"Duas Pulseiras de Prata — e a Mãe Que Disseram Estar Morta" Capítulo 6
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O MENINO QUE CRESCEU
A primeira coisa que Caio viu foi uma mangueira.
Os galhos passavam por cima do muro da casa de cuidados, e algumas folhas tinham caído perto do portão. Ele se concentrou nelas enquanto Vítor estacionava. Havia três folhas amarelas e uma ainda verde.
Se contasse até dez, talvez conseguisse sair do carro.
Chegou ao oito e recomeçou.
"Quer que eu espere aqui com você?" Rosa perguntou.
Lurdes já estava do lado de fora. Mantinha uma mão no teto do carro, olhando para a entrada.
"Eu vou", Caio respondeu.
Mas não abriu a porta.
Rosa esperou. Não disse que ele precisava ser corajoso. Caio agradeceu por isso sem encontrar palavras.
Quando finalmente saiu, as pernas pareciam mais compridas do que na véspera. Tropeçou no próprio tênis e ficou furioso consigo mesmo.
Helena os recebeu no portão. Cumprimentou cada um pelo nome, mostrou o banheiro e indicou onde podiam deixar as bolsas. Caio ficou com a sua.
Vítor permaneceu um pouco atrás.
"Eu espero na sala ao lado", disse.
Caio assentiu. Não sabia se queria que ele entrasse, e ficou aliviado por não precisar decidir naquele instante.
O corredor tinha cheiro de café. Havia um rádio ligado em algum lugar, baixo demais para entender a música.
Elisa estava junto de uma janela aberta, com um livro no colo.
Caio parou antes da porta.
Não era igual à fotografia.
Claro que não era. Ele sabia disso. Mesmo assim, a diferença o atingiu: o cabelo mais curto, os fios brancos perto da orelha, uma das mãos apoiada sobre a outra. Sua mãe usava uma blusa amarela e calças de tecido macio. Um chinelo tinha escorregado um pouco do pé.
Uma pessoa viva podia ficar com o chinelo torto.
O pensamento quase o fez chorar.
"Elisa", Lurdes chamou.
A mulher ergueu os olhos.
Seu rosto se abriu num sorriso que desapareceu antes de ficar completo.
"Lurdes. Você veio."
A avó se aproximou devagar. Elisa olhou por cima do ombro dela.
Viu Rosa primeiro.
Depois Caio.
Ele esperou.
A mãe o examinou com atenção, como se procurasse um nome numa gaveta cheia de coisas.
"Esse é o Caio", Lurdes disse.
Elisa olhou para Helena.
Caio sentiu o boletim dentro da mochila encostar em suas costas.
Tinha sido uma ideia idiota trazer aquilo.
"A gente conversou sobre a visita", Helena lembrou com suavidade. "Ele chegou hoje."
Elisa assentiu. Os olhos dela voltaram ao rosto dele.
"Você está muito alto."
Caio não sabia se ela estava falando com o menino da fotografia ou com ele.
"Tenho onze anos."
Ela apertou uma mão na outra.
"Eu sei. Me contaram."
O silêncio se alongou.
Caio começou a dar um passo para trás. Rosa tocou de leve na sua manga, sem segurar.
Ele viu a prata no pulso dela e lembrou por que estava ali.
Puxou a própria manga.
"Eu trouxe isso."
Elisa se inclinou. O livro escorregou do colo e Helena o recolheu.
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"A pulseira."
Caio assentiu.
"Minha avó me deu. Ela falou que era sua."
A mãe estendeu a mão. Parou no meio do caminho, olhando para ele.
Caio se aproximou e ofereceu o pulso.
Os dedos dela estavam quentes.
Elisa virou a peça até encontrar a letra por dentro. Passou a unha no E e deu uma risada pequena, que se perdeu num soluço.
"Você enfiava isso na boca. Eu tinha que guardar longe."
Caio olhou para ela.
"Eu mordia?"
"Tudo. Até o nariz do seu pai. Ele fingia que doía e você ria tanto."
A boca dela tremeu.
Caio nunca tinha ouvido aquela história.
Nunca ninguém lhe contara como ria no colo do pai.
"Eu sou o Caio", repetiu. Dessa vez, a frase saiu quebrada. "Eu cresci."
Elisa ergueu o rosto para ele.
"Eu estou vendo, meu amor. Estou vendo."
Ela abriu os braços sem levantar.
Caio se abaixou desajeitado e encostou o rosto no ombro dela. Não sabia onde pôr as pernas, nem como abraçar alguém sentado sem apertar demais. Elisa o puxou um pouco mais para perto.
Cheirava a creme de mãos e roupa seca no sol.
Ele chorou antes de conseguir dizer mãe.
A palavra veio depois, contra o tecido amarelo.
Elisa passou a mão em sua nuca. Fez o movimento várias vezes, sempre no mesmo lugar. Caio ficou ali até a camisa dela se molhar.
Quando se afastou, a mãe limpou seu rosto com os polegares. Uma lágrima dela caiu no queixo dele.
"Desculpa", ela murmurou.
Caio soltou uma risada nervosa.
"Você está chorando em mim."
"Estou. Não trouxe lenço suficiente."
Lurdes ofereceu o pacote que segurava. Elisa pegou um, depois entregou outro ao filho.
Ele sentou numa cadeira tão perto que os joelhos quase tocavam os dela.
"Por que você não voltou?"
A pergunta mudou a expressão da mãe. Ela olhou para as próprias mãos.
Helena permaneceu junto da janela. Ninguém tentou responder por Elisa.
"Eu queria", ela disse. "Mas querer não fazia meu corpo conseguir. Teve uma época em que eu não conseguia lembrar onde estava. Depois eu lembrava de você pequeno e achava que sua avó ia trazer você na semana seguinte. Quando percebia quanto tempo tinha passado, eu ficava com muita vergonha."
Caio apertou o lenço até formar uma bolinha.
"Eu achei que você tinha morrido."
Elisa olhou para Lurdes.
A avó começou a falar, mas a mãe ergueu a mão.
"Depois."
Voltou-se para Caio.
"Você passou todo esse tempo achando isso?"
Ele assentiu.
Elisa fechou os olhos. Uma lágrima ficou presa nos cílios.
"Eu não sabia que tinham contado assim."
"Você nunca pediu para falar comigo?"
"Pedi. E houve dias em que não pedi porque não conseguia. Eu não vou lembrar de todas as vezes. Não quero inventar uma resposta para você."
Caio ficou olhando para o lenço amassado.
A mãe encostou dois dedos na mão dele.
"Eu queria ter estado lá. Eu sinto muito por não ter conseguido."
Ele não sabia se aquilo bastava. Não precisava decidir naquele momento.
Abriu a mochila.
"Trouxe meu boletim."
Elisa recebeu o papel como se ele tivesse entregado uma coisa frágil.
Percorreu as linhas devagar.
"Matemática é a melhor?"
"É. Português nem tanto."
"Oito não parece pouco."
"Na última foi seis."
Ela olhou para ele, séria por um instante.
"Então esse oito deu trabalho."
Caio assentiu. Sentiu uma coisa se acomodar no peito, pequena e quente.
Só depois percebeu que Rosa continuava perto da porta, com as mãos juntas no colo, esperando sem interromper.
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