"Duas Pulseiras de Prata — e a Mãe Que Disseram Estar Morta" Capítulo 1

PUBLICIDADE

A OUTRA PULSEIRA

"Você não pode chegar assim perto da minha filha."

O homem se colocou entre Caio e a menina antes que ele conseguisse explicar. Tinha um copo na mão, um paletó azul-escuro e o mesmo rosto da fotografia que Caio carregava dobrada dentro da mochila.

Era Vítor Azevedo. Finalmente.

Caio abriu a boca para dizer o nome da mãe, mas a menina virou a cadeira de rodas. A manga curta do vestido deixou aparecer uma pulseira de prata.

Ele conhecia aquele desenho.

Três pequenos ramos dentro de um círculo que não se fechava.

"Onde você conseguiu essa pulseira?"

Vítor olhou primeiro para o próprio copo. Depois para o pulso da filha.

"Quem deixou você entrar?"

"Eu fiz uma pergunta para ela."

A menina ergueu o rosto. Tinha cachos castanhos presos de um lado e uma expressão desconfiada que Caio conhecia bem. Era a mesma que fazia quando um adulto falava por ele.

"Era da minha mãe", respondeu. "Ela me deu antes de morrer."

Caio puxou a manga molhada do casaco.

A pulseira ficou presa por um instante na costura. Ele soltou o tecido com tanta força que arrancou um fio. Então estendeu o braço.

A menina deixou de olhar para seu rosto.

Vítor também.

As duas peças tinham a mesma largura e as mesmas bordas arredondadas. A de Caio estava mais escura por dentro. A dela brilhava sob as luzes do salão.

O desenho era igual.

"Quem deu isso a você?" Vítor perguntou.

A voz dele havia mudado. Já não parecia preocupado com a água que pingava do casaco no tapete.

"Minha vó. Era da minha mãe."

Vítor pousou o copo numa mesa sem olhar. A base bateu na borda de um prato.

"Qual é o nome dela?"

Caio baixou o braço.

Tinha passado a tarde querendo falar com aquele homem. Agora que o encontrara, não gostava da maneira como ele olhava para a pulseira.

"Da minha avó ou da minha mãe?"

"Da sua mãe."

Um garçom se aproximou com um guardanapo. Atrás dele, uma mulher de vestido verde olhava para os tênis de Caio. Um deles fazia um ruído úmido toda vez que ele mudava o peso de perna.

"Senhor Vítor, precisamos chamar alguém?"

"Ainda não."

A menina colocou as mãos nos aros da cadeira e avançou alguns centímetros.

"Eu sou a Rosa. Como você se chama?"

"Caio."

"Você está tremendo, Caio."

Ele enfiou a mão sem pulseira no bolso.

"Está frio lá fora."

Era uma resposta melhor do que admitir que não comia desde o almoço. A chuva havia começado quando ele ainda estava procurando a entrada lateral do Hotel Mirante. Agora eram quase nove da noite.

O garçom ofereceu o guardanapo. Caio aceitou, mas usou para secar o pulso.

"Você veio com quem?" Vítor perguntou.

"Com a minha vizinha. Ela está trabalhando na cozinha."

"Ela sabe que você está aqui?"

Caio apertou o guardanapo.

Dona Neide sabia que ele estava no hotel. Não sabia que havia saído da sala onde os funcionários deixavam os pertences para atravessar um corredor e entrar no jantar beneficente.

PUBLICIDADE

Ela o levara de Campinas porque Lurdes estava se recuperando de uma infecção, e a filha dela ficaria naquela noite com a avó. Caio pedira para acompanhar Neide. Dissera que queria conhecer São Paulo.

A parte de querer conhecer Vítor ficara de fora.

"Ela sabe que eu vim", respondeu.

Vítor percebeu a diferença. Caio viu pelo jeito como ele respirou antes de fazer outra pergunta.

"Qual é o nome da sua mãe?"

"Primeiro me diga por que está olhando assim."

A mulher de verde se afastou devagar. O garçom continuou ali, esperando uma ordem.

"Podemos conversar num lugar mais tranquilo", Vítor disse.

Caio deu um passo para trás.

"Eu não vou para um quarto com o senhor."

Rosa soltou uma risada curta e imediatamente ficou séria.

"Ele falou em outro lugar, não num quarto. Mas eu também prefiro ficar aqui."

Vítor passou a mão pela nuca.

"Naquelas poltronas. A porta fica aberta. E vamos chamar a pessoa que veio com você."

