"Duas Pulseiras de Prata — e a Mãe Que Disseram Estar Morta" Capítulo 3

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O QUE NÃO ME CONTARAM

"Eu quero ver essa carta."

Vítor olhou para Neide como se esperasse que ela estabelecesse uma hora de dormir.

Caio se levantou.

"É da minha mãe. Eu quero ler."

"Está no meu apartamento", Vítor respondeu. "Posso levar para sua avó amanhã."

"O senhor já ficou com ela nove anos."

A frase saiu mais alta do que Caio pretendia. Um casal olhou da porta. Ele sentiu o rosto queimar, mas não retirou o que disse.

Neide tocou de leve no ombro dele.

"A gente pode buscar antes de ir para casa?" perguntou a Vítor.

O homem assentiu.

Augusto começou a se levantar também.

Caio encarou os sapatos dele.

"Eu não quero que o senhor vá."

O velho parou com a mão apoiada na cadeira.

"Eu só gostaria de ajudar."

"Eu ainda nem sei quem o senhor é."

Por um instante, Caio achou que ele fosse insistir. Augusto ajeitou o punho da camisa e voltou a sentar.

"Está bem."

Rosa pediu para acompanhar. Vítor disse que precisava levá-la para casa de qualquer maneira, e Neide avisou a equipe da cozinha. Caio esperou no saguão com uma toalha nos ombros, incomodado com o luxo de tudo e mais incomodado ainda por gostar do calor.

"Você não precisa falar com ele só porque é seu avô", Rosa comentou.

"Você gosta dele?"

Ela passou um dedo pela própria pulseira.

"Eu gostava antes de ouvir tudo isso. Acho que ainda gosto. Só estou brava."

Caio conhecia aquela confusão. Amava Lurdes desde antes de saber dizer seu nome. E naquele momento não queria ouvir a voz dela.

A van adaptada esperava na entrada. Rosa entrou pela plataforma e foi acomodada com a ajuda de um funcionário. Caio tentou pegar a mochila dela.

"É só uma bolsa", ela avisou. "Você pode perguntar antes."

"Quer ajuda com a bolsa?"

"Agora quero. Está presa na minha roda."

Ele soltou a alça. Rosa agradeceu como se aquela pequena discussão não tivesse acontecido.

No apartamento, Caio mal viu a sala. Fixou os olhos na porta pela qual Vítor desapareceu. A casa cheirava a madeira limpa e a alguma coisa que lembrava sabonete caro.

Havia uma fotografia de Clara ao lado de um vaso.

Caio chegou perto.

Na imagem, ela segurava Rosa ainda pequena. As duas estavam deitadas num tapete, rindo de alguma coisa fora do enquadramento.

Ele tentou imaginar a própria mãe deitada assim com ele.

Não conseguiu.

Vítor voltou com uma pasta escura. Retirou o envelope e o deixou sobre a mesa diante de Caio.

"Pode pegar."

Caio reconheceu a letra antes de ler a assinatura. Era a mesma que havia escrito seu nome atrás de uma fotografia de bebê, com o C grande demais.

A primeira linha dizia: Clara, eu preciso que você leia até o fim.

Ele sentou.

Elisa contava que Júlio havia morrido num acidente. Dizia que os dois tinham um menino de dois anos, que ele queria fazer tudo sozinho e chamava qualquer caminhão de ônibus.

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Caio passou o polegar sobre essa parte.

Ônibus.

Ninguém nunca lhe contara aquilo.

A carta continuava. Elisa precisava fazer um tratamento. Estava com dores fortes na cabeça, esquecia coisas e tinha medo de deixar o filho cair quando vinha uma tontura. Lurdes cuidava dos dois, mas já estava cansada.

Ela pedia à irmã que fosse vê-la. Pedia que não avisasse Augusto antes de conversarem.

Caio levantou a cabeça.

"Por que ela estava com medo dele?"

Vítor se sentou na outra ponta do sofá.

"Porque ele havia feito ameaças quando ela saiu. Disse coisas sobre conseguir trazer qualquer neto de volta para a família. Não sei exatamente o que Elisa ouviu depois."

"Ele podia me tirar da minha mãe?"

"Eu não posso dizer o que teria acontecido. Sua mãe tinha motivos para ter medo do que ele podia tentar."

Neide puxou uma cadeira para perto. Caio continuou lendo.

No fim, havia um pedido para que Clara procurasse Lurdes se não conseguisse falar com ela. E, abaixo da assinatura, uma linha acrescentada com uma caneta mais clara.

Deixei outra carta para o Caio na caixa azul. Se eu não conseguir explicar, leia com ele.

Caio virou o papel. Não havia mais nada.

"Minha tia leu isso?"

Vítor passou a língua pelos lábios.

"Eu contei que a Elisa tinha escrito. Disse que ia tentar encontrá-la."

"Mas ela leu?"

"Não essa carta inteira."

Rosa ergueu o rosto para o pai.

"Por quê?"

"Eu achei que precisava resolver algumas coisas primeiro."

Caio dobrou o papel com cuidado. Sentia uma vontade enorme de amassá-lo e uma vontade maior ainda de guardá-lo dentro da roupa.

"Depois eu quero que o senhor me explique isso. Agora eu quero ir para casa."

Neide concordou imediatamente. Vítor ofereceu transporte para Campinas, e ela telefonou novamente para Lurdes antes de aceitar. O carro os deixou diante do portão pouco depois da meia-noite.

Vítor não entrou. Rosa havia ficado em São Paulo com a cuidadora que a acompanhava em casa.

"Amanhã eu ligo", ele disse pela janela.

Caio segurou a pasta contra o peito.

"Eu fico com a carta."

"Sim."

Lurdes estava na sala, com um xale por cima da camisola. A filha de Neide levantou do sofá ao vê-los. Sobre a mesa havia um copo de água e uma cartela de comprimidos.

A avó abriu os braços.

Caio parou perto da porta.

Ela abaixou as mãos devagar.

Neide contou que ele havia comido no caminho, confirmou o horário dos remédios e levou a filha embora. Antes de sair, apertou o braço dele.

"Amanhã você me ajuda a lavar as assadeiras. Eu quase infartei naquele hotel."

Caio assentiu. Ficou grato por ela ainda conseguir lhe dar uma tarefa comum.

Quando a porta fechou, Lurdes olhou para a pasta.

"Você mexeu na caixa azul."

"Eu estava procurando meu registro para o trabalho da escola. A senhora deixou eu pegar."

"Eu sei."

"Por que nunca falou da Clara?"

Lurdes puxou o xale.

"Porque era uma história muito triste."

"Eu achei uma pessoa igual à minha mãe e pensei que não estava enxergando direito. Podia ter me contado antes."

A avó começou a chorar em silêncio. Caio sempre corria para pegar água quando ela chorava. Dessa vez ficou onde estava.

Colocou a carta no colo dela.

Lurdes reconheceu o envelope e fechou os olhos.

"Eu não queria que você descobrisse assim."

"Então como queria?"

Ela não respondeu.

Caio sentou na cadeira em frente. Estava tão cansado que os joelhos doíam.

"Ela escreveu outra carta para mim. Eu quero ler."

Lurdes apertou o envelope até marcar o papel.

"Caio, eu errei."

Ele pensou nas dores de cabeça. Nos esquecimentos. No pedido para a irmã visitar.

"Ela morreu na operação?"

A avó começou a negar antes de conseguir falar.

Caio se inclinou.

"Vó. Olha para mim. A minha mãe morreu?"

Lurdes levantou o rosto molhado.

"Não, meu filho. Sua mãe está viva."

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