"Duas Pulseiras de Prata — e a Mãe Que Disseram Estar Morta" Capítulo 9

PUBLICIDADE

DEPOIS QUE ELA VOLTOU

Na primeira chamada, Elisa perguntou se Caio tinha almoçado.

Ele disse que sim e contou do arroz queimado na escola. A mãe riu. Quatro minutos depois, perguntou outra vez se ele tinha almoçado.

Caio olhou para o relógio na parede.

"Já falei, mãe."

Elisa levou a mão à testa.

"Falou. Desculpa."

Ele se sentiu cruel.

"Era arroz. Estava ruim."

"Ah, o arroz queimado."

Ela sorriu, aliviada, e Caio passou a explicar o lance que havia feito na aula de educação física. Contou devagar, com medo de que a história desaparecesse antes do final.

Depois da ligação, ficou mal-humorado até a hora de dormir. Lurdes não perguntou por quê. Deixou um pedaço de bolo sobre a mesa e avisou que Neide passaria no sábado para acompanhá-los na visita.

Vítor havia organizado o transporte e, como Caio pedira, não iria daquela vez. Rosa mandara um desenho dobrado dentro de um envelope. Era uma bicicleta com duas meninas brigando para chegar primeiro.

Elisa riu quando viu.

"A Clara ia dizer que eu estava roubando."

Naquela manhã, conversaram quase uma hora. A mãe lembrou do nome de um vizinho, perguntou se a árvore de goiaba ainda existia e contou que Júlio detestava lavar a louça, mas lavava quando ela adormecia com o bebê no colo.

Caio quis ficar até o jantar.

No fim da visita seguinte, Elisa confundiu seu nome com o do pai.

Um homem sentado no banco ao lado ouviu e olhou para eles. Caio ficou com o rosto quente. Disse que precisava ir ao banheiro e demorou tanto que Helena bateu à porta para saber se estava bem.

Ele respondeu que estava.

Não estava, mas ainda não sabia dizer o que tinha dado errado.

Nas semanas seguintes, começou a anotar as coisas num caderno. Horários de ligação, histórias contadas, o nome de uma funcionária que a mãe gostava. No começo, achou que, se organizasse tudo direito, as confusões diminuiriam.

Quando Elisa esqueceu que ele havia feito onze anos, Caio escreveu a data de aniversário com letras enormes na primeira página.

Depois arrancou a folha.

Parecia uma bronca disfarçada de presente.

Em casa, Lurdes continuava tentando se aproximar. Certas tentativas davam certo. Outras faziam Caio se fechar mais.

Uma tarde, ela perguntou se ele queria guardar a carta da mãe no armário para não amassar.

"Eu sei onde ela está", respondeu.

Lurdes recolheu a mão.

"Você tem razão."

Ele viu a tristeza dela e quase entregou o envelope. Não entregou. A pasta ficou dentro de sua mochila, mesmo nos dias de aula.

Na quarta semana, uma ligação combinada não aconteceu.

Caio esperou no sofá. Aos dez minutos, pegou o telefone e conferiu a conexão. Aos vinte, mandou mensagem. Aos trinta, começou a andar pela sala.

Helena retornou pouco depois. Elisa tivera uma tarde difícil e adormecera antes do horário. Ela se desculpou por não ter avisado antes.

Caio disse que tudo bem.

PUBLICIDADE

Foi para o quarto e jogou o caderno contra a parede.

O barulho trouxe Lurdes até a porta.

"Ela esqueceu", ele falou.

"Disseram que ela estava cansada."

"Sempre tem uma coisa."

A avó não entrou.

"Você quer que eu ligue outra vez?"

"Eu quero que você pare de tentar consertar isso com uma ligação."

Lurdes segurou a maçaneta.

"Está bem. Vou ficar na cozinha."

Caio se sentou no chão, ao lado do caderno aberto. Uma página tinha dobrado. Ele a alisou com a palma da mão até a raiva dar lugar a um cansaço enorme.

Na visita seguinte, não levou o boletim nem o caderno.

Elisa percebeu.

"Você está bravo comigo."

Caio olhou para o jardim.

"Não."

A mãe esperou. Helena estava numa mesa distante, ajudando uma senhora com uma caixa de fotografias. Havia espaço para falar baixo sem que ninguém precisasse sair.

"Você pode ficar", Elisa disse.

Caio virou o rosto.

"Eu sei que posso ficar. Todo mundo fala isso. Só não adianta."

Ela apertou a mão na borda da cadeira.

"O que você queria que eu dissesse?"

A pergunta saiu sem defesa, e isso abriu alguma coisa nele.

"Que vai lembrar. Que vai estar lá na hora. Eu sei que você está doente, mas eu fico esperando mesmo assim."

Os olhos dela se encheram de lágrimas.

Caio passou a mão no rosto, furioso por estar chorando também.

"Eu achei que, depois de encontrar você, ia parar de sentir falta."

Elisa olhou para ele por muito tempo.

"Eu achei que ia saber como ser sua mãe assim que visse você. Mas às vezes eu lembro de um menino que cabe no meu colo e você está aqui, quase da minha altura. Eu não sei tudo que perdi."

Caio encostou os braços na mesa.

"Não quero que você chore porque eu falei."

"Eu sei. Estou chorando porque dói. Você não precisa tirar de volta."

Ele ficou quieto.

A mãe pegou um lenço. Dessa vez havia um pacote inteiro ao alcance dela.

"Posso te pedir uma coisa?"

Caio assentiu, desconfiado.

"Me conta uma coisa pequena de hoje. Eu quero conhecer você agora também."

Ele olhou para os próprios tênis.

"Meu colega perdeu uma aposta. Vai ter que deixar a gente escolher o corte de cabelo dele."

Elisa franziu a testa.

"Vai ficar muito feio?"

Caio começou a rir antes de responder.

"Provavelmente."

Conversaram sobre o cabelo do colega. Depois combinaram com Helena que as chamadas teriam confirmação antes, para Caio não esperar sem notícia se a mãe estivesse indisposta. O caderno voltou a ser uma ideia possível, mas ela quis escrever também.

Na primeira página, Elisa anotou: Caio gosta de matemática. Não gosta quando respondem por ele.

"Falta uma coisa", ele disse.

A mãe entregou a caneta.

Caio escreveu: Prefere o meio do bolo.

Na volta, encontrou Lurdes na cozinha. Ela cortava uma laranja em quatro partes, do jeito que ele gostava desde pequeno.

Caio pegou uma fatia.

"A senhora pode me contar mais uma história da minha mãe?"

A avó deixou a faca sobre o prato.

"Posso."

Ele sentou.

Ainda não sabia como confiar nela de novo. Mas queria ouvir a história, e, pela primeira vez em semanas, conseguiu pedir sem sentir que estava desistindo da própria raiva.

PUBLICIDADE

você pode gostar

Compartilhar Link

Copie o link abaixo para compartilhar com seus amigos: