"Duas Pulseiras de Prata — e a Mãe Que Disseram Estar Morta" Capítulo 2
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DUAS MÃES NA MESMA FOTOGRAFIA
Vítor se abaixou para recolher o envelope. Quando voltou a se endireitar, não tentou tomar a fotografia.
"A Elisa e a Clara eram irmãs gêmeas."
Caio continuou de pé.
A frase parecia simples demais para tudo o que havia acontecido nos últimos minutos.
"Minha mãe tinha uma irmã?"
"Tinha."
Rosa afastou um cacho do rosto.
"A mamãe tinha uma irmã igual a ela e ninguém nunca me contou?"
Vítor olhou para a filha. Caio esperou que viesse uma explicação, mas o homem apenas apoiou as duas mãos no encosto da cadeira.
"Eu devia ter contado."
"Quando?" Rosa perguntou. "Porque eu já tenho nove anos."
Uma voz chamou do arco.
"Caio Martins!"
Dona Neide apareceu com o avental torcido nas mãos e a touca ainda cobrindo o cabelo. Ao vê-la, Caio sentiu alívio e vontade de fugir ao mesmo tempo.
"Você me disse que ia ao banheiro. Eu procurei naquele corredor inteiro."
"Eu fui. Depois eu vim aqui."
"Ah, então está explicado. São praticamente o mesmo lugar."
Ela o puxou para perto, examinou seu rosto e só então pareceu notar quem estava ao lado.
"Senhor Vítor, me desculpe. Eu não sabia que ele tinha entrado."
"Não tem problema."
"Tem, sim", ela respondeu, sem elevar a voz. "A avó dele confiou em mim."
Caio baixou a cabeça.
Neide percebeu o prato, o guardanapo e a fotografia.
"O que está acontecendo?"
"Ele está mostrando a mãe dele", Rosa disse. "Ela era irmã da minha."
Neide olhou para Vítor antes de olhar para Caio.
"Você veio por isso?"
Ele assentiu.
"Você podia ter me contado."
Caio não encontrou resposta. Temera que Neide dissesse não. Agora a preocupação dela parecia pior do que uma bronca.
Vítor pediu que ela se sentasse. O garçom trouxe água e uma cadeira. Neide ligou para casa e, antes de entregar o telefone a Caio, fez uma expressão que prometia uma conversa comprida depois.
"Vó?"
"Você está bem?"
A voz de Lurdes estava rouca.
"Estou."
"Então por que a Neide achou que tinha perdido você?"
"Porque eu saí de perto dela. Desculpa."
Houve um silêncio cheio da respiração da avó.
"Eu fui falar com o Vítor Azevedo."
O silêncio mudou.
Caio apertou o aparelho contra a orelha.
"Vó?"
"De onde você tirou esse nome?"
"Da foto. Ele está aqui. A filha dele tem uma pulseira igual à minha."
"Passe o telefone para a Neide."
"Mas ele disse que a minha mãe tinha uma irmã. Por que você nunca me contou?"
"Caio, eu preciso falar com uma pessoa adulta."
A frase o atingiu de um jeito que ela provavelmente não percebeu.
Ele entregou o telefone e sentou longe do prato.
Rosa encostou a cadeira na poltrona dele.
"Eu também odeio quando fazem isso."
Caio não respondeu, mas deixou a fotografia sobre a mesa outra vez.
Enquanto Neide falava num canto, um homem de cabelos brancos parou na entrada. Caio o reconheceu de outra imagem da caixa azul. Estava mais velho, com o pescoço mais fino, mas tinha o mesmo jeito de manter o queixo elevado.
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O homem olhou para a mesa. Depois para o braço de Caio.
"Onde você conseguiu essa peça?"
Vítor se virou.
"Augusto, precisamos de um minuto."
"Essa pulseira era da Elisa."
Caio sentiu uma irritação repentina. Todos conheciam sua pulseira. Todos conheciam a mãe. Ele era o único que chegava atrasado à própria história.
"Eu sei. Ela era minha mãe."
O homem levou os dedos à borda de uma cadeira.
Rosa chamou baixinho:
"Vô?"
