"Duas Pulseiras de Prata — e a Mãe Que Disseram Estar Morta" Capítulo 8

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ELE JÁ SABIA

"Fui", Vítor respondeu.

Caio esperou.

O homem puxou uma cadeira e sentou. Ainda parecia alto demais, mesmo sentado. Caio odiou perceber isso.

"Foi depois da carta. Eu disse à Clara que iria primeiro para ver como estavam. Ela estava grávida da Rosa e vinha passando mal."

Rosa se aproximou da mesa.

"E você encontrou os dois?"

"Encontrei. A Elisa estava saindo para uma consulta. O Caio ficou com a Lurdes."

"Eu estava nessa casa?" Caio perguntou.

Lurdes respondeu:

"Estava dormindo no quarto."

Ele olhou para a avó. Seu quarto ainda tinha a mesma janela. A cama pequena havia sido trocada, mas ele conhecia o desenho no rodapé. Vítor estivera ali, a poucos passos, enquanto sua tia esperava notícias.

"O que falou para a Clara?"

Vítor apoiou as mãos abertas nos joelhos.

"Que não tinha encontrado a Elisa."

Rosa puxou ar de um jeito curto.

Caio não olhou para ela. Se olhasse, talvez perdesse a capacidade de fazer a próxima pergunta.

"E depois?"

"Depois eu continuei evitando o assunto. A Clara procurou por outros caminhos. Eu dizia que as informações antigas não levavam a lugar nenhum."

"Porque o senhor sabia que levavam."

Vítor assentiu.

Elisa apertou a mão contra a boca. Helena se aproximou, mas ela negou com a cabeça e continuou ouvindo.

"Eu tinha medo de que o Augusto descobrisse", Vítor disse. "E de que Clara se envolvesse outra vez numa briga que a machucava desde jovem. A Lurdes me disse que vocês estavam sendo cuidados. Eu me agarrei àquilo."

"Ela estava pedindo a irmã", Caio respondeu.

A própria voz parecia vir de outro menino. Um que sabia discutir com homens de camisa cara.

"Eu sei."

"Não. O senhor sabia. Naquela hora."

Vítor baixou os olhos.

Caio se levantou. A cadeira raspou no chão, e Elisa estremeceu. Ele a colocou no lugar com cuidado, mais bravo ainda por ter feito barulho perto dela.

"O senhor podia ter contado para a minha tia sem contar para o Augusto."

"Podia."

"Podia ter voltado depois que a Rosa nasceu."

"Podia."

"Então para de falar que estava com medo como se não tivesse outro jeito."

Vítor levou a mão ao rosto. Quando a abaixou, havia lágrimas nos olhos.

"Você tem razão. Eu escolhi o jeito que me dava menos trabalho e chamei de cuidado."

Caio queria sentir satisfação. Não sentiu.

A confissão não lhe devolvia uma festa de aniversário com a mãe. Não lhe dava uma lembrança da tia Clara. Só tornava mais nítido o tamanho do que faltava.

Elisa se voltou para Lurdes.

"Você sabia que ela me procurava?"

A avó segurou a própria bolsa.

"Sabia que ela queria notícias. Ele disse que ia resolver com a Clara. Eu devia ter ido atrás dela. Depois você piorou, o Caio ficou doente, eu fiquei com medo de perder o controle de tudo."

"E contou para ele que eu tinha morrido."

Lurdes começou a chorar.

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"Contei."

Caio olhou para a mãe. Esperava uma explosão. Elisa ficou em silêncio por tanto tempo que ele achou que ela tivesse esquecido a pergunta.

Então ela disse:

"Eu não consigo conversar sobre isso agora."

Helena ofereceu uma pausa. Elisa aceitou. Lurdes saiu com ela até o jardim, deixando a bolsa na cadeira, como se quisesse mostrar que voltaria.

Caio ficou junto da janela.

Vítor se voltou para a filha.

"Rosa, eu preciso te pedir desculpas."

Ela olhava para as próprias pernas.

"A mamãe sabia que o Caio existia?"

"Sabia que a Elisa tinha um menino."

"Ela queria conhecer ele?"

Vítor assentiu.

Rosa começou a chorar sem fazer som. Caio se aproximou, mas não tocou nela. Esperou.

"Você falou que a mamãe tinha ficado triste porque não encontrava a irmã. Eu lembro. Ela olhava aquelas fotos na cama."

Vítor fez um movimento para se abaixar junto da cadeira.

Rosa ergueu a mão.

"Agora não."

Ele parou.

Caio nunca tinha visto a prima pedir alguma coisa com tão pouca força. Nem o pai obedecer tão depressa.

"Eu quero voltar para casa", ela disse.

Elisa ergueu o rosto da poltrona.

"Rosa, você não precisa ficar por minha causa."

A menina olhou para ela.

"Não é por sua causa."

Caio procurou a mochila.

"Eu vou com você."

No mesmo instante, arrependeu-se. Sua mãe estava ali. Acabara de encontrá-la. Ir embora parecia repetir uma coisa terrível.

Elisa percebeu sua hesitação.

"Pode ir. A gente combina a próxima vez antes."

"Mas eu não quero deixar você sozinha."

Ela olhou para a cadeira vazia ao lado, depois para ele.

"Vou sentir saudade. E vou ficar cansada depois de hoje. As duas coisas podem acontecer."

Helena voltou e ajudou a acertar uma nova visita para o sábado da semana seguinte. Anotou também um horário de chamada. Caio guardou o papel na pasta, junto das cartas.

Na porta, abraçou a mãe outra vez.

Dessa vez soube onde pôr os braços.

Rosa se despediu com a mão. Elisa respondeu do mesmo jeito e pediu que ela trouxesse uma foto de Clara quando quisesse.

"Uma em que ela esteja fazendo careta", acrescentou.

Rosa limpou o rosto.

"Tenho várias."

Lurdes esperava junto do carro. Caio não pegou a mão dela para atravessar o estacionamento, como costumava fazer quando ela estava fraca. Caminhou perto o bastante para ajudar se precisasse, mas sem encostar.

No caminho, ninguém ligou o rádio.

Rosa ficou de costas para o pai o quanto a posição da cadeira permitia. Caio olhou pela janela até os olhos arderem.

Quando chegaram a Campinas, Vítor tirou sua mochila do porta-malas e a entregou sem tentar abraçá-lo.

"Eu vou cumprir os horários que combinamos", disse. "Se você quiser que outra pessoa leve vocês, a gente organiza."

Caio segurou as duas alças.

"Não promete coisa só porque eu estou olhando."

O homem recebeu a frase sem responder imediatamente.

"Você vai poder conferir."

Caio entrou em casa com Lurdes. Antes de fechar o portão, viu Rosa atrás do vidro.

Ela levantou dois dedos num aceno pequeno.

Ele fez o mesmo.

Ainda tinham um ao outro. Naquele dia, era a única coisa que não havia ficado mais difícil.

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