"Duas Pulseiras de Prata — e a Mãe Que Disseram Estar Morta" Capítulo 5

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SE ELA NÃO ME RECONHECER

Na segunda-feira, a professora pediu que Caio lesse o segundo parágrafo.

Ele começou pelo quarto.

Dois colegas riram. A professora tocou de leve na página e disse que tudo bem, podiam tentar outra vez.

Caio teve vontade de contar para ela. De dizer que sua mãe estava viva e que, por causa disso, as letras não ficavam no lugar. Mas havia vinte e sete pessoas na sala, e ele não queria que uma notícia tão grande virasse assunto do recreio.

Leu o parágrafo certo e passou o resto da aula desenhando o fecho de uma pulseira no canto do caderno.

A visita seria na quinta-feira.

Ele ouvira a ligação inteira. Lurdes dissera o nome de Elisa, confirmara seus próprios dados e pedira para falar com Helena, a profissional que acompanhava a família na instituição. Não houvera mistério de arquivo perdido nem uma porta que o dinheiro de Vítor precisasse abrir. Havia um número numa pasta que Caio nunca soubera que podia consultar.

Isso o deixava com raiva de um jeito novo.

Na terça, Lurdes fez frango com batata. Era sua comida preferida. Caio comeu o arroz e deixou o resto.

"Ficou ruim?"

"Não estou com fome."

A avó recolheu o prato sem insistir. Depois ele a encontrou sentada na cozinha, diante da travessa quase intacta.

Pegou uma batata com o garfo.

Não era perdão. Só estava com fome, e ela parecia cansada demais para continuar fingindo que não notava.

"Sua mãe gostava do frango mais dourado", Lurdes disse.

Caio mastigou devagar.

"Você pode me contar essas coisas. Só não precisa contar tudo de uma vez."

A avó assentiu.

No dia seguinte, Rosa veio com Vítor. O pai ficou na sala com Lurdes, separando os documentos para a viagem. Caio levou a prima até a varanda dos fundos.

Havia um pequeno degrau entre a cozinha e a varanda. Ele pegou a rampa de madeira que o vizinho fizera na noite anterior, depois de Neide perceber o problema. Rosa experimentou a passagem devagar.

"Ficou boa", disse.

Caio afastou uma cadeira.

"Eu falei que não precisava vir antes da viagem."

"Meu pai falou que eu estava perguntando a mesma coisa a cada dez minutos. Achou mais fácil me trazer."

Ela colocou uma caixa sobre a mesa.

"Dominó. Não tem como você dizer que não sabe jogar."

Caio conhecia. Jogava com a avó desde pequeno, e isso quase o fez recusar.

Rosa começou a distribuir as peças sem pressa.

"Você escolheu uma roupa?"

"Para quê?"

Ela olhou para ele.

"Para ir ver sua mãe."

"Não."

Era mentira. Havia três camisetas estendidas sobre a cama. Uma parecia infantil demais. Outra tinha uma mancha na gola. A terceira fora presente de Lurdes, e ele não queria lembrar disso toda vez que olhasse para baixo.

Rosa abriu o jogo.

"Eu tentaria uma que não pinicasse. Se você ficar nervoso e ainda estiver com coceira, vai ser horrível."

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Caio riu.

Foi a primeira recomendação útil que alguém lhe dera.

Jogaram duas rodadas. Rosa ganhou a primeira e perdeu a segunda, depois de acusá-lo de esconder uma peça sob o braço.

"É o meu cotovelo."

"Parece um seis."

Ele dobrou o braço para conferir. Ela começou a rir antes que pudesse impedir.

Quando a risada acabou, o silêncio não ficou desagradável.

Caio empilhou duas peças.

"Você lembra da sua mãe?"

Rosa continuou olhando para o jogo.

"De algumas coisas. Ela não sabia fazer trança. Puxava meu cabelo inteiro e dizia que era porque estava quase ficando bom."

Caio sorriu.

"E ela cantava mal. Mas só lembro que era ruim. Não consigo lembrar direito da voz."

Rosa apertou os lábios. Ele viu que estava tentando não chorar.

"Não tem vídeo?"

"Tem. Só que no vídeo eu lembro do vídeo. Não sei se você entende."

Caio achava que entendia. Toda lembrança que tinha da própria mãe era uma fotografia que outra pessoa lhe dera.

"Eu fico tentando imaginar como vai ser", confessou. "Se chamo de mãe logo. Se abraço."

"Você pode perguntar."

"Filho pergunta isso?"

Rosa girou uma peça entre os dedos.

"Eu não sei. Acho que vocês vão ter que descobrir."

Mais tarde, Helena conversou com ele por chamada de vídeo. Caio permaneceu na varanda, com Lurdes e Vítor perto o bastante para ouvir, mas sem sentar ao seu lado.

A mulher tinha óculos vermelhos e uma voz comum. Isso o tranquilizou. Temera uma voz parecida com a dos médicos de televisão quando iam dar uma notícia ruim.

Helena explicou que Elisa sabia da visita. Haviam mostrado uma fotografia recente de Caio, enviada com a autorização dele. Ela ficara emocionada e fizera muitas perguntas.

"Ela sabe que eu cresci?"

"Sabe. Mas uma coisa é saber, outra é encontrar você. Talvez precise de um tempo para se acostumar. Você também."

Caio puxou a manga até cobrir a pulseira.

"Ela pode não saber quem eu sou?"

"Pode demorar a reconhecer. Pode se confundir. Não é uma prova que você tem que fazer dar certo. Vamos estar perto para ajudar."

Ele assentiu sem olhar para a câmera.

"E se ela pedir para eu ir embora?"

Helena esperou até que ele erguesse os olhos.

"Se alguma coisa ficar difícil, a gente faz uma pausa. Isso não quer dizer que ela não queira você."

Depois da chamada, Caio entrou no quarto.

Escolheu a camiseta azul, a única sem desenho e sem costura dura na gola. Dobrou com cuidado e a deixou sobre a cadeira.

Lurdes bateu no batente.

"Quer que eu passe?"

Ele olhou para a camiseta. Havia uma dobra atravessando o peito.

"Quero. Mas sem aquele cheiro forte."

"Só água."

A avó pegou a roupa e foi para a área de serviço.

Caio ficou ouvindo o ferro deslizar sobre o tecido. Na mochila, colocou as duas cartas, a fotografia do portão e o boletim da escola. Tirou o boletim. Colocou de volta.

Não sabia se sua mãe ia querer ver suas notas.

Não suportava a ideia de chegar lá e descobrir que ela queria, mas ele não tinha levado.

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