Caio olhou para ela.
Depois para ele.
"O senhor também era pai da Elisa?"
Augusto assentiu. Abriu a boca duas vezes antes de conseguir falar.
"Qual é o seu nome?"
"Caio."
"Quantos anos você tem?"
"Onze. Todo mundo quer saber isso."
Rosa quase sorriu, mas a expressão do avô a fez recuar.
Augusto sentou. Parecia menor naquela cadeira do que parado sob o arco.
"Eu não sabia de você."
Caio procurou o rosto de Vítor. Ele olhava para o chão.
"Não sabia mesmo?"
"Não."
"Por que eu não conhecia o senhor?"
Augusto passou o polegar na costura da calça.
"Porque eu briguei com sua mãe. Ela foi embora e nós nunca fizemos as pazes."
"Por causa do meu pai?"
O velho ergueu os olhos.
"Você sabe disso?"
"Minha avó dizia que a família dela não gostava dele. Eu achei que fosse uma tia."
Rosa juntou as mãos no colo. Ninguém ria agora.
Augusto contou que Júlio trabalhava numa oficina. Que Elisa queria estudar fotografia e morar com ele. Que ele, Augusto, tinha decidido que a filha precisava trabalhar na empresa da família e se casar com outra pessoa.
"Eu disse que ela não receberia mais ajuda se saísse de casa. Achei que voltaria quando o dinheiro acabasse."
Caio imaginou a mulher da fotografia diante daquele homem, segurando uma mala. Não sabia como sua mãe discutia. Não sabia se gritava ou ficava calada.
"Ela voltou?"
"Não."
Caio sentiu um orgulho pequeno, dolorido.
"Meu pai era bom com carros. A Neide disse que ele consertou o dela de graça uma vez."
Augusto baixou a cabeça.
"Eu devia ter conhecido melhor o seu pai."
Neide voltou e ficou atrás da poltrona de Caio. Não o interrompeu. A presença dela permitiu que ele soltasse a alça da mochila.
Rosa ergueu o pulso.
"Foi você que deu as pulseiras para elas?"
"Foi a avó de vocês. A Joana. Mandou fazer quando as duas completaram treze anos."
"E o desenho?" Caio perguntou.
Augusto estendeu a mão, mas parou antes de tocar nele.
"Era a marca da oficina do meu avô. Ele desenhava três ramos e deixava o círculo aberto. Dizia que sempre precisava sobrar espaço para alguém entrar."
Caio olhou para o pequeno vão gravado na prata.
"Mas o senhor não deixou minha mãe voltar."
O velho engoliu em seco.
"Não deixei que ela acreditasse que podia."
Caio não soube o que fazer com uma resposta daquela. Preferia que o homem negasse. Seria mais fácil continuar com raiva.
"Então a gente é primo?" Rosa perguntou.
Vítor confirmou.
Ela olhou para Caio com uma curiosidade nova.
"Eu nunca tive primo perto. Você gosta de jogo de tabuleiro?"
"Depende do jogo."
"Eu aviso antes: não deixo ninguém ganhar porque é visita."
Caio soltou uma risada pelo nariz. Depois se lembrou de Lurdes esperando em casa.
"Minha mãe e a sua se falavam?"
Rosa perdeu o sorriso. Também queria ouvir.
Vítor puxou uma cadeira e sentou diante dos dois.
"Durante um tempo, sim. Depois perderam contato. A Clara tentou encontrar a Elisa."
"O senhor ajudou?" Caio perguntou.
"Eu procurei algumas informações."
"E achou o quê?"
Vítor olhou para Neide. Ela permaneceu séria.
"Ele perguntou ao senhor", disse.
Augusto se endireitou.
O pai de Rosa esfregou as mãos. Caio viu que uma delas tremia.
"Eu recebi uma carta da Elisa. Foi há nove anos. Ela escreveu depois que seu pai morreu."
Caio sentiu a saliva desaparecer da boca.
"Ela pediu ajuda?"
Vítor demorou um segundo a mais do que devia.
"Pediu."
O prato ainda estava sobre a mesa. Os pães de queijo haviam esfriado.
Caio já não sentia fome.
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