"Duas Pulseiras de Prata — e a Mãe Que Disseram Estar Morta" Capítulo 4
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A CARTA QUE ERA MINHA
Caio olhou para a porta da cozinha.
Durante um segundo absurdo, pensou que Elisa pudesse estar no cômodo ao lado. Que bastava levantar, passar pela cortina e encontrá-la bebendo água junto da pia.
"Ela está onde?"
"Numa casa de cuidados. Ela sobreviveu à cirurgia, mas ficou com dificuldades. A memória, o equilíbrio. Durante muito tempo, não conseguia cuidar nem das próprias coisas."
"Mas está viva."
"Está."
Caio se levantou tão depressa que a cadeira bateu na parede.
"Então por que você falou que ela morreu?"
Lurdes não tentou corrigir o jeito como ele a chamou. Apoiou as mãos nos joelhos, como fazia quando precisava se levantar, mas permaneceu sentada.
"Porque eu não soube explicar. Depois tive medo de contar que tinha mentido."
Caio ouviu um carro passar na rua. O portão do vizinho rangeu. Era insuportável que as coisas continuassem acontecendo.
"Você disse que ela estava no céu."
A avó começou a chorar outra vez.
"Eu sei."
"Quando eu tinha medo de morrer, você dizia que ia encontrar ela."
Lurdes cobriu a boca.
Caio encostou na parede. Queria que alguém chegasse e dissesse que a avó estava confusa por causa da infecção. Mas a carta estava sobre o colo dela. E a caixa azul sempre existira.
"Eu visitava sua mãe", ela disse. "No começo, levava você. Você chorava quando precisava ir embora, e ela ficava agitada. A equipe pediu que a gente reorganizasse as visitas. Eu não sabia lidar com aquilo. Seu pai tinha morrido, você era tão pequeno e eu precisava trabalhar."
Ela pegou um lenço do bolso.
"Eu devia ter pedido ajuda a mais gente. Em vez disso, fui fazendo o que dava, um dia depois do outro. Quando você começou a perguntar, eu disse que ela tinha partido. Você perguntou se tinha morrido. Eu deixei você acreditar. Depois repeti."
"E você continuou indo lá?"
"Menos do que deveria. Houve transferências. Às vezes eu falava por telefone. A última vez que fui pessoalmente foi no ano passado."
A resposta tirou de Caio uma esperança que ele nem sabia ter.
"Você viu ela no ano passado e voltou para casa sem me contar."
Lurdes assentiu, olhando para o chão.
Ele puxou a gola da camiseta. Estava apertada, embora fosse a mesma que vestira de manhã.
"Eu fiz um desenho para ela no Dia das Mães. Eu enterrei no quintal porque achei que assim chegava mais perto. Você viu eu fazendo isso."
"Eu vi."
"Não fala só que viu!"
A própria voz o assustou. Lurdes encolheu os ombros, e ele sentiu culpa imediatamente. A culpa o deixou ainda mais bravo.
Ela se levantou com esforço.
"Vou buscar a carta."
Caio a acompanhou até o quarto. A caixa azul ficava na prateleira baixa do armário, atrás de toalhas que nunca eram usadas. A avó precisou de duas tentativas para acertar a chave. Ele esperou sem oferecer ajuda.
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Dentro havia documentos, um carrinho vermelho sem uma roda e um envelope com seu nome.
Caio sentou na beirada da cama.
A letra era menos firme do que na primeira carta.
"Ela escreveu depois da cirurgia?"
"Algumas semanas depois. Tinha dias em que conseguia escrever melhor."
Lurdes retirou uma pasta de documentos e ficou perto da cômoda.
Caio abriu o envelope.
Meu Caio,
Hoje você veio me ver com uma meia azul e outra amarela. Sua avó disse que você mesmo escolheu. Achei bonito. Talvez, quando puder ler isto, você já prefira usar as duas da mesma cor.
Ele olhou para os próprios pés. Os tênis continuavam úmidos.
Estou escrevendo porque às vezes as palavras somem quando eu preciso delas. Eu sei o que quero dizer, mas não consigo. Quero que uma coisa fique bem guardada: eu pedi à sua avó que cuidasse de você enquanto eu tentava melhorar. Não pedi para deixar de ser sua mãe.
Caio leu a última frase de novo.
Lembrou de um colega dizendo que mãe de verdade nunca deixava filho. Na ocasião, ele havia dado um empurrão no menino e recebido um bilhete da escola. Lurdes assinara sem perguntar muito.
Se eu demorar, você pode ficar bravo. Eu também fico. Hoje tentei fechar o botão da minha blusa cinco vezes e chorei porque parecia uma coisa pequena demais para eu não conseguir fazer.
Não quero que você passe os dias esperando que eu apareça. Quero que tenha amigos, que aprenda a nadar se tiver vontade e que coma a parte do meio do bolo antes que sua avó esconda para a visita.
Caio soltou uma respiração que quase foi uma risada.
Lurdes sempre guardava o melhor pedaço para uma visita que raramente vinha.
Quando a gente puder ficar junto, você vai precisar me contar muita coisa. Eu vou querer saber. Mesmo que precise perguntar outra vez.
Com todo o amor que cabe em mim,
Mamãe.
Havia uma marca arredondada perto da assinatura. Uma gota, talvez. Caio não encostou nela.
"Posso guardar?"
Lurdes apertou o lenço.
"É sua. Sempre foi."
Ele colocou a carta ao lado da primeira.
A avó abriu a pasta. Mostrou uma fotografia de Elisa num jardim, mais velha do que na imagem do portão, com uma manta nos joelhos. Atrás dela havia um banco branco e uma parede amarela.
Caio tocou o rosto da mãe com a unha.
Ela tinha vivido todos aqueles anos. Tinha cortado o cabelo. Tinha ficado mais velha. Enquanto ele imaginava uma pessoa que nunca mudava.
"É aqui?"
"Era. Agora está em outra unidade. Tenho o telefone e o nome da assistente social."
"Eu quero ir amanhã."
"Precisa combinar primeiro."
Ele levantou o rosto.
Lurdes recuou um passo.
"Eu vou ligar. Você vai ouvir a conversa. Não vou decidir isso sozinha outra vez."
Caio ficou olhando para ela até acreditar que terminara de falar.
Pegou o celular antigo que usava para avisar à avó quando saía da escola e mandou uma mensagem para o número que Rosa havia escrito num papel.
Minha mãe está viva.
A resposta só veio de manhã. Ele passou as horas restantes na cama, acordando sempre que começava a sonhar.
Quando a tela acendeu, havia duas mensagens.
Eu estou aqui.
Você quer que eu vá com você?
Caio segurou o telefone com as duas mãos.
Quero.
Depois acrescentou, antes que a coragem passasse:
Mas estou com medo.
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