Caio olhou para o espaço indicado. Era um pequeno salão ao lado, visível através de um arco largo. Havia gente entrando e saindo.

"Minha mochila fica comigo."

"Ninguém vai pegar sua mochila."

Rosa girou a cadeira antes que o pai tentasse empurrá-la.

"Eu consigo."

Vítor recolheu as mãos.

Caio a seguiu. Quando passaram por uma mesa de doces, seu estômago se contraiu. Ele desviou o olhar depressa.

Rosa percebeu.

"Pode trazer uns pães de queijo?" pediu ao garçom. "A gente está ocupado demais para ir buscar."

Caio sentou na ponta de uma poltrona. A mochila ficou entre os pés. Não queria molhar o estofado e puxou o casaco para a frente, sem saber onde pôr os cotovelos.

Vítor tirou o próprio paletó e o deixou sobre o braço da cadeira.

"Você tem quantos anos?"

"Onze."

"E sua avó está em Campinas?"

Caio levantou os olhos.

"Eu não disse que era de Campinas."

"A Neide trabalha nos nossos eventos há anos. Você falou que veio com uma vizinha. Estou tentando entender."

Aquilo fazia sentido. Mesmo assim, Caio manteve a mochila encostada na perna.

Rosa estendeu o braço. A pulseira tinha uma pequena marca perto do fecho.

"A sua também tem alguma coisa escrita por dentro?"

Caio negou com a cabeça.

"Só uma letra. Um E."

"A minha tem C. De Clara."

Vítor se sentou.

Não foi um movimento tranquilo. Ele pareceu procurar a cadeira com a parte de trás dos joelhos.

Clara.

Caio conhecia aquele nome. Estava escrito atrás de uma das fotografias da caixa azul da avó: Clara e Elisa, verão. Mas havia duas mulheres pequenas demais na imagem para ele distinguir o rosto.

A fotografia que trouxera era outra.

"Minha mãe se chamava Elisa", disse.

Vítor ficou imóvel.

Caio reparou numa mancha pequena no punho da camisa dele. Café, talvez. Achou estranho notar aquilo justamente quando o resto parecia distante.

"Elisa Martins?" o homem perguntou.

"É. O nome do meu pai era Júlio."

PUBLICIDADE

Rosa olhou para o pai.

"Você conhece a mãe dele?"

Vítor não respondeu imediatamente.

O garçom chegou com um prato. Caio pegou um pão de queijo e o segurou sem comer. Tinha a sensação de que, se começasse a mastigar, perderia alguma coisa importante.

"Trouxe uma foto", falou.

Abriu o zíper. Tirou uma pasta de plástico, depois o envelope de papel. Havia copiado o nome de Vítor de uma dedicatória e encontrado o anúncio do jantar no celular de Neide. Na fotografia antiga, o homem aparecia ao fundo, perto de um portão. A mulher em primeiro plano sorria com o cabelo preso e a mão levantada para proteger os olhos do sol.

A pulseira aparecia no pulso dela.

Caio colocou a imagem sobre a mesa.

Vítor se inclinou. Rosa chegou mais perto, encostando a roda no pé da poltrona.

"Foi minha avó que tirou", Caio explicou. "Ela guardava junto com as minhas coisas de bebê."

Rosa tocou a borda da fotografia com a ponta do dedo.

"Essa é a minha mãe."

Caio puxou a foto de volta.

"Não é."

A menina o encarou, surpresa.

"Eu sei como era a minha mãe."

"E eu sei como era a minha."

O pão de queijo se desfez dentro da mão dele. Caio não percebeu até sentir o calor das migalhas na palma.

Vítor disse seu nome, mas ele não olhou.

Rosa apontou para o sorriso na imagem.

"Eu tenho uma foto dela assim no meu quarto. Ela fazia essa cara quando não queria que tirassem foto."

Caio se levantou.

O envelope caiu da mesa.

"Minha avó me deu essa fotografia. Ela disse que era minha mãe. A pulseira era dela. Eu não vim aqui para pegar nada de vocês."

Rosa retirou a mão depressa.

"Eu não disse que você veio pegar."

Vítor ficou de pé também.

Caio ergueu a fotografia entre os dois, com os dedos sujos de migalhas.

"Então explica. Porque ela está dizendo que essa mulher é a mãe dela. E essa mulher é a minha mãe."

Pela primeira vez desde que entrara no hotel, não tentou esconder que estava com medo.

PUBLICIDADE

você pode gostar

Compartilhar Link

Copie o link abaixo para compartilhar com seus amigos: