augusto perguntava da escola e não sabia o que fazer depois da resposta.

"Minha mãe quer?" Caio perguntou.

"Ela disse que aceita uma visita curta aqui em casa, no domingo. Com a equipe de apoio dela sabendo. Você não precisa ficar se não quiser."

Caio quis.

Não para confortar o velho. Queria ouvir o que ele diria sem um salão de festa em volta.

PUBLICIDADE

No domingo, a mesa de Lurdes tinha uma toalha passada e xícaras diferentes entre si. Elisa chegara mais cedo para passar a tarde, acompanhada por uma profissional da casa de cuidados. Rosa estava ao lado de Caio, tentando impedir que ele comesse os biscoitos antes da visita.

Augusto chegou com as mãos vazias.

Parou na entrada da cozinha.

"Minha filha."

Elisa ficou rígida na cadeira.

O velho percebeu.

"Elisa", corrigiu. "Obrigado por me receber."

Ela indicou a cadeira sem sorrir.

Vítor ficou na varanda. Caio preferiu que ele estivesse perto, mesmo sem saber explicar por quê.

Augusto demorou para pegar a xícara. Quando falou, não olhou só para a filha.

"Eu dizia que o Júlio queria nosso dinheiro. Nunca me dei ao trabalho de conversar com ele sem tentar provar isso."

Caio sentiu a mão fechar sobre o biscoito.

"Ele morreu sem me dar a chance de pedir desculpas. Não porque estivesse me negando essa chance. Porque eu desperdicei o tempo que tive."

Elisa manteve os olhos na mesa.

"Você também disse que eu ia pedir para voltar."

"Disse."

"Eu precisei da minha irmã. Não precisava que você aprovasse minha vida."

Augusto levou a xícara até a metade do caminho e a devolveu ao pires.

"Eu entendo."

Elisa ergueu os olhos.

"Agora você está ouvindo. Ainda não sei se entende."

O velho assentiu devagar.

Caio esperou que ele se defendesse. Que lembrasse o dinheiro gasto na família, as oportunidades oferecidas, qualquer uma das coisas que adultos costumavam usar para encerrar discussões.

Augusto perguntou se podia ouvir mais.

E ouviu.

A conversa durou pouco. Elisa cansou e pediu para parar. Ele se levantou sem tentar conseguir um abraço antes de ir embora.

Na porta, olhou para Caio.

"Sua avó disse que você gosta de carros."

"Eu gosto de desenhar carros. Não sei consertar."

"Eu também não."

Caio não esperava aquela resposta.

Augusto ajeitou a manga.

"Se um dia você quiser me mostrar um desenho, eu gostaria de ver."

"Eu vou pensar."

O velho aceitou.

Depois que ele saiu, Lurdes recolheu as xícaras. Elisa pediu que deixasse a dela. Ainda tinha café.

Caio se sentou ao lado da mãe.

"Você vai ver ele outra vez?"

"Talvez. Hoje eu não sei."

Ele gostou de ela não precisar responder depressa.

Naquela tarde, ajudou Lurdes a lavar a louça. Ela lavava, ele secava. Durante alguns minutos, falaram só de um pano que soltava fiapos.

Então a avó disse:

"Eu tenho medo de que você nunca mais confie em mim."

Caio olhou para o copo em sua mão.

"Eu também."

Lurdes encostou os dedos na borda da pia.

Ele colocou o copo no armário.

"Mas hoje a senhora perguntou antes de combinar a visita. Eu gostei."

A avó assentiu. Voltou a lavar sem transformar aquela frase numa absolvição.

Na varanda, Rosa chamava por ele. Tinha o celular na mão, aberto no anúncio do próximo jantar beneficente.

"Vamos todo mundo dessa vez?"

Caio olhou para a mãe, sentada perto da janela, e para Vítor, que esperava a resposta da filha sem pegar o telefone dela.

"Eu quero receber um convite com o meu nome", disse.

Rosa sorriu.

"Vou conferir se escrevem direito."

PUBLICIDADE

você pode gostar

Compartilhar Link

Copie o link abaixo para compartilhar com seus amigos: