"Duas Pulseiras de Prata — e a Mãe Que Disseram Estar Morta" Capítulo 7
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ELA NÃO ERA A MINHA MÃE
"Essa é a Rosa", Caio disse. "Foi ela que me ajudou."
A prima avançou até a janela. Parou perto o suficiente para conversar sem precisar erguer a voz.
Elisa olhou para os cachos. Depois para o rosto dela.
Caio viu o sorriso da mãe surgir com uma facilidade que lhe doeu um pouco. Para reconhecê-lo, ela precisara do nome, da pulseira, de tempo. Com Rosa, alguma coisa parecera se abrir imediatamente.
"Você tem os olhos dela."
Rosa tocou o aro da cadeira.
"Todo mundo fala."
"Da Clara", Elisa completou, como se precisasse confirmar para si mesma.
Caio sentiu vergonha da pontada de ciúme. A mãe sabia que Rosa não era a irmã. Era só uma semelhança. Ainda assim, ele puxou sua cadeira mais perto.
Elisa reparou na outra pulseira.
"Ela deu para você."
"No meu aniversário de cinco anos. Precisou ajustar o fecho."
"Clara dizia que ia vender a dela quando fosse grande. Queria comprar uma bicicleta. Eu dizia que ia vender a minha também e comprar uma bicicleta melhor."
Rosa sorriu. Caio esperou que a história continuasse.
"Nenhuma das duas vendeu?" perguntou.
Elisa negou com a cabeça.
"Nossa mãe teria descoberto. Ela descobria tudo."
O sorriso dela diminuiu enquanto observava a letra dentro da pulseira.
"A Clara vem depois?"
Rosa parou de mexer no aro.
Lurdes se sentou na cadeira junto da parede. Caio olhou para Helena, esperando que ela soubesse o que dizer.
"Elisa", a profissional começou, "há algumas coisas da família que vocês ainda não conversaram."
A mãe levantou os olhos.
"Aconteceu alguma coisa?"
Rosa apertou as mãos.
"Minha mãe morreu. Faz quatro anos."
Caio viu o rosto de Elisa ficar vazio por um instante.
Ela olhou para Lurdes.
"Você sabia?"
A avó confirmou.
"Eu soube depois. Não sabia como te contar."
Elisa virou o rosto para a janela. A mão que segurava o boletim começou a tremer, e Caio recolheu o papel antes que caísse.
Ninguém falou durante alguns segundos.
"Eu passei tanto tempo pensando que ela ia aparecer brava comigo", Elisa disse. "Ela ficava brava quando eu demorava a responder."
Caio queria perguntar por que a tia também não a encontrara. Queria saber o que Vítor fizera com todos aqueles anos. Mas Rosa estava olhando para uma mancha no piso, e a mãe chorava de um jeito diferente de antes, sem tentar enxugar.
Ele guardou a pergunta.
"Ela ficou doente?" Elisa perguntou.
Rosa assentiu.
"Ficou. Meu pai pode contar melhor."
Caio saiu até a sala de espera. Vítor se levantou antes que ele dissesse qualquer coisa.
"Minha mãe quer saber da Clara."
O homem fechou os olhos brevemente.
Quando entraram, Rosa se moveu para junto da parede. Vítor falou baixo. Contou que Clara adoecera, que o tratamento não dera o resultado que esperavam e que a filha ficara com ela sempre que fora possível.
Caio ouviu sem saber onde colocar as mãos.
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Havia chegado querendo recuperar tudo. Agora entendia que alguém continuaria faltando, mesmo se todas as outras coisas dessem certo.
Elisa pediu uma fotografia recente da irmã. Vítor mostrou no celular. A mãe segurou o aparelho com as duas mãos, olhando por tanto tempo que a tela escureceu.
"Ela não ficou velha", murmurou.
Vítor desbloqueou a imagem outra vez.
Caio olhou para Rosa. A prima mantinha a cabeça baixa.
"Quer sair um pouco?" perguntou.
Ela assentiu imediatamente.
Foram para a varanda. Havia uma mesa de plástico, vasos de samambaia e duas cadeiras. Caio sentou numa delas, deixando espaço para Rosa ao lado.
A primeira coisa que ela fez foi limpar o rosto com a manga.
"Não fala que sente muito. Todo mundo fala isso quando não sabe o que falar."
Caio apoiou os cotovelos na mesa.
"Eu ia perguntar se você quer água."
"Quero."
Ele buscou dois copos. Quando voltou, Rosa olhava para o jardim.
"Sua mãe parece com a minha de perto também. Mas a mão é diferente. A da minha mãe tinha uma pinta."
Caio pensou nos dedos quentes sobre sua pulseira.
"Eu fiquei com ciúme de você", confessou.
Rosa virou o rosto.
"Por quê?"
"Porque ela olhou para você e lembrou da sua mãe. Para lembrar de mim demorou."
A prima passou o polegar pela borda do copo.
"Eu fiquei com inveja quando ela abraçou você."
Caio sentiu o rosto esquentar.
"Desculpa."
"Você não fez nada. Eu queria ficar feliz o tempo inteiro. Só não consegui."
Ele puxou uma folha caída da mesa e dobrou a ponta.
Não havia uma frase que pudesse dar a Rosa a mesma coisa que acabara de receber.
"Quer me contar como era a mão dela?" perguntou.
Rosa olhou para ele por um momento.
Depois mostrou o lugar da pinta no próprio dedo. Contou que Clara tinha as unhas curtas, mas pintava de vermelho quando ia a festas. Que colocava a mão fria na nuca dela para fazê-la gritar. Que sempre perdia os anéis dentro das bolsas.
Caio ouviu.
Não tentou transformar Elisa numa segunda mãe para a prima. Só ficou ali, segurando o copo enquanto Rosa falava da pessoa que continuava ausente.
Quando voltaram à sala, Elisa havia lavado o rosto. Vítor estava perto da estante, com uma fotografia antiga nas mãos. Tirara da pasta de Caio com sua permissão, pedida por Helena na varanda.
"Você conservou isso", Elisa disse.
"Foi a Lurdes."
A mãe se voltou para a avó.
"Eu preciso entender o que aconteceu. Não tudo hoje. Mas preciso."
Lurdes assentiu.
Vítor devolveu a fotografia. Ao fazê-lo, deixou aparecer uma pequena cicatriz perto da base do polegar.
Elisa segurou a borda do papel.
"Você machucou a mão no portão."
Ele ficou imóvel.
Caio olhou de um para o outro.
"Que portão?"
"Da casa da Lurdes", a mãe respondeu. Franziu a testa. "Eu estava no carro para ir à consulta. Você estava lá. A Clara queria vir, mas você disse que era melhor esperar."
Vítor baixou a mão.
Caio sentiu o coração acelerar.
Sua mãe não precisava lembrar de cada palavra para que ele entendesse aquela parte.
"O senhor foi à minha casa?"
Vítor olhou para Lurdes.
Ela não desviou os olhos.
"Responda para ele."